
Cecily von Ziegesar - It Girl 1

Garota Problema (completo)



Nunca permiti que a escola interferisse em minha educao.
                                        -- Mark Twain
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          UMA WAVERLY OWL NO DISCUTE
             SEMINUA COM ESTRANHOS.
A
        bolsa de viagem Jack Spade xadrez de algum bateu
        no queixo de Jenny Humphrey e a arrancou de um
        sonho. O trem Amtrak Empire Service das dez da
manh para Rhinecliff, em Nova York, tinha parado em
Pughkeepsie e um rapaz alto, de uns 20 anos e queixo eria-
do, usando culos quadrados e marrons Paul Smith e uma
camiseta da banda Decemberists, estava parado junto dela.
    -- Tem algum sentado aqui? -- perguntou ele.
    -- No -- respondeu ela meio grogue. Ele atirou a bolsa
debaixo do banco e se acomodou ao lado de Jenny.
    O trem gemia a quase um quilmetro por hora. Jenny
cheirou o ar ranoso e meio suarento do vago e sacudiu o p,
pensando que ia chegar superatrasada para o check-in na
Waverly Academy. Ela teria chegado cedo se o pai, Rufus, a
tivesse levado de carro para l com sua perua Volvo azul amas-
sada -- ele praticamente implorou a Jenny para deixar que
fizesse isso --, mas Jenny no queria que o pai pacifista e que
no fazia a barba a deixasse no novo e esnobe internato. Ela o
conhecia e sabia que ele teria tentado dar incio a um roda de
poesia improvisada com as novas colegas de turma de Jenny e
mostrado fotos antigas da filha, de quando ela era uma aluna
idiota da quinta srie e s usava suteres de l verde e laranja
fluorescente Old Navy. Hum, no, obrigada.
    -- Vai pra Waverly? -- perguntou o garoto. Ele ergueu as
sobrancelhas para o Guia de tica da Waverly Academy que esta-
va fechado no colo de Jenny.
    Jenny tirou um cacho de cabelos castanhos dos olhos.
    -- Vou -- respondeu ela. -- Vou comear este ano. -- Sua
voz no conseguia esconder o entusiasmo, estava to animada
para comear em seu novo internato que se sentia toda agita-
da por dentro, como se tivesse com vontade de fazer xixi.
    -- Caloura?
    -- No. Segundo ano. Eu era da Constance Billard. Na
capital. -- Jenny estava meio satisfeita por ter um passado re-
lativamente chique a que recorrer, ou que pelo menos desse
essa impresso.
    -- Ento voc quer uma mudana de ritmo ou o qu? --
Ele remexeu na pulseira de couro do relgio.
    Jenny deu de ombros. Esse cara parecia ser da idade de seu
irmo, Dan. Dan tinha acabado de partir para Evergreeen
College, na Costa Oeste, dois dias antes, s com duas bolsas
de viagem, o laptop Mac G4 e dois pacotes de cigarros. Jenny,
por outro lado, j mandara quatro caixas abarrotadas e algu-
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mas bolsas de viagem enormes  Waverly, e estava levando com
ela a mala gigantesca e uma bolsa estufada de coisas. Nos pre-
parativos hiperempolgados para o colgio interno, ela prati-
camente comprou os produtos para cabelo, cosmticos e
femininos de todos os corredores da CVS -- quem sabia do
que ia precisar no internato? Ela tambm fez uma farra de com-
pras na Club Monaco, na J. Crew e na Barneys com o carto
de crdito que o pai lhe emprestara para as compras de volta
s aulas.
    -- Mais ou menos -- respondeu ela por fim.
    A verdade era que ela foi convidada a sair da Constance --
ao que parece, porque foi considerada uma "m influncia"
para as outras alunas. Jenny no pensava que era m influn-
cia alguma -- ela s estava tentando se divertir, como todas as
outras meninas da escola. Mas de algum jeito, todos os seus
momentos de extrema diverso tambm foram muito divul-
gados e constrangedores: uma foto de seus peitos num suti
esportivo apareceu em uma revista (ela achava que era uma
sesso de fotos de roupas esportivas), um vdeo de sua bunda
praticamente nua foi espalhado pela escola e ela tomou algu-
mas decises ruins sobre meninos com quem ficou em vrias
festas -- e  claro que todo mundo descobriu.
    A gota d'gua veio depois que Jenny passou uma noite no
Plaza Hotel com a banda do irmo mais velho, os Raves. Uma
foto dela saindo do Plaza com nada mais que um roupo bran-
co apareceu na Page Six online no dia seguinte. Voaram boa-
tos de que Jenny estava dormindo com todos os Raves, inclusive o
prprio irmo. Eca! Pais preocupados rapidamente apelaram
 diretora da Constance, alvoroados com a promiscuidade de
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Jenny. Afinal, a Constance tinha uma reputao de excelncia
a zelar!
    Embora Jenny no tenha ficado com nem um Rave, que
dir todos, ela no queria exatamente negar o boato -- ela meio
que adorou ser o assunto das conversas de todo o mundo. E
ento, enquanto estava sentada com a diretora da Constance
Billard, a Sra. McLean, em sua patritica sala vermelha, azul e
branca em Nova York, Jenny percebera uma coisa tima: no
era o fim do mundo ser expulsa da Constance. Era sua chance
de recomear, de reinventar a si mesma como a sofisticada que
no fazia asneiras que ela sempre quis ser. E qual era o lugar
de maior classe onde recomear? No internato,  claro.
    Para grande pesar do pai -- Jenny tinha certeza absoluta
de que Rufus queria que ela morasse com ele no apartamento
do Upper West Side para sempre -- Jenny tinha pesquisado
furiosamente um monte de escolas e visitou algumas. A pri-
meira escola tinha um cdigo de disciplina estrito e era chata
demais, para resumir. Por outro lado, minutos depois de che-
gar  segunda escola, ofereceram-lhe ecstasy e ela tirou a blu-
sa. Mas exatamente como a terceira cama da Cachinhos
Dourados, a terceira escola que Jenny procurara, a Waverly,
era exatamente a certa.
    Bom, para falar a verdade, ela no chegou a visitar a Waverly
realmente -- ela estava sem tempo, j havia passado o prazo
de matrcula e ela tomara algumas liberdades criativas com sua
solicitao -- mas ela viu milhares de fotos online e decorou
todos os nomes de prdios e mapas do campus. Jenny tinha
certeza de que seria perfeito.
    -- Eu era aluno de uma rival da Waverly -- disse o rapaz,
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tirando um livro da bolsa. -- A St. Lucius. Nossa escola odi-
ava a sua escola.
    -- Ah -- respondeu Jenny baixinho, afundando na pol-
trona.
    -- Estou brincando. -- Ele sorriu e se virou para o livro.
Jenny percebeu que era Trpico de Cncer, de Henry Miller, um
dos favoritos do pai dela. De acordo com Rufus, fora proibi-
do porque era avanado demais com sua crtica social depra-
vada do amor e do sexo em Nova York. Oba, cenas de sexo.
Jenny sentiu o rosto ficar rosado.
    Depois ela percebeu: estava agindo como a velha Jenny,
nada sofisticada. E uma coisa era certa: a velha Jenny obvia-
mente no a estava ajudando.
    Jenny analisou o rapaz com calma. Ela no o conhecia e
provavelmente nunca mais o veria de novo, ento por que se
importava com o que ele pensava dela? Na Waverly, Jenny ia
ser a Nova Jenny, formidvel e incrvel, a garota que estava no
centro de tudo.
    Ento por que no comear a se transformar na Nova Jenny
agora mesmo?
    Reunindo coragem, ela descruzou os braos e revelou os
grandes seios tamanho 42, que pareciam ainda maiores uma
vez que ela mal tinha 1,50 metro e meio de altura, e se endi-
reitou na poltrona.
    -- E a, humm, alguma parte boa neste livro?
    O rapaz ficou confuso, os olhos disparando da cara ino-
cente de Jenny para seus peitos e dali para a capa gasta do livro
em brochura. Por fim, ele franziu o nariz e respondeu.
    -- Talvez.
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    -- L pra mim?
    O garoto passou a lngua nos lbios.
    -- T legal. Mas s se primeiro voc ler para mim uma
frase daquele livro que estava com voc. -- Ele bateu na capa
marrom do amado Guia de tica da Waverly Academy de Jenny.
    -- Claro. -- Jenny abriu o livro de regras. Ela o recebeu
havia algumas semanas e o devorara da primeira  ltima p-
gina. Ela adorou a encadernao em couro macio, o papel cre-
me e o estilo de histria infantil, um tanto condescendente e
meio britnico em que era escrito. Parecia to maravilhosa-
mente respeitvel e de elite, e Jenny tinha certeza de que de-
pois de ter passado algumas semanas na Waverly, ela seria to
educada, graciosa e perfeita quanto Amanda Hearst, a jovem
socialite, ou a falecida Carolyn Bessette Kennedy.
    Ela deu um pigarro.
    -- Essa aqui  boa. "As Waverly Owls no podem danar
de forma sexualmente sugestiva em pblico." -- Ela riu. Isso
significava que podiam danar de forma sexualmente sugesti-
va em particular?
    -- Eles realmente se referem a vocs como Waverly Owls,
as Corujas da Waverly? -- O rapaz se inclinou para ver a pgi-
na. Ele tinha cheiro de sabonete Ivory.
    -- . -- Ao dizer isso, Jenny sorriu. Ela, Jenny Humphrey,
ia ser uma Waverly Owl!
    Ela virou a pgina.
    -- "Os Waverly Owls no podem ter intimidade sexual.
Uma Waverly Owl no deve se envolver em atividades que
possam ser perigosas, como pular da ponte Richards. Uma
Waverly Owl no usa alas finas nem minissaias acima do meio
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da coxa."
    O rapaz deu um sorriso sacana.
    -- J que esto falando de uma menina, no deveria ser
uma oulette, as "corujete"?
    Jenny fechou o livro num baque.
    -- T legal. Agora  a sua vez.
    -- Bom, eu acabei de comear, ento vou ler do incio.
-- O rapaz sorriu maliciosamente e abriu na primeira pgina.
-- "Desde o incio, treinei a mim mesmo para no querer nada
desesperadamente."
    Engraado, pensou Jenny. Ela estava com o problema con-
trrio -- ela queria tudo desesperadamente.
    -- "Eu era corrupto" -- continuou ele. -- "Corrupto
desde o comeo."
    -- Eu sou corrupta! -- soltou Jenny. -- Mas no desde o
comeo. -- A Velha Jenny no conseguia acreditar no que a
Nova Jenny estava dizendo.
    -- ? -- Ele fechou livro. -- A propsito, meu nome 
Sam.
    -- Jenny. -- Ela olhou para ver se Sam queria apertar a
mo dela, mas ainda estava enfiada por baixo da perna dele.
Os dois sorriram meio sem-jeito.
    -- E a, a sua corrupo tem alguma coisa a ver com o
motivo para voc sair de Nova York e ir para um internato?
-- perguntou Sam.
    -- Talvez. -- Jenny deu de ombros, tentando ser ao mes-
mo tempo recatada e misteriosa.
    -- Diz a.
    Ela soltou um suspiro. Podia admitir a verdade, mas Todo
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mundo pensou que eu tinha dormido com os caras daquela banda e eu
no neguei parecia meio piranhudo. Definitivamente no era
nem misterioso, nem chique. Ento ela decidiu tomar algu-
mas liberdades criativas.
    -- Bom, eu meio que me meti num desfile de moda in-
decente.
    Os olhos de Sam brilharam de interesse.
    -- Como assim?
    Ela pensou por um momento.
    -- Bom, aparentemente eu s estava de suti e calcinha.
E saltos. Acho que foi meio demais para algumas pessoas.
    Isso no era inteiramente uma mentira. Jenny tinha mesmo
trabalhado como modelo no ano passado -- para uma srie
de fotos de Les Best na revista W. Vestida. Mas as roupas no
pareciam muito interessantes naquele momento.
    --  mesmo? -- Sam deu um pigarro e ajeitou os culos.
-- J ouviu falar de Tinsley Carmichael? Voc deve conhec-
la.
    -- Quem?
    -- Tinsley Carmichael. Ela  da Waverly. Eu agora sou da
Bard, mas eu a encontrei algumas vezes em festas no ano pas-
sado... Ela vem para a escola no prprio avio. Mas me conta-
ram que ela decidiu sair da Waverly porque Wes Anderson lhe
ofereceu o papel principal no prximo filme dele.
    Jenny deu de ombros, sentindo-se estranhamente com-
petitiva -- e meio animada -- com essa tal de Tinsley. Ela
parecia a Nova Jenny ideal.
    O cobrador de aparncia exausta apareceu no corredor e
pegou o bilhete no alto da poltrona de Jenny.
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    -- Prxima parada, Rhinecliff.
    -- Ah.  a minha. -- Jenny respirou fundo. Estava mes-
mo acontecendo! Ela olhou pela janela, esperando ver algu-
ma coisa verdadeiramente mgica, mas s viu rvores verdes
luxuriantes, um campo amplo e postes telefnicos. Ainda as-
sim, rvores! Um campo! O nico campo em Manhattan era
o Sheep Meadow, no Central Park, e estava sempre cheio de
traficantes e magricelas seminuas tomando sol.
    Ela se levantou e pegou a bolsa LeSportsac vermelha de
bolinhas brancas e a antiquada mala marrom Samsonite que
pegara emprestada com o pai. Perto da ala, tinha um adesivo
enorme ABRACE, NO JOGUE BOMBAS. No era l
muito Nova Jenny. Enquanto ela lutava para colocar a mala
no cho, Sam se levantou para ajudar, puxando-a do bagagei-
ro sem esforo nenhum.
    -- Obrigada -- disse ela, corando.
    -- Tudo bem. -- Ele tirou o cabelo da frente dos olhos.
-- E a, vou poder ver fotos suas do... desfile?
    -- Se procurar na Internet -- mentiu Jenny. Ela olhou pela
janela e viu, do outro lado do campo, um velho catavento de
galo no alto de uma grande sede de fazenda esmaecida. -- O
nome do estilista , humm, Galo.
    -- Nunca ouvi falar dele.
    -- Ele  meio obscuro -- respondeu Jenny rapidamente,
percebendo que o rapaz educado vestido de camisa plo cor-
de-rosa sentado atrs deles estava sem dvida nenhuma ou-
vindo a conversa dos dois. Jenny tentou ver o que ele digitava
em seu celular BlackBerry, mas ele cobriu a tela quando per-
cebeu que ela estava olhando.
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    -- Voc... tem que ir na Bard um dia desses -- continuou
Sam. -- A gente faz umas festas que so demais. DJs timos e
essas coisas.
    -- T legal -- respondeu Jenny por sobre o ombro, er-
guendo as sobrancelhas s um pouco. -- Mas sabe como ,
uma Waverly Owl no pode danar de forma sexualmente
sugestiva.
    -- Eu no vou te dedurar -- respondeu ele, sem tirar os
olhos dos peitos dela.
    -- Tchau, Sam -- Jenny acenou, usando o tom de voz
mais musical de azarao. Ela saiu do trem para a plataforma
e respirou fundo o ar fresco do interior. Caraca.
    Ainda vai demorar um pouquinho at se acostumar com a
Nova Jenny!
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     OwlNet            Caixa de Mensagem Instantnea
   RyanReynold s:   A, Benster. Bem-vinda de volta, gata!
BennyCunningham:    E a, fofo! E a vida?
    RyanReynolds:   Fiz a pior viagem possvel para c no
                    nosso avio. Meu pai tem um piloto
                    doido e eles ficaram tagarelando um
                    com o outro o tempo todo e acelerando
                    cada vez mais...
BennyCunningham:    Da prxima vez, vem no meu avio. Vou
                    deixar voc se aninhar comigo debaixo
                    da minha pashmina.
    RyanReynolds:   Meu Deus, voc  uma figura. A, viu a
                    foto da Callie na Atlanta Magazine?
BennyCunningham:    No, mas soube que isso quase acabou
                    com a me dela. Ela teve que controlar
                    os danos no Good Morning Atlanta!
    RyanReynolds:   , parece que a C bombou na foto.
BennyCunningham:    Ela ainda est com EZ? Eu vou voar nele
                    se no estiver.
    RyanReynolds:   Sei l. Algum me disse que viu o cara
                    danando com uma garota linda de
                    olhos bem azuis e trancinhas pretas em
                    Lexington.
BennyCunningham:    Parece a Tinsley. A no ser pelas
                    trancinhas.
    RyanReynolds:   Eu sei. Que droga, ela no vai na festa de
                    hoje.
BennyCunningham:    Fala srio.
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       UMA WAVERLY OWL DEVE RESISTIR AO
         IMPULSO DE LAMBER O NAMORADO
                  DA CABEA AOS PS.
C
           allie Vernon baixou a mala na entrada do quarto 303
          do alojamento Dumbarton e olhou em volta. O
          quarto estava exatamente do jeito que ela, Brett e
Tinsley tinham deixado -- a no ser pela ausncia de garrafas
vazias de Diet Coke, cinzeiros abarrotados de Parliament e
caixas de CD espalhadas por todo o quarto. No ltimo outo-
no, como s estavam no segundo ano, Callie e as duas me-
lhores amigas, Brett Messerschmidt e Tinsley Carmichael,
tinham sido colocadas em um quarto horrvel e apertado com
uma s janela. Mas depois Tinsley subornou trs veteranas
bobalhonas para trocar com elas na primeira semana de aula
com a promessa de que receberiam convites para as melhores
festas secretas. Elas queriam este quarto porque era maior do
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que a maioria, tinha janelas de batente dando para o rio
Hudson e ficava perto da sada de incndio -- o ideal para
escapulir depois do toque de recolher.
    Brett ainda no havia voltado  escola e Tinsley tinha sido
expulsa no final do ano letivo anterior. Elas foram pegas com
ecstasy no meio do campo de rugby s cinco da manh pelo
Sr. Purcell, o severo professor de fsica, que gostava de sair
para correr com seus trs schnauzers gigantes impecavelmente
bem-cuidados antes do sol nascer. Era a primeira vez que elas
experimentavam E e elas precisaram de algum tempo para
parar de rir dos ces de aparncia ridcula antes de perceber
em que encrenca enorme tinham se metido. As meninas fo-
ram chamadas  sala do diretor separadamente -- primeiro
Tinsley, depois Callie e em seguida Brett -- mas a nica a ter
problemas de verdade foi Tinsley, que foi prontamente expulsa
da Waverly.
    Callie pegou seu reflexo no espelho recm-emoldurado
acima da escrivaninha antiga de carvalho e endireitou o top
branco Jill Stuart e a saia pregueada Tocca amarelo-limo. Ela
perdera alguns quilos no vero e o zper lateral ficava escorre-
gando pela barriga. Callie agora era magra, talvez meio magra
demais, e estava sardenta do sol. Seu cabelo era comprido e
revolto e os olhos castanhos redondos eram emoldurados por
clios grossos de pontas louras. Ela fez um biquinho, mandou
um beijo para o espelho e sentiu uma palpitao de ansiedade
no peito.
    Por todo o vero, a mente de Callie rodou sem parar, pen-
sando em por que Tinsley tinha sido expulsa e ela e Brett, no.
Ser que Brett armou tudo? Brett era superdiscreta com sua
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vida em casa -- a me e o pai nunca apareciam no Dia dos
Pais e Brett nunca convidava ningum para a casa dela em East
Hampton para fins de semana prolongados. Tinsley certa vez
deixou escapar que Brett tinha uns problemas familiares que
ela no queria que ningum soubesse. Ser que Brett realmen-
te tramara a expulso de Tinsley para que ela no revela seus
segredos? Parecia coisa de novela, mas s vezes Brett era to
melodramtica que Callie no duvidava de que ela fosse ca-
paz disso.
    Callie se aninhou na cadeira da escrivaninha, feliz por
voltar  escola. Alm de as duas amigas no terem falado com
ela -- ela no ouviu um pio de nenhuma das duas -- seu ve-
ro tinha sido um desastre. Primeiro, foi a foto de Callie no
Club Compound que saiu na Atlanta Magazine, danando em
cima de uma mesa com um vanilla martni na mo. A legenda
dizia, Bebida demais e idade de menos: Ser este um comportamento
adequado para a filha de uma governadora? Nem  preciso dizer
que isso no caiu muito bem com os eleitores georgianos e
conservadores da me. pa.
    Depois desse pesadelo, Callie fora de avio para o chal da
famlia em Barcelona -- o Sr. Vernon era meio espanhol e
passava os veres trabalhando com negcios imobilirios na
Europa. Ela esperava que Barcelona compusesse o cenrio
perfeito para um encontro romntico com o namorado, Easy
Walsh. Mas a visita dele foi tudo, menos romntica. Digamos
que foi meio bizarra.
    -- Oi -- disse uma voz cavernosa atrs dela.
    Callie girou para ver quem era. Easy. Aqui estava ele, o 1,80
metro amarfanhado e sexy dele, parado na soleira da porta,
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mais lindo do que nunca.
    -- Oh! -- Ela sentiu as palmas das mos ficarem escorre-
gadias de suor.
    -- Como  que voc est? -- perguntou ele, puxando a
bainha puda da camisa plo. O cabelo desgrenhado e quase
preto se encaracolava no pescoo e nas orelhas.
    "Confusa" teria sido uma resposta razovel. A ltima vez
em que ela vira Easy foi quando ela o deixou no aeroporto de
Barcelona. Eles no deram um beijo de despedida e mal se
falaram durante todo o ltimo dia da visita dele.
    -- Legal -- respondeu ela cautelosamente. -- Como foi
que entrou aqui? A Angelica te viu? -- A diretora do aloja-
mento, Angelica Pardee, era muito rigorosa para permitir que
meninos entrassem no alojamento das meninas, a no ser
durante a "visita", que s acontecia por uma hora entre a pr-
tica de esportes e o jantar.
    -- Voc est magra demais -- disse Easy delicadamente,
ignorando as perguntas de Callie.
    Callie franziu a testa.
    -- Quer ter problemas j no primeiro dia de aula?
    -- Seus peitos sumiram -- continuou ele.
    -- Que bom -- murmurou ela, irritada. A verdade era que
passou o vero todo sem fome, no teve apetite nem para paella
 Barcelona, a preferida dela. Ela estava nervosa demais para
comer, ou para fazer qualquer coisa, na verdade. Callie pas-
sou as ltimas semanas na Espanha no sof, parecendo uma
palerma desestruturada, usando um biquni branco Dior meio
roto e um sarongue qualquer de batik rasgado e velho que ela
comprara por uma ninharia em uma feira livre de Barcelona,
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e vendo, por horas sem fim, The Surreal Life em espanhol. E
ela nem falava espanhol muito bem. -- Por que voltou to
cedo?
    Easy em geral se atrasava elegantemente para o check-in da
Waverly -- outra proibio absoluta -- porque ele chegava em
um trailer com o puro-sangue, Credo, que ele mantinha no
campus.
    -- O Credo vem na semana que vem, ento no havia
motivo para eu me atrasar.
    Ele olhou para Callie. Eles estavam juntos desde o ltimo
outono, mas ele teve dificuldades para ficar louco para rev-la
na escola depois que seus pais receberam um bilhete furioso
do reitor Marymount no vero dizendo que ele ia observar
Easy de perto este ano. Ao que parecia, havia regras a cum-
prir, e s porque Easy era um legado -- o av, o pai e trs ir-
mos mais velhos dele freqentaram a Waverly -- isso no
significava que podia quebrar essas regras. Ento, em vez de
ir para a escola com uma semana de atraso com Credo, Easy
tinha pego um vo fretado sozinho do Kentucky para Nova
York com os bancos reclinveis de couro e a champanhe ili-
mitada. Parece timo, n? S que no era exatamente o que
Easy tinha em mente.
    Easy sempre fantasiava com sua expulso da Waverly
Academy -- at que se lembrou da proposta do pai. Se Easy
se formasse na Waverly, podia ficar um ano em Paris. Seu pai
tinha um grande apartamento no Quartier Latin todo pronto
para o ano de Easy no exterior. Paris -- no seria legal? Ele ia
tomar absinto, pintar cenas de rua da janela de seu quarto e
andar pelo Sena em uma bicicleta Peugeot antiga e raqutica,
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um Gauloise pendurado da boca. Ele podia fumar at morrer
e ningum daria a mnima para isso!
    -- Vai na festa no estar da Richards hoje  noite? -- per-
guntou Callie.
    Easy deu de ombros.
    -- No tenho certeza. -- Ele parou bem do lado de den-
tro da soleira da porta.
    Callie tirou um p do mocassim Burberry pontudo e pas-
sou os dedos dos ps pintados de rosa no cho. Uma sensao
horrvel de medo a inundou. Por que Easy no iria  primeira
festa do ano? Todo o mundo ia  primeira festa do ano. Ser que
ele estava saindo com algum? Algum com quem ele qui-
sesse ficar sozinho na primeira noite na escola?
    -- Bom, eu vou nessa -- disse ele rapidamente, cruzan-
do os braos.
    Nenhum dos dois fez um s movimento na direo do
outro. Mas com o cabelo com musse, os ombros largos e os
antebraos dourados, Easy estava to irresistvel que Callie
morreu de vontade de lamb-lo da cabea aos ps.
    -- Teve um bom vero depois da Espanha? -- disse ela,
tentando parecer o mais indiferente possvel.
    -- Acho que sim. Lexington estava um saco, como sem-
pre. -- Ele tirou um palito de dentes de trs da orelha e o
colocou entre os lbios meio rachados.
    Callie se recostou na guarda da antiga cama de madeira
branca. A visita dele  Espanha foi uma droga desde o come-
o. Easy teve de viajar na classe econmica e, quando chegou,
estava tenso e rude e foi direto para o bar -- no um daqueles
lindos cafs ao ar livre sados de O sol tambm se levanta, mas
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simplesmente o bar mais prximo possvel, no aeroporto.
Depois ele vomitou no sof dos Vernon, o que foi um proble-
ma porque o pai de Callie precisava se sentar naquele sof para
ver o noticirio internacional da CNN a cada minuto em que
no estava trabalhando.
    Callie projetou os quadris para a frente e roeu a unha re-
cm-feita do polegar.
    -- Bom, isso  legal -- respondeu ela por fim. Ela queria
poder passar os braos em volta dele e beij-lo em toda parte,
mas no podia exatamente fazer isso quando ele sequer tenta-
ra lhe dar um abrao.
    Depois ela viu uma figura conhecida atrs de Easy e seu
corao comeou a disparar.
    -- Sr. Walsh! -- gritou Angelica Pardee, a diretora do alo-
jamento Dumbarton. Angelica no tinha nem trinta anos, mas
parecia ter pressa para chegar  meia-idade. Hoje estava ves-
tindo um cardig caramelo fino e disforme, uma saia reta e
preta na altura dos joelhos e sapatos Easy Spirits pretos. A
barriga das pernas estava meio varicosa e meio azulada demais
e ela no estava maquiada. -- J terei que fazer um relatrio
seu hoje?
    Easy deu um pulo.
    -- Desculpe -- disse ele, colocando a mo na cabea,
confuso, como se tivesse amnsia. -- Eu no vinha aqui h
tanto tempo que, tipo assim, esqueci de que alojamento eu
era. -- Ele olhou pelo quarto, diretamente nos olhos de Callie,
e ela sentiu os braos se arrepiarem.
    -- A gente se v depois? -- murmurou ela por fim.
    Ele assentiu ainda mais levemente.
                                                            25
    -- Estbulos? -- sussurrou ela.
    -- Amanh? -- fez ele com a boca.
    "Por que no hoje  noite?", Callie queria perguntar. Mas
no perguntou.
    -- Sr. Walsh! -- Angelica praticamente cuspiu, pegando
o punho da camisa dele. Seu rosto estava de um vermelho
anormal.
    -- T bom! -- gritou Easy. -- Eu j disse que estava saindo.
    Angelica sacudiu a cabea e acompanhou Easy pelo
corredor.
    Callie se virou e olhou pela janela. Era no estbulo aban-
donado que eles costumavam ir no ano passado para namo-
rar. S alguns alunos tinham cavalos na escola, ento vrias
baias estavam sempre vazias. Ela odiava que ela tivesse de su-
gerir que se encontrassem ali, e no ele.
    Um bando de calouras subiu a escada do Dumbarton, car-
regando bagagem demais. Callie percebeu como as meninas
pareciam oprimidas. Ela sabia como era. Havia tantas coisas
no internato que no estavam nos seus planos. Elas logo des-
cobririam que no iam precisar nem de metade dos trecos que
trouxeram e que tinham se esquecido de coisas realmente
importantes -- como frascos de xampu vazios para esconder
vodca. Ela observou o monte de calouras passar enquanto Easy
descia a escada do Dumbarton, assentindo para as caras ino-
centes. Meu Deus, como era difcil namorar um galinha.
    Ela ps a cabea entre as mos. Era to bvio o que tinha
dado de errado na Espanha. Na ltima noite que eles passa-
ram juntos, ela admitira uma coisa a Easy que era grande de-
mais e apavorante demais de se dizer. E qual foi a resposta dele?
26
Nada. Silncio.
   Callie suspirou. Eles iam ter de conversar sobre isso ama-
nh, embora ela esperasse que eles fizessem um pouco mais
do que s falar.
                                                          27
          OwlNet          Caixa de Mensagem Instantnea
     BennyCunningham:    Um amigo do meu irmo em Exeter me
                         contou que tem uma garota nova na
                         Waverly que era stripper em NY.
           HeathFerro:   ?!?
     BennyCunningham:    . Uma boate chamada... Hen Party?
                         Chicken Hut? Horse Stable? Acho que fica
                         no Brooklyn. Pedi a um primo que mora
                         no Village para ver --  o tipo de lugar
                         onde vc tira tudo. At a calcinha.
           HeathFerro:   Quando vou conhecer a garota?
     BennyCunningham:    Heath, voc  terrvel.
           HeathFerro:   Nem sabe como, baby!
28
                              3
    UMA WAVERLY OWL DEVE MANTER O SUTI
      DE VELHA ESCONDIDO O TEMPO TODO.
     A
               qui est bom -- disse Jenny ao taxista assim que
--             viu a placa marrom discreta que dizia WAVERLY
               ACADEMY pendurada em uma rvore ao lado
de um pequeno prdio trreo de tijolos aparentes. A Waverly
no ficava longe da estao de trem, mas Jenny estava ansiosa
demais para chegar ali.
    -- Tem certeza? -- O taxista se virou, revelando um
narizinho bicudo e um bon dos Yankees azul-claro e desbo-
tado. -- Porque a recepo fica...
    -- Sou aluna daqui -- interrompeu Jenny, sentindo um
estremecimento ondular por seu peito ao falar. -- Sei onde
fica a recepo.
    O taxista ergueu as mos, derrotado.
    -- Voc  quem manda.
                                                            29
    Jenny lhe passou uma nota de vinte, saiu do txi e olhou
em volta.
    Aqui estava ela. Na Waverly. A grama parecia mais verde,
as rvores mais altas e o cu mais claro e mais azul do que em
qualquer outro lugar que ela conhecera. Havia sempre-vivas
luxuriantes em todos os lados e  direita havia um largo cami-
nho de paraleleppedo serpentando por uma colina. Um cam-
po verde se espalhava  esquerda e a distncia alguns meninos
de shorts Abercrombie jogavam futebol. Todo o lugar tinha
cheiro de internato. Como o bosque profundo, que ela s vira
algumas vezes, antes de perceber que no precisava acompa-
nhar o pai e seus amigos anarquistas meio pirados em viagens
de acampamento ao sul de Vermont.
    Um Mercedes creme conversvel passou voando por ela.
Ela ouviu a imponente badalada de um relgio de campan-
rio bater a uma da tarde.
    --  -- sussurrou ela, satisfeita. Ela definitivamente che-
gara.
    A verdade era que ela queria sair do txi porque mal podia
esperar um segundo a mais que fosse para colocar os ps no
terreno da Waverly, no porque soubesse exatamente aonde
estava ido. Olhando para o pequeno prdio de tijolinhos ao
lado, ela percebeu que a hera tinha crescido pelas janelas e que
as portas estavam fechadas e enferrujadas. Esta definitivamente
no era a recepo, onde ela precisava fazer o check-in. Outro
carro, este um Bentley cinza-militar, passou por ela. Jenny
decidiu seguir o desfile de carros de luxo.
    Ela arrastou a bagagem pelo morro de grama recm-apa-
rada, os saltinhos gatinho afundando na grama molhada e
30
abundante. Uma pista de corrida passava a sua direita, ladeada
por arquibancadas altas e brancas. Algumas meninas estavam
correndo animadas pela pista, os rabos-de-cavalo balanando.
No alto da colina, acima das rvores verde-escuras, ela podia
ver o pinculo de uma igreja branca e o telhado de ardsia de
outros prdios de tijolinho. Os meninos do futebol pararam
de jogar e agora estavam se reunindo, olhando na direo dela.
Estariam eles olhando para ela?
    -- Precisa de uma carona? -- uma voz de homem inter-
rompeu seus pensamentos. Jenny olhou e viu um homem
bronzeado de meia-idade com dentes incrivelmente brancos
saindo pela janela do motorista de um Cadillac Escalade pra-
ta. Ela podia ver o prprio reflexo nos culos de sol Rayban
dele. Ela parecia desajeitada e boba vestida com uma camisa
plo Lacoste apertada demais e arrastando a bagagem morro
acima com as sandlias de salto baixo cor-de-rosa. Ela com-
prou a blusa na Bloomingdale's porque tinha certeza de que a
faria se sentir absolutamente parte do internato, e ela voltara
para ver as sandlias vrias vezes antes que finalmente entras-
sem em liquidao e ela pudesse comprar.
    -- Humm, claro. Vou para a recepo. -- Ela entrou na
traseira do 4x4, que tinha cheiro de carro novo. Um rapaz
louro com feies cinzeladas estava sentado no banco do ca-
rona com cara de mau humor, mas ele no se virou para falar
com ela.
    -- No sei no, Heath -- disse em voz baixa o homem
ao rapaz. -- Pode ser que voc no possa dar a festa... Talvez
sua me e eu precisemos da casa de Woodstock nesse fim de
semana.
                                                            31
    -- Mas que porra -- sibilou o rapaz  meia-voz. O pai
suspirou.
    Jenny mal percebeu a grosseria do garoto. S teve ouvi-
dos para uma palavra: festa.
    Mas ela no se sentia  vontade para perguntar ao garoto
sobre a festa, porque ele parecia muito irritado. O carro pa-
rou no enorme prdio de tijolos aparentes com uma pequena
placa marrom, ao lado do caminho de pedra, que dizia RE-
CEPO. Jenny guinchou um agradecimento, pegou as malas
e foi direto para a porta.
    L dentro, a sala de espera era do tamanho de um salo de
festas, com um piso reluzente de cerejeira escura. Um gran-
de candelabro de cristal se pendurava do teto de p-direito alto.
Quatro sofs de couro manteiga estavam dispostos em qua-
drado em volta de uma pesada mesa de centro de teca e um
lindo rapaz de cabelo mbar estava estirado num deles lendo
FHM e comendo um saco de Fritos.
    -- Posso ajud-la? -- perguntou algum atrs dela. Jenny
deu um pulo. Ela se virou e viu uma mulher mais velha ves-
tida de Laura Ashley, com um coque cinza cheio de laqu e
olhos azuis, usando uma plaquinha de OL, MEU NOME
 SRA. TULLINGTON e postada atrs de uma mesa, que
tinha uma pequena placa branca que dizia "Check-in de no-
vos alunos".
    -- Oi! -- piou Jenny. -- Meu nome  Jennifer
Humphrey. Sou aluna nova!
    Ela estudou a agenda Bem-vindo  Waverly, colada na mesa.
As aulas s comeavam oficialmente na noite seguinte, no jan-
tar de orientao e boas-vindas, mas os testes das equipes es-
32
portivas iam acontecer durante o dia. A Sra. Tullington digitou
algumas informaes em um imaculado laptop Sony cinza-
revlver e depois franziu a testa.
    -- Temos um problema.
    Jenny a encarou inexpressivamente. Problema? No havia
problemas na terra mgica de Waverly! Olha como o garoto
comedor de salgadinhos Fritos  lindo!
    -- Voc foi matriculada como menino -- continuou a Sra.
Tullington.
    -- Pera, como ? -- Jenny voltou  conscincia num
susto. -- A senhora disse menino?
    -- Sim... Voc est aqui como Sr. Jennifer Humphrey. --
A velha parecia aturdida, vasculhando uma papelada de um
lado a outro. -- Alguns alunos tm sobrenomes muito anti-
gos, entendeu, e talvez o comit de admisso tenha pensado
que Jennifer era...
    -- Ah -- respondeu Jenny constrangida, girando para ver
se o rapaz no sof tinha ouvido, mas ele sara. Toda a corres-
pondncia da Waverly que ela recebera estava endereada ao
Sr. Jennifer Humphrey. Ela achava que era um erro de
digitao. Que coisa burra de se pensar. To Antiga Jenny. --
O que isso quer dizer? Eu mandei toda a minha bagagem
para... o alojamento Richards, no  isso?
    -- Sim, mas esse  o alojamento masculino. -- A Sra.
Tullington explicou lentamente, como se Jenny fosse incapaz
de entender. -- Vamos ter que encontrar outro espao para
voc. -- Ela vasculhou mais alguns papis. -- O alojamento
das meninas j est lotado... -- Ela pegou o telefone. -- Va-
mos resolver isso. Mas veja se suas coisas esto no alojamento
                                                            33
Richards. Eles teriam que mandar para a sala de estar no pri-
meiro andar...  ali que fica toda a bagagem que chega pelo
correio. Siga o caminho  sua direita, o quarto prdio. Tem
uma placa. Vamos mandar algum encontr-la depois que re-
solvermos isso.
    -- Tudo bem -- respondeu Jenny toda feliz, imaginando
todos os meninos gatos sem camisa que estava prestes a ver
zanzando pelo Richards. -- Sem problema.
    -- A porta principal deve estar aberta. Mas no v a ne-
nhum dos quartos.  proibido! -- disse a Sra. Tullington atrs
dela.
    -- Claro -- concordou Jenny. -- Obrigada!
    Jenny parou na varanda de pedra da recepo. Pelos estu-
dos que fez do mapa do campus, ela sabia que os alojamentos,
a capela, o auditrio e as salas de aula da Waverly ficavam dis-
postas em um grande crculo, com os campos de futebol no
meio. Atrs do crculo ficavam a casa de barco, o rio Hudson,
a galeria de arte, o laboratrio de botnica e a biblioteca. To-
dos os prdios pareciam ser de tijolos aparentes, com antigas
janelas pesadas e remates brancos.
    Trotando toda animada para os alojamentos, Jenny teve que
se conter para no sair pulando. Meninas com jeans Citizens
desbotados e chinelos rotos saam de Mercedes 4x4 e peruas
Audi, abraando outras meninas e conversando empolgadas
sobre o que aconteceu no vero em suas casas em Martha's
Vineyard e nos Hamptons. Meninos com moletons de capuz
e bermuda se esbarravam com os ombros. Um cara levando
uma bolsa de viagem Louis Vuitton gritou: "Tomei tanto E
no vero que meu crebro torrou!"
34
    Jenny sentiu o corpo enrijecido, repentinamente intimi-
dada. Todo mundo era to bonito -- escovado, limpo e na
moda sem sequer tentar, o que era muito mais legal do que
passar horas se produzindo, como Jenny em geral fazia -- e
parecia que se conheciam desde sempre. Ela respirou fundo e
continuou pelo caminho.
    Depois, sada do nada, uma coisa gigante que parecia uma
batata passou voando, soltando um grasnado horrvel, e voou
a centmetros da cara de Jenny.
    -- Aiii! -- gritou ela, estapeando para a frente.
    Ela viu a coisa voar para uma rvore. Que medo! Parecia
um rato bombado de esterides.
    Atrs dela, Jenny ouvir uma risadinha e se virou. Todas as
meninas ainda conversavam, mas dois caras com bons com
o "W" de Waverly virados para trs estavam sentados em um
muro de pedra, observando. Depois ela percebeu que, no sus-
to, largara a mala abarrotada no caminho e ela se abrira. Ai,
meu Deus. O suti gigantesco com suporte reforado, do tipo
com colchete extra e alas acolchoadas que ela usava quando
estava menstruada, estava esparramado no cho. Era um suti
enorme e atarracado que podia ser usado pela vov.
    Ela rapidamente enfiou o suti de volta na mala, espiando
para ver se os dois meninos sentados no muro tinham perce-
bido. Eles j estavam se reunindo a outro cara de bon, fazen-
do aquele troo de meio aperto de mo e meio abrao que os
meninos faziam, sem prestar nenhuma ateno em Jenny.
Com o ar fresco e o cenrio luxuriante, talvez os peitos gigan-
tes e o suti no fossem o tipo de coisa que a galera da Waverly
percebesse...
                                                             35
    E ento o recm-chegado virou-se para Jenny e tocou a
pala do bon branco e pudo com o indicador. Ele lhe deu uma
piscadela, como quem diz: O ar pode ser fresco, mas ns no so-
mos inteiramente cegos.
36
                              4
      OS WAVERLY OWLS SABEM QUE PULMES
          LIMPOS GERAM VAIAS SAUDVEIS!
B
         randon Buchanan sentou-se em uma de suas
         Samsonites e olhou para Heath Ferro. Sempre que
         chegava no campus, independente de quando chegas-
se, ele via Heath primeiro. Embora eles fossem colegas de
quarto, Brandon achava Heath muito irritante na maior parte
do tempo.
    -- Trouxe um pacote de cigarros -- vangloriou-se Heath
enquanto abria o fecho da bolsa de viagem preta Tumi e mos-
trava a Brandon a beira de um pacote de Camel "sem filtro".
Eles estavam na sala de estar do alojamento Richards, espe-
rando para saber para que quarto iriam. Era s uma sala co-
mum, um local de encontro onde os meninos assistiam a
SportsCenter, dividiam pizzas de salsicha do Ritoli's e paque-
ravam as meninas bonitas durante a hora de visita. Mas ainda
                                                           37
assim, o lounge parecia ingls e aristocrtico. O teto de rebo-
co creme tinha 4,5 metros de altura, com vigas de madeira
escura, e havia poltronas de couro confortveis e gastas espa-
lhadas por toda a sala. Uma velha TV de armrio que s pega-
va trs canais abertos e de vez em quando a ESPN assomava
em um canto. No cho havia um enorme tapete oriental.
Buracos descuidados de queimadura de cigarro o deixavam
com uma aparncia ainda mais histrica.
    -- S vai durar uma semana com voc -- ridicularizou
Brandon, empurrando o cabelo castanho dourado curto e
ondulado para trs, com seu jeito deliberadamente desleixado.
Heath fumava como uma chamin do lado de fora do
Richards, embora fosse proibido fumar no campus, mas o cor-
po docente costumava fazer vista grossa. Podia ser devido 
beleza atordoante de Heath -- ele era alto, magro e atltico,
os olhos verdes com toques de dourado, mas do rosto pro-
nunciadas e cabelo louro escuro e sedoso. Mais provavelmente,
porm, era porque a famlia de Heath o livrava de problemas.
O pai de Heath doara 4,5 milhes de dlares para o centro de
natao olmpica e mais um milho para um anexo de trs
andares  reformada biblioteca de botnica, ento Heath po-
dia muito bem fazer o que lhe desse na telha e nunca levava
mais do que uma advertncia.
    -- Voc trouxe seu creme esquisito de mulherzinha este
ano? -- zombou Heath.
    --  hidratante -- esclareceu Brandon.
    --  hidratante -- ecoou Heath numa voz aguda.
    E da que Brandon cuidasse da pele? E que gostasse de
roupas e sapatos bonitos e que seu cabelo ondulado estives-
38
sem bem? Ele era neurtico com o peso -- s tinha 1,70 metro
de altura -- e depilava o peito porque odiava os pelinhos que
cresciam na parte cncava do esterno. Os amigos menos lim-
pos o sacaneavam sem parar. Mas e da?
    -- Quem voc acha que vai dividir o quarto com a gen-
te? -- perguntou Heath.
    -- No sei. Talvez o Ryan. A no ser que ele consiga ficar
sozinho de novo. -- O pai de Ryan Reynolds tinha inventado
uma lente de contato macia e usava acintosamente sua rique-
za como alavanca para o filho. Muitos pais de alunos subor-
navam a escola, mas em geral isso era guardado em segredo.
    Heath deu uma risadinha sacana.
    -- Talvez voc v fazer par com Walsh.
    -- No, at a direo sabe que no deve -- respondeu
Brandon. S o som do nome dele, Walsh, de Easy Walsh, ge-
lava o sangue de Brandon.
    -- E a, como  que t a Natasha? -- Heath recitou o nome
dela com um sotaque russo vagabundo.
    Brandon suspirou. Em abril passado, ele comeou a sair
com Natasha Wood, que foi para a Millbrook Academy, de-
pois de Easy roubar a namorada dele, Callie Vernon.
    -- A gente terminou h duas semanas.
    -- T brincando. Traio sua?
    -- No.
    -- O que foi, ento?
    Brandon deu de ombros. Eles terminaram porque ele ainda
estava apaixonado por Callie. Ele e Natasha estavam transando
na praia de Harwich, em Cape Cod, e Brandon por acaso
chamou Natasha de Callie por engano. pa. Natasha subiu
                                                           39
no pequeno posto salva-vidas de madeira e se recusou a des-
cer at que Brandon fosse embora. Para sempre.
     -- De quem so esses troos? -- Heath olhou a sala e
chutou o sof de tweed marrom. Havia toda uma pilha de
bolsas de lona cor-de-rosa L. L. Bean que ainda no tinha dono.
     Brandon deu de ombros.
     -- Sei l. -- Ele pegou uma das etiquetas. -- Jennifer
Humphrey.
     -- Vai ter um cara chamado Jennifer Humphrey no alo-
jamento? Que esquisito.
     -- No, eu sou a Jennifer.
     Uma garota baixinha de cabelo cacheado, usando uma saia
lils que era uma cpia barata da Marc Jacobs, estava parada
na soleira da porta da sala. Brandon sabia que a saia era
falsificada porque ele comprou a verdadeira no vero para
Natasha. Esta Jennifer tinha um narizinho arrebitado e bo-
chechas rosadas e usava sapatos cor-de-rosa de saltinho com
uma pequena abertura na frente, ento ele pde ver os dedos
dos ps dela se projetando para fora.
     -- Oi -- disse ela simplesmente.
     -- Er -- Brandon gaguejou. -- Voc no... No devia ser...
     -- No... na verdade... sou. -- Ela riu um pouco. -- Eu
fui mandada para este alojamento.
     -- Ento voc  o senhor Jennifer Humphrey? -- intro-
meteu-se Heath, passando um p por sobre o outro.
     -- Sou. A Waverly achou que eu era homem.
     Brandon sabia muito bem o que Heath estava pensando
naquele momento: Com tetas assim, voc certamente no parece em
nada um homem. Meu Deus, os amigos dele s vezes o irrita-
40
vam.
    -- Meu nome  Brandon. -- Ele estendeu a mo
educadamente, metendo-se na frente de Heath.
    Jenny puxou a saia para baixo.
    -- Oi. -- Ela se sentia meio aturdida. Dos sete meninos
que estavam vagando pela sala de estar com suas coisas, ela
escolheu os dois mais lindinhos. Brandon era lindo, com uma
pele impecvel, o cabelo louro escuro perfeito e os clios lon-
gos e luxuriantes, mas ele era mais produzido do que ela! Jenny
preferia homens que parecessem um pouco mais rudes e mais
desleixados, como aquele sentado atrs de Brandon, cujo ca-
belo louro era meio seboso e a camisa verde parecia ter sido
usada para dormir. Ela o olhou novamente, percebendo que
ele era o cara que tinha dado carona a ela para subir o morro.
Aquele que ia dar a festa. Ele no a reconhecia?
    -- Acho que tenho que esperar at que eles saibam o que
fazer comigo. -- Ela olhou diretamente para trs de Brandon,
tentando refrescar a memria do amigo gato. -- Posso ficar
com vocs? -- Ela tentou manter a voz estvel. A Nova Jenny
no guincha quando se convida para ficar com gatos do internato!,
repreendeu-se ela em silncio, cravando as unhas na palma
das mos.
    -- Claro -- respondeu o garoto, olhando diretamente para
os peitos dela.
    -- O que vocs esto fazendo aqui, alis? -- Jenny olhou
em volta. -- Todo mundo no tem que ir para o saguo at
que saiba para que quarto vai?
    -- No, a gente se ferrou, ento ficamos presos aqui at
que eles nos digam para onde ir. -- Ele sorriu, sacando um
                                                              41
celular BlackBerry do bolso da cala cqui.
    Jenny se sentou.
    -- O que vocs fizeram de errado?
    -- No d ouvidos ao Heath. -- Brandon sacudiu a ca-
bea. -- Os professores da Waverly so simplesmente uns
babacas.
    Jenny comeou discretamente a limpar o melhor que pde
a lama dos sapatos rosa.
    -- Mas a, eu estou meio apavorada. Uma coisa me ata-
cou total quando eu estava vindo pra c. Era tipo... Um gato
voador gigante.
    -- Aaahhhh....  o corujo-da-virgnia -- explicou
Brandon. -- Esto em todo o campus. Algum doou um casal
tipo h uns cem anos e eles proliferaram. Mas embora pra-
ticamente mate crianas o tempo todo, o corujo  nosso
mascote. Acho que  tipo assim, uma tradio da Waverly ter
essas corujas por aqui.
    -- Elas cagam em toda parte -- acrescentou Heath.
    -- Ah, eu adoro tradies -- exclamou Jenny rapidamen-
te. -- Mas a coisa voou pra cima de mim como se no quises-
se errar!
    -- Como poderia errar? -- murmurou Heath, digitando
em seu BlackBerry. Ele olhou de novo para os peitos de Jenny.
A Antiga Jenny teria ficado sem-graa, pensou ela, mas no a
Nova Jenny. Ela ia encarar o sujeito.
    -- Algum problema? -- perguntou ela educadamente,
cruzando as mos no colo.
    Heath sorriu timidamente, depois inclinou a cabea de
lado.
42
    -- Pera um minutinho. -- Ele parou. -- Voc disse que
era da capital? Nova York?
    -- . Do Upper West Side.
    Os olhos de Heath se acenderam como um caa-nqueis.
    -- J ouviu falar num club chamado Hen Party?
    Jenny franziu as sobrancelhas.
    -- No...
    -- Talvez eu te leve l um dia.
    -- No  adequado -- murmurou Brandon. O Hen Party
era um club de strip em Manhattan de que de repente todo
mundo estava falando. Ele olhou para a aluna nova. Os dois
pareciam estar numa espcie de guerra de encarada. Ela pare-
cia magoada, mas no fazia diferena. Heath podia ser amigo
de Brandon, mas era a verso humana de um Monet, s pare-
cia bom de longe. De perto, depois de conhec-lo, ele era
muito... ridculo. Espera s at voc descobrir que ele tem o pssimo
hbito de no cortar as unhas dos ps, pensou Brandon, trincando
os dentes. Espera s at descobrir que ele fofoca mais do que uma
mulher. Espera s at descobrir que as meninas o chamam de Pnei
pelas costas dele, porque todo mundo j deu uma voltinha nele.
    A guerra de encarada continuava. Ento um rudo agudo
sem a ateno de Heath rapidamente se voltou para o
BlackBerry. Pop! Campo de fora desativado.
    -- Senhor Jennifer Humphrey -- murmurou ele nova-
mente -- do Upper West Side. -- Ele digitou mais algumas
linhas e atirou o BlackBerry na bolsa. Depois tirou a camiseta
e afagou o torso dourado e esculpido de passar o vero em
Nantucket. -- Vou tomar um banho. Quer vir?
    Jenny abriu a boca para responder, mas Heath se virou,
                                                                  43
achou uma toalha de banho branca na bolsa de viagem e saiu
gingando para o banheiro.
    Brandon suspirou e pegou o Motorola Razr prata. Ele
rolou por uns e-mails -- s umas mensagens de boas-vindas
e fofoca especulativa sobre o que aconteceu com Tinsley
Carmichael. Ele podia ver Jenny olhando-o e no pde dei-
xar de ficar todo formigando.
    -- Podemos ter telefone aqui? -- perguntou Jenny.
    -- Bom, no. A gente no pode falar neles. Mas todo
mundo manda texto e mensagem instantnea pelo telefone.
 s fazer o logon na Owlnet e usar seu e-mail da Waverly, que
 s seu nome e sobrenome, sem espaos.  um brecha que
os funcionrios ainda no descobriram.
    -- Droga. Eu no trouxe o meu. O manual dizia nada de
celular.
    -- "Os Waverly Owls no usam celulares no campus" --
recitou Brandon numa voz que fingia seriedade.
    Jenny riu.
    -- . Eu adoro todas essas coisas de Waverly Owl.
    Brandon sorriu.
    -- Ao que parece, uma das ex-diretoras da Waverly escre-
veu o manual logo depois dos anos 1920, talvez, tipo assim,
durante a Lei Seca ou coisa parecida, quando as boas manei-
ras e o bom comportamento eram realmente importantes.
Acho que as corujas j eram mascotes nessa poca tambm.
Foi adaptado para a poca atual, com celulares e essas coisas.
    -- Que engraado. -- Jenny sentiu-se relaxar um pouco.
Seu rosto doa de sorrir tanto num s dia.
    -- Vai ter uma festa nesta sala hoje  noite. Quer vir?
44
    -- Uma festa? -- Jenny ergueu as sobrancelhas, ansiosa.
-- Claro.
    -- Quer dizer,  meio informal, mas  a tradio, sabe
como . -- Brandon deu de ombros. Ele parecia menos tmi-
do sem Heath por perto.
    Jenny mordeu o lbio, o que Brandon achou irresistvel.
Ela era to novinha e parecia to animada de estar ali, diferen-
te de todas as outras meninas cheias de frescura da Waverly,
de suter Fair Isle, culos de sol Gucci do tipo Barbie-vai-para-
o-internato, que no davam valor a nada. Agora, se ao menos
ela pudesse ficar longe do Pnei antes que as aulas comeas-
sem...
    -- Bom -- Jenny interrompeu o monlogo interior dele.
-- Se  uma tradio, ento vou ter que vir. O Heath tambm
vem?
    Heath apareceu na soleira da porta da sala. O cabelo louro
pingava gua no peito nu e a toalha de banho branca estava
amarrada abaixo dos quadris esculpidos. Ele s segurava seu
BlackBerry, e sorriu ao falar.
    -- No perco por nada neste mundo.
                                                              45
          OwlNet            Caixa de Mensagem Instantnea
       HeathFerro:   J vi a stripper duas vezes.
     RyanReynolds:   ???
       HeathFerro:   Meu pai deu uma carona pra ela at a
                     recepo. Depois eu e Brandon estvamos
                     sentados no Richards e ela apareceu. Mas ela
                      legal. Bem inocente. Mas d pra perceber
                     que  uma pervertida.
     RyanReynolds:   Ela j se meteu no alojamento masculino? Ela
                     mostrou a calcinha dela?
       HeathFerro:   Ainda no...
46
                              5
         MESMO QUANDO PROVOCADA, UMA
   WAVERLY OWL DEVE CONTINUAR CIVILIZADA
              COM A COLEGA DE QUARTO.
     M
                   e, d por favor para dizer ao Raoul que ele
--                 no precisa entrar no alojamento comigo?
                   Isso  constrangedor. -- Brett Messerschmidt
tentou equilibrar a bolsa acolchoada Chanel creme e uma pasta
de laptop Jack Spade preta em uma das mos e uma enorme sa-
cola de compras Herms na outra enquanto aninhava o Nokia
platinado no ombro. O secretrio dos pais, Raoul, que tinha uns
120 quilos e era careca, lutava para erguer algumas das malas
aparentemente interminveis sem amarrotar o terno preto. Por
fim ele desistiu e tirou o palet, revelando uma camisa branca
manchada de suor e uma montanha de msculos.
    -- Querida, voc precisa da ajuda dele -- piou a me com
o forte sotaque de Nova Jersey do outro lado da linha. -- No
                                                            47
pode carregar todas aquelas malas pesadas sozinha!
    Brett gemeu e desligou o telefone de repente. Todas as
outras levavam suas coisas -- independente do peso que ti-
vessem. Os motoristas s deixavam as malas no meio-fio, na
frente do alojamento. At parece que algum ia fugir com suas
porcarias. Mas os pais dela, Stuart e Becki Messerschmidt, de
Rumson, Nova Jersey, mimavam-na como se ela fosse uma
das minichihuahuas trmulas deles.
    Os pais dela -- cruz-credo. O pai, o mais importante cirur-
gio plstico em trs estados, era famoso por se vangloriar da
mais alta porcentagem de gordura que podia tirar numa lipo
de uma paciente em uma nica sesso. E a nica vez em que
a me de Brett a acompanhou at Waverly, quando Brett esta-
va na stima srie e visitava a escola, a Sra. Messerschmidt disse
a uma determinada me bem careta e conservadora que o
queixo dela era simplesmente perfeito e perguntou quem ti-
nha feito. A mulher encarou a Sra. Messerschmidt com uma
expresso confusa antes de finalmente entender e desapare-
cer de vista.
    Desde que comeara na Waverly, Brett mentia direto so-
bre os pais. Ela afirmava que eles moravam numa fazenda
orgnica de East Hampton mas passavam o vero na Terra
Nova, que o pai dela era cardiologista e a me promovia pe-
quenos eventos de caridade no Canad. Ela no fazia idia de
por que essa era a histria que ela inventava, mas qualquer coisa
era melhor do que a histria verdadeira, que era a de que os
pais eram novos-ricos e as pessoas mais bregas que Brett co-
nheceu na vida. Todo mundo na Waverly engoliu, a no ser
Tinsley, que no ano passado tinha atendido ao telefone de Brett
48
quando ela no estava no quarto e teve uma longa conversa
sobre estampas de leopardo e de tigre com a Sra.
Messerschmidt que,  claro, estava ligando de sua casa em
Rumson, Nova Jersey -- e no do East Hampton. Era bom
que Tinsley no voltasse  Waverly: pelo menos seus pais cons-
trangedores continuariam sendo um segredo.
    -- Voc no precisa me ajudar, depois de dirigir isso tudo.
-- Brett sorriu como quem se desculpa a Raoul. Ela teria que
se lembrar de mandar a ele um creme All-Sport Muscle Rub
da Kiehl quando ele voltasse para casa.
    -- Est tudo bem -- respondeu Raoul com sua voz de
bartono, mas Brett pensou ter detectado um leve gemido
quando ele largou as malas e voltou ao carro para a rodada
seguinte.
    Quando ela abriu a porta do quarto, a melhor amiga, Callie,
que vinha de uma linhagem perfeita e nada brega -- a me era
a encarnao de Scarlett O'Hara e era governadora da Georgia,
pelo amor de Deus -- deu um sorriso malicioso enquanto
Raoul lutava para saber exatamente onde ficaria a mala Louis
Vuitton gigante de Brett.
    -- Ah, qualquer lugar est bom! -- disse Brett rapidamen-
te. Depois ela se virou para Callie. -- Oi.
    -- Oi, e a. -- Callie se recostou na janela e cruzou os
braos.
    Ela parecia ter passado o vero todo sendo contorcida e
espicaada por seu instrutor de Pilates, Claude, sem comer
nada a no ser chiclete Trident. O cabelo estava puxado em
um rabo-de-cavalo baixo e embaraado e ela trazia nos olhos
castanhos aquele jeito meio tonto de voc-poderia-muito-
                                                            49
bem-pensar-que-ela-era-pateta-se-no-conhecesse-bem.
Uma saia de algodo laranja claro e uma camiseta estavam em
uma pilha amarfanhada no cho, e agora ela vestia uma cami-
seta azul-beb desbotada, short Ralph Lauren terracota de
menino e meias de ginstica com bolinhas felpudas cor-de-
rosa nos tornozelos.
    Onde Callie era bonitinha e produzida  sua prpria ma-
neira -- ela era capit do time feminino de hquei, afinal --
Brett era de aparncia mais incomum. Tinha a pele clara e
branca como leite e o cabelo curto muito ruivo. Os olhos ver-
des eram amendoados e o nariz e o queixo lhe davam uma
aparncia travessa.
    Era estranho ver Callie de repente e compar-la consigo
prpria de novo. No ano anterior, Brett, Callie e Tinsley eram
unha e carne. Mas depois aconteceu a histria com o Ecstasy
e tudo mudou. Ningum sabia por que Tinsley foi a nica a
ser expulsa, mas Callie sempre teve um talento todo particu-
lar para a persuaso -- no primeiro ano, ela convenceu Sarah
Mortimer a sair com Baylor Kenyoir em vez de com Brandon
Buchanan, s porque Callie queria Brandon para ela. E no ano
passado Benny Cunningham, a linda morena bem-nascida da
Filadlfia que era sua amiga, queria ficar com Erik Olssen, um
sueco gato e branquinho, mas ele gostava da nojenta da Tricia
Rieken -- que tinha um senhor peito e usava as roupas mais
piranhudas e mais de dominatrix de Dolce & Gabbana. De
algum jeito Callie conseguira convencer Tricia a gostar de Lon
Baruzza, que era o bolsista mas lindo e supostamente muito
bom de cama, deixando Erik livre para Benny.
    Evidentemente Callie era boa para conseguir que as pes-
50
soas fizessem o que ela queria, em especial quando tinha algo
a ganhar pessoalmente. E, neste caso, talvez Callie ficasse
melhor sem Tinsley por perto: na primavera passada, Tinsley
e o namorado de Callie, Easy Walsh, foram vistos pelo time
de futebol feminino atrs das casas de barco  noite -- sozi-
nhos. Tinsley e Easy negaram que alguma coisa tivesse acon-
tecido, mas Callie podia ser bem territorialista quando se
tratava dos namorados. Parecia loucura que Callie conseguis-
se a expulso de Tinsley da escola por ela supostamente ter
ficado com Easy, mas, bom, a Callie era meio maluca.
     Callie pestanejou.
     -- Tingiu o cabelo de mais vermelho ainda?
     -- Mais ou menos -- murmurou Brett. O colorista,
Jacques, fez confuso e usou um vermelho azulado nela em
vez do vermelho amarelado. Ela foi  Bergdorf para conser-
tar, mas de algum jeito entrou no salo do estilista mais punk
rock, que disse a ela que era perfeito e que mudar o cabelo
contrariaria sua sensibilidade artstica. Brett ficou preocupa-
da que isso a deixasse muito parecida com Kate Winslet na-
quele filme, Brilho eterno, o que no era um bom visual.
     -- Gostei -- declarou Callie. -- Est incrvel.
     Mentirosa! Brett sabia o que Callie achava de cabelo pinta-
do que parecia falso. Brett bateu a bolsa no cho.
     -- E a, voc no me ligou o vero todo.
     -- Eu... Eu te liguei -- gaguejou Callie, arregalando os
olhos.
     -- No ligou no. Voc s me mandou uma mensagem
de texto. Em junho.
     Callie se aprumou.
                                                             51
    -- Bom, voc no respondeu!
    -- Eu... -- Brett se calou. Callie tinha razo. Ela no res-
pondeu. -- E a, tem notcias da Tinsley?
    -- Claro.
    Brett sentiu uma pontada de inveja.
    -- Eu tambm -- mentiu ela. Ela no ouvia falar da ami-
ga glamorosa desde que ela foi expulsa, no final de maio.
    As duas olharam para a cama vazia de Tinsley. Ficaria va-
zia durante todo o ano? Talvez elas a usassem como depsito
extra ou a cobrissem com uma colcha indiana de batik e tra-
vesseiros bordados de uma das lojas hippies de Rhinecliff. Ou
a Waverly as colocaria com alguma esquisitona com quem
ningum queria dormir?
    -- A Tinsley me ligou um monte de vezes -- continuou
Callie, meio agressiva.
    -- Pra mim tambm -- mentiu Brett de novo, retirando
uma das blusas da mala de couro creme. -- E a, e o Easy? --
Ela mudou de assunto. -- Voc o viu no vero?
    -- Humm... Vi -- respondeu Callie rapidamente, um
toque de mgoa na voz. -- Viu o Jeremiah?
    -- , vi -- murmurou Brett.
    -- Ainda odeia o modo como ele diz mar? -- perguntou
Callie enquanto examinava o brilho labial claro e um com-
pacto Chanel preto laqueado.
    -- Ainda -- gemeu Brett. Seu namorado, Jeremiah, era
atacante do time de futebol do St. Lucius e, embora fosse de
uma famlia endinheirada e tradicional de Newton, um su-
brbio de elite de Boston, falava com um sotaque de cidade
universitria, omitindo os r's como Matt Damon em Gnio
52
indomvel.
    -- Voc foi na casa dele ou ele foi na sua?
    -- Bom, eu passei uma semana com a famlia dele em
Martha's Vineyard. Foi bem legal. -- Brett gostava de
Jeremiah, mas ela amava de verdade a famlia dele. Eles eram
os tpicos ricos da Nova Inglaterra, to discretos e de bom
gosto, o extremo oposto de seus pais vulgares. Tambm no
era ruim que Jeremiah fosse lindo, com um queixo anguloso
e quadrado, cabelo castanho avermelhado nos ombros e olhos
verde-azulados que a devoravam.
    Brett prometera que, assim que chegasse  escola, ia ligar
para ele e eles fariam sexo por telefone. Jeremiah queria transar
no vero, mas ela ainda no estava preparada. Ela no sabia
inteiramente o motivo, s que nunca transou com ningum
antes e realmente no tinha certeza se Jeremiah era o cara cer-
to para a primeira vez.
     claro que a indeciso quanto a perder a virgindade no
era o tipo de coisa que uma menina como Brett admitiria em
voz alta. Ela contou a Callie que perdera a virgindade anos antes
com um suo de nome Gunther que conhecera em uma vi-
agem de esqui com a famlia a Gstaad, embora na verdade ela
sequer tenha permitido que ele tocasse nela. Brett cultivava
uma imagem na Waverly: durona, experiente, sofisticada e
meio putinha. A me era o oposto -- incompetente, ingnua,
infantil -- e Brett no queria ser igual a ela.
    Callie esticou as pernas compridas e perfeitamente lisas.
    -- Eu preciso mesmo de um banho. -- Ela bocejou, le-
vantou-se e calou um par de tamancos de borracha. -- Quer
sair para jantar quando eu terminar?
                                                              53
     Brett deu de ombros.
     -- No sei. Tenho que ver a roupa perfeita para amanh.
Tem um orientador novo, ento preciso estar preparada, essas
coisas. -- Brett tinha sido eleita monitora jnior no ano ante-
rior, o que significava que ela faria as chamadas e agiria como
lder jnior no CD, ou Comit Disciplinar. Era um sinal de
enorme popularidade, todo mundo de sua turma tinha que
votar em voc para o cargo. -- Mas acho que posso matar. E
temos a festa de hoje  noite tambm...
     -- Que seja. -- Callie acenou com a toalha e se virou para
a porta.
     Brett se jogou na cama e olhou pela janela. A vista do rio,
que em geral a acalmava como uma dose de usque envelhe-
cido, agora parecia sufocante. Ela imaginou que o primeiro
encontro com Callie depois do longo vero seria diferente. Ela
no esperava que as duas conversassem sobre Tinsley j de
sada. E ela achava que Callie se comportaria como sempre --
atirando-se na cama de Brett, abrindo um saco de biscoitos
Pirate's Booty para dividirem e fofocando sobre todas as coi-
sas malucas, romnticas e indecentes que elas fizeram o vero
todo. Elas iam rir, tomar um gim-tnica e sair para jantar, como
no ano anterior.
     Ela abriu o celular e rapidamente apertou a tecla de atalho
para a irm, Brianna, que morava em Nova York e trabalhava
como editora de moda da revista Elle. Bree passara pelo
triturador da Waverly seis anos antes e em geral podia tirar Brett
de qualquer depresso. Infelizmente, o telefone de Bree caiu
direto na caixa postal.
     -- Oi, sou eu -- disse Brett quando ouviu o sinal. -- Eu
54
me sinto... Sei l. Confusa. Me liga.
    Ela desligou e caiu de volta na cama. Assim que fez isso, o
celular berrou. Pensando ser Bree, ela o abriu, mas estava
enganada.
    -- Oi, Jeremiah -- suspirou ela, apertando o telefone na
orelha. -- Como  que est?
    -- Muito bem, agora -- murmurou ele na outra ponta.
    Brett revirou os olhos. Depois ela o imaginou esparrama-
do em sua cama de dossel no St. Lucius,  15 quilmetros de
distncia, numa camisa de futebol esfarrapada e cueca samba-
cano, com os braos compridos e bronzeados e os olhos
sensuais, e ela sentiu um jato quente de prazer.
    -- Ento a gente vai fazer aquela... coisa? -- perguntou
ela, sem sequer se incomodar em fechar a porta do quarto.
Pouco importa que as meninas barulhentas do segundo ano
ouam no quarto ao lado. Talvez elas aprendam alguma coisa.
                                                            55
           OwlNet            Caixa de Mensagem Instantnea
      HeathFerro:    Tenho novidades. Falei com o amigo do meu
                     irmo que trabalha com I-banking, e ele disse
                     que o Fish Stick est bombando na cidade. As
                     meninas tiram tudo por 99 cents!
     CallieVernon:   Humm, Heath? Acho que passou torpedo para a
                     pessoa errada. Aqui  a Callie. No quero saber
                     de strippers. Especialmente no quando estou
                     entrando no banho.
      HeathFerro:    Vc est no banho? Posso ver? Agora que voc e
                     Easy terminaram, vc est livre feito um
                     passarinho, n?
     CallieVernon:   Como ? Quem te disse isso?
     CallieVernon:   Heath? Cad voc? No  verdade!
     CallieVernon:   Ei!
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    OwlNet           Caixa de Mensagem Instantnea
BennyCunningham:     Ento a grande pergunta , j montou
                     no Pnei?
     CallieVernon:   Pnei?
BennyCunningham:      o novo apelido de Heath Ferro. Ele
                     consegue mais bundas do que um
                     pnei de feira do interior.
     CallieVernon:   Eca. De jeito nenhum eu fico com ele.
                     Ele  nojento. E voc?
BennyCunningham:     Culpada da acusao.
     CallieVernon:   Aimeudeus. Quando?
BennyCunningham:     Primeiro ano. A gente transou no
                     armrio de casacos do Stansfield Hall.
                     Nunca mais. Totalmente tosco.
     CallieVernon:   Sem querer mudar de assunto, mas
                     algum te disse que eu e Easy
                     terminamos?
BennyCunningham:     Humm... talvez.
     CallieVernon:   Quem?
BennyCunningham:     No lembro. Tenha que me arrumar pro
                     jantar!
     CallieVernon:   Porque no  verdade.
     CallieVernon:    srio.
     CallieVernon:   Vc ainda est a?
                                                              57
                              6
       SE QUISER IMPRESSIONAR AS COLEGAS
       DE QUARTO, UMA WAVERLY OWL PODE
          FOFOCAR SOBRE A PRPRIA VIDA.
     E
              stou procurando por Jennifer Humphrey. -- Uma
--            magrinha com cara de passarinho, sotaque brit
              nico e cabelo louro pegajoso estava parada se re-
torcendo diante de Brandon e Jenny, logo depois da porta da
sala de estar do Richards. Ela vestia um suter de algodo e
gola rul branco e sem mangas com um penacho triangular
no bolso e uma cala cqui muito mame-suburbana que aper-
tava sua cintura e deixava a bunda enorme. -- Acho que deve
ser voc.
    -- Sim -- Jenny meio que guinchou, tentando no de-
monstrar a ansiedade na voz.
    -- Meu nome  Yvonne Stidder. -- A garota estendeu a
mo. Tinha um aperto de mo mole e uma espinha no quei-
                                                            59
xo. -- Sou mentora das novas alunas. Achamos um quarto para
voc.
    Brandon ergueu as sobrancelhas para Jenny e comeou a
se levantar.
    -- Foi um prazer conhecer voc, Jenny.
    -- O prazer foi meu. -- Jenny passou as bolsas L. L. Bean
rosa no ombro. -- A gente se v hoje a noite -- sussurrou ela
quando Yvonne deu as costas.
    -- Desculpe por fazer voc esperar tanto tempo -- con-
tinuou Yvonne, levando Jenny pela escada de sada do aloja-
mento Richards, passando por uma entrada cheia de mountain
bikes usadas, skates, caixas vazias de PlayStation e uma deze-
na de bolas de futebol americano gastas.
    -- No tem problema. -- Jenny estava emocionada por
ter conversado com dois garotos bacanas, mas estava meio
aliviada por se afastar deles. Assim podia respirar um pouco.
    -- Em geral no permitimos a entrada no alojamento
masculino, a no ser nas horas de visita. -- Yvonne olhou
longamente de lado para Jenny, mantendo a porta aberta para
ela. Ela espirrou assim que as duas saram. -- Na verdade,
humm, esta  a primeira vez que eu entro num alojamento de
meninos. Apesar de eu saber tudo sobre os alojamentos mas-
culinos,  claro. Sei todo o tipo de coisas sobre a Waverly, se
quiser me fazer alguma pergunta. Qualquer coisa.
    -- Tudo bem. Obrigada. -- Se Yvonne no parecesse to
monga, Jenny podia ter desconfiado de que ela estava cheira-
da, porque ela falava rpido demais. -- E para qual alojamen-
to eu vou? -- perguntou ela enquanto atravessavam o
gramado. Ela sentiu uma palpitao de nervosismo no peito.
60
Estavam indo para seu novo alojamento, onde ela ia morar por
todo o ano letivo! Onde todo o tipo de coisas incrveis iam
acontecer com ela! Assim esperamos.
    -- Dumbarton. Bem ali, est vendo? -- Yvonne apontou
para um prdio de tijolinhos e dois andares com janelas que
se projetavam de um telhado nos fundos do campus. Alm dele,
brilhava o rio Hudson, que parecia muito mais bonito aqui
do que em Nova York. Jenny podia imaginar a equipe de remo
masculina deslizando tranquilamente por sua superfcie com
seus remos reluzentes, os braos fortes inchando enquanto
remavam. -- Uma garota, a Tinsley Carmichael... Ela ia mo-
rar com Callie Vernon e Brett Messerschmidt, mas foi expul-
sa, ento tem um lugar vago. Minha amiga do grupo de jazz,
Storm Bathurst, mora no quarto ao lado...
    -- Pera. Voc disse Tinsley? -- perguntou Jenny. Ela re-
conheceu o nome, mas tinha absorvido tanta coisa em to
pouco tempo que no conseguia se lembrar de onde ou quan-
do. -- Por que ela foi expulsa?
    Yvonne empurrou os culos redondos de armao de
metal mais para cima do nariz. Ela cheirava a Vick Vaporub.
    -- No sei bem -- respondeu ela categoricamente. --
No gosto de fofoca.
    -- Bom, pode me dizer alguma coisa sobre minhas novas
colegas de quarto?
    Yvonne fez uma pausa.
    -- Eu no as conheo bem. Mas elas so as meninas que
todo mundo procura.
    -- Procura? -- O corao de Jenny se acelerou.
    -- Sabe como , aquelas que sempre do festas, sempre
                                                          61
ficam com os garotos mais bonitos... -- Yvonne riu e se virou
para Jenny. -- No  que no tenha meninos bonitos no gru-
po de jazz. Voc toca algum instrumento? O grupo de jazz est
procurando por algumas pessoas.
     -- Humm, no, desculpe. Mas e Callie e Brett... Elas so,
tipo assim, populares de verdade?
     -- So. -- Yvonne assentiu, desviando-se de um colete
marrom de jogo que algum deixara no campo. -- Tem uma
galera que  o centro das atenes de todo mundo no campus.
     Ah,  mesmo?, pensou Jenny toda animada. Ela tocou o
pequeno jacar de patricinha na blusa, satisfeita por ter se ves-
tido to bem para conhecer as novas colegas superdescoladas.
Depois ela percebeu um cara alto e moreno com cabelo cola-
do na cabea, como se tivesse acabado de tirar um chapu,
andando pelo gramado. Ele levava um grande cavalete de
madeira no ombro e seus jeans estavam manchados de tinta.
A respirao de Jenny ficou presa na garganta.
     -- Quem  esse? -- ela apontou.
     -- Ele? -- murmurou Yvonne. -- Esse  Easy Walsh.
     -- Easy. Que nome timo -- refletiu Jenny. -- Ele  ar-
tista ou coisa assim?
     -- Eu no o conheo muito bem, s sei que ele est sem-
pre se metendo em problemas. -- Yvonne franziu o nariz. --
Fumando -- cochichou ela. Para uma menina que no gosta-
va de fofoca, ela certamente sabia de muitas.
     O rapaz entrou pelas portas duplas da biblioteca. Jenny de
repente queria poder largar as malas -- e Yvonne -- e ir atrs
dele.
     Em vez disso, ela seguiu Yvonne at o alojamento
62
Dumbarton. Era um prdio de tijolos aparentes de dois anda-
res que tinha o nome inscrito em arenito acima de uma porta
de madeira grande e branca de fazenda. Elas se enfiaram por
uma passagem estreita e subiram um lance de escada de gra-
nito. Um dos degraus tinha a inscrio 1832, RHINECLIFF,
NY. O alojamento era ainda mais antigo do que o prdio em
runas em que sua famlia morava no Upper West Side.
    Em volta dela, as meninas estavam fazendo a mudana.
Rooney berrava de um quarto, No Doubt de outro. Ela viu
uma asitica baixinha de rabo-de-cavalo desenrolando um
pster gigante de Jennifer Garner como Elektra, acabando com
a raa de algum.
    Elas se aproximaram da porta 303, que estava entreaberta.
    -- ...e eu estou lambendo voc todo e... pera. No. Meu
Deus, Jeremiah, voc ainda no tirou a cala. Tem que me
acompanhar!
    -- Er, oi? -- disse Yvonne, empurrando a porta um pou-
co.
    Uma menina mais velha com um rosto notvel e cabelo
ruivo se levantou de um pulo de uma das camas do quarto.
    -- Preciso ir -- disse ela ao telefone e o desligou. Ela olhou
por um segundo para Yvonne e depois fixou os olhos pene-
trantes em Jenny.
    -- Ermmm, esta  Jenny Humphrey -- explicou Yvonne.
-- Ela  sua nova colega de quarto. Ela  de... De onde voc
veio?
    -- Da Constance Billard -- respondeu Jenny, erguendo
a mo. -- Em Nova York.
    -- Ah. Legal. Brett Messerschmidt. -- A menina estava
                                                               63
com uma blusa de manga curta feita sob medida e engomada
que Jenny tinha visto na vitrine da Soho Scoop o vero todo e
aquela bermuda na altura do joelho que s a galera mais hype
de Williamsburg usava.
     Jenny entrou no quarto, que era maior e de certa forma
mais simples do que ela imaginava. As janelas eram enormes
e lindas, dando para o rio, enquanto as camas e a moblia eram
simplesmente... velhas. Ela analisou a nova colega de quarto
pelo canto do olho. O cabelo ruivo reluzente tinha um corte
curto severo que terminava bem no queixo. Uma orelha ti-
nha umas sete argolinhas de ouro e ela usava um relgio
Cartier de ouro e diamante no pulso esquerdo. Ela era sensu-
al, sofisticada e muito... familiar. Depois Jenny se lembrou:
havia uma foto de Brett no site da Waverly. Ela era a Garota
Curvada Sobre os Livros Parecendo Estudiosa. Ou pelo me-
nos era como Jenny a chamava.
     -- E a Callie? -- Yvonne deu uma olhada no quarto. --
Ela j chegou?
     -- No banho -- murmurou Brett.
     Yvonne piscou com fora, depois murmurou alguma coi-
sa sobre uma aula de flauta e disparou para fora do quarto.
     Jenny andou at o que parecia a cama vaga e se sentou,
quicando algumas vezes.
     -- Este quarto  timo. Adorei a vista.
     -- ,  legal. -- Brett cruzou os braos.
     -- Quem  voc? -- disse uma voz atrs delas. Jenny se
virou e viu uma garota alta e incrivelmente linda, com olhos
castanhos enormes e um cabelo louro escuro que parecia ter
acabado de sair do secador. Jenny pensou que ela parecia ver-
64
so Disney da Cinderela. Depois de transformada em prince-
sa,  claro.
    -- Oi. Meu nome  Jenny. Eu sou... Eles me mandaram
para este quarto.
    -- Eles? Eles quem? -- quis saber Cinderela.
    -- Bom... a Waverly -- gaguejou Jenny. -- Voc  a Callie?
    -- Sou. Voc  do segundo ou do terceiro ano?
    -- Segundo. E vocs?
    -- Terceiro. -- Callie fez um biquinho com os lbios de
batom rosa e baixou uma enorme bolsa de maquiagem Gucci
na mesa. -- Vai ficar com essa cama? -- Ela apontou para a
cama em que Jenny estava sentada.
    -- Acho que sim. Quer dizer, se no tiver problema para
vocs duas.
    -- Acho que est tudo bem. -- Callie olhou para Brett.
-- Parece que a Tinsley realmente foi embora.
    Brett pareceu bufar pelo nariz. Jenny limitou-se a ficar
parada, sem saber bem o que dizer.
    -- O que aconteceu com a... er... Tinsley? -- perguntou
ela por fim.
    --  complicado -- respondeu Brett rapidamente, abrin-
do o fecho de uma mala abarrotada de sapatos. Jenny viu as
etiquetas em alguns. Jimmy Choo. Sigerson Morrison.
Manolo Blahnik.
    -- No foi nada -- acrescentou Callie. Ela olhou pela ja-
nela, desviando os olhos das duas.
    Jenny no era muito de fumar, mas queria ter um cigarro
naquele momento s para ter o que fazer com as mos.
    Callie finalmente rompeu o silncio.
                                                           65
    -- De que escola voc era?
    -- Constance Billard. Fica em...
    -- Nova York. S de meninas -- interrompeu Callie
numa voz sussurrada, chegando um pouco mais perto de Jenny
como um gato que pode roar na sua perna. Ela se virou para
Brett. -- A Tinsley no era da Constance?
    -- No. Ela era do Trinity. At a quarta srie. Depois foi
para algum lugar na Sua, depois veio pra c.
    -- , pensando bem, a Tinsley no iria de jeito algum a
uma escola s pra meninas. -- Callie examinou as cutculas.
-- Eu me lembro de quando ela disse que teve toneladas de
namorados.
    -- Bom, a Tinsley  bonita -- acrescentou Brett sem
muito interesse, tirando camisetas de outra mala.
    Jenny se eriou. Ser que Brett estava dizendo que ela no
era bonita? Quem era essa tal de Tinsley, alis?
    -- Ela podia ter o cara que quisesse -- continuou Brett.
-- At os que tinham namorada.
    -- Isso no  verdade -- rebateu Callie antes de se virar
para Jenny.
    Os olhos de Jenny dispararam de uma colega de quarto
para outra. O que  que estava rolando com elas?
    -- A Tinsley deu a festa de 11 anos dela nas docas de
Chelsea. Tipo assim, ela alugou o troo todo e instalou uma
escola de trapzio na rea de ginstica. Voc foi?
    Jenny deu de ombros.
    -- No, desculpe. -- Mas ela se lembrava dessa festa, 
verdade. Quando Jenny tinha 10 anos, o pai ficou dias rabu-
gento por causa de um artigo na seo Style do New York Ti-
66
mes que cobriu uma festa no Complexo Esportivo das Docas
de Chelsea para uma menina um ano mais velha do que Jenny.
O pai tinha sacaneado porque era uma festa complacente e um
nojo de burguesa, mas Jenny achou que a menina era a crian-
a mais sortuda do planeta. E agora ela ia dormir na cama dela!
Isso tinha que ser um bom sinal.
    Callie olhou para Jenny como um avaliador da Christie
examinaria um vaso Ming e depois sorriu.
    -- Bom, bem-vinda  Waverly. Acho que vai gostar da-
qui.
    Jenny pensou satisfeita: Eu j estou gostando.
                                                            67
          OwlNet            Caixa de Mensagem Instantnea
     TeagueWilliams:   Como  que  a garota de 99 cents mesmo?
         HeathFerro:   Cabelo castanho cacheado, praticamente
                       an, peites.
     TeagueWilliams:   Deixa eu adivinhar... Vai levar a menina na
                       capela?
         HeathFerro:   Pode apostar!
          OwlNet            Caixa de Mensagem Instantnea
         CelineColista:    A, a Callie e a Brett esto brigadas. As
                           duas foram na sala de Marymount para
                           pedir transferncia de quarto.
     BennyCunningham:      Tudo por causa da Tinsley, n? Onde ela
                           est, alis? Algum sabe?
         CelineColista:    Eu soube que ela est namorando um
                           cara dos Raves e eles esto em turn pela
                           Europa.
     BennyCunningham:      Pensei que a garota nova da capital 
                           que estivesse namorando os Raves...
          Celinecolista:   Qual deles!?
     BennyCunningham:      Todos. A banda toda.
         CelineColista:    Que tosco. Como soube disso?
     BennyCunningham:      Eu tenho as minhas fontes.
68
                               7
   A CAPELA NO  UM LUGAR ADEQUADO PARA
     SOCIALIZAO DE NOVAS WAVERLY OLWS.
     A
                , olha s quem est aqui!
--             Jenny estava parada do lado de fora da sala de
               estar da Richards, reaplicando o gloss rosa trans-
parente no espelho grande e embaado estilo caf do hall. Vestia
um top APC verde-esmeralda de gola alta que estava ficando
meio esticado demais nos peitos enormes e sandlias de cou-
ro com os saltos mais altos que tinha. Ela girou a cabea e viu
Heath Ferro, o cara que vira mais cedo com o BlackBerry e a
barriga perfeita, parado na soleira da porta, um cigarro apaga-
do na mo. Gotas pequenininhas de suor saam de sua testa e
os olhos estavam meio vidrados e tontos.
    -- Oi -- respondeu Jenny toda alegrinha, passando as
mos no nico jeans Seven que tinha, que por acaso deixava
suas pernas um pouquinho mais compridas do que um toco
                                                              69
de rvore. -- A festa  aqui?
    -- Sem dvida que  -- respondeu Heath galantemente.
Ele passou o brao na cintura de Jenny.
    Jenny sorriu. Heath parecia realmente feliz em v-la. E ela
tambm estava feliz em v-lo. Ele vestia uma camisa azul-cla-
ra por fora da cala, bermuda do exrcito e estava descalo.
Ela gostou de seus ombros largos e do corte de cabelo sou-
um-mauricinho-completo. Meio como Hamlet seria se fosse uma
pessoa real, pensou Jenny. Todo aquele sangue dinamarqus
principesco, alm de um brilho de rebeldia nos olhos.
    E Jenny gostava de rebeldia.
    Heath empurrou a pesada porta de madeira, abrindo-a para
Jenny. Todo mundo congelou.
    -- Est tudo bem -- anunciou Heath, a mo roando por
acidente no peito de Jenny. --  s a gente.
    Jenny olhou a sala. Sua primeira festa na Waverly! Ela po-
dia ter ficado no alojamento jogando xadrez com Yvonne, mas
em vez disso estava quebrando as regras em sua primeirssima
noite no internato! Ela de imediato viu que tinha um clima
diferente das festas a que foi em Nova York -- ningum esta-
va se agarrando no quarto de hspedes e eles no precisavam
se preocupar com os pais chegando mais cedo de Paris. Al-
gum tinha reduzido as luzes e acendido um monte de velas.
Todos pareciam ter sado de um catlogo da J. Crew -- eles
eram todos to lindos, com a pele perfeita e brilhante, os cor-
pos atlticos da prtica de esportes obrigatria o ano todo. Cada
um era mais lindo do que o outro. Todo mundo segurava gran-
des canecas trmicas de caf, o que a confundiu um pouco,
at que Jenny percebeu que as canecas continham lcool.
70
    Do outro lado da sala, Brett estava sentada no sof de cou-
ro rachado com Callie, a amiga delas Benny Cunningham, e
Sage Francis, que estava deliciando a todas com as histrias
do fabuloso safri na frica que ela fez no vero. No parecia
muito bom para Brett. Moscas, malria e animais selvagens
fedorentos. Que divertido! Ela olhou para a porta, viu a nova
colega de quarto no brao de Heath Ferro e de imediato cu-
tucou Benny nas costelas.
    Benny era da Filadlfia, ia herdar 200 milhes de dlares
e era bonita como uma amazona: alta e magra, cabelo casta-
nho comprido e basto e enormes olhos castanhos. Ela era uma
pudica e sempre culpava o lugar onde fora criada, como se a
Filadlfia ficasse em um planeta diferente onde as meninas
bebiam leite integral e se poupavam para o casamento. Benny
sempre citava uma fala de Diane Keaton em um filme antigo
de Woody Allen, Manhattan: "Eu sou da Filadlfia, e no faze-
mos coisas assim l!" Ela no percebeu que a fala era uma pi-
ada. Apesar de seu puritanismo, ela tambm era uma tremenda
fofoqueira que lia a Page Six religiosamente, mas agia como se
soubesse de tudo de primeira mo.
    -- Olha s como o Heath est preparando o bote -- dis-
se a melhor amiga de Benny, Sage Francis, rindo e apontan-
do. -- Acho que ele sabia onde podia conseguir alguma coisa.
    Brett deu de ombros. Ela no conseguia imaginar a nova
colega de quarto ingnua sendo uma puta, mas havia mesmo
alguma coisa aparentemente cintilante e fresca em Jenny que
podia deix-la irresistvel a, digamos, toda uma banda de rock
indie, como diziam os boatos que rolavam no campus. E Jenny
tinha um certo ar de mistrio, o que fazia Brett lembrar de
                                                            71
algum. Tinsley, talvez?
    -- E a, vocs esto mesmo pedindo transferncia de quar-
to? -- cochichou Sage, tocando o ombro despido de Brett.
    -- Transferncia de quarto?
    Sage bateu os clios cheios de glitter. Ela sempre exagera-
va no glitter nos olhos, porque um francs gato que ela co-
nheceu em St. Barts durante as frias de primavera do ano
anterior disse que isso deixava os olhos dela enormes e
sensuais.
    -- Pensei que voc e a Callie estivessem quase arrancan-
do os olhos uma da outra.
    -- Bom... -- Brett hesitou. -- Eu no estava pensando
em pedir transferncia... -- Ela olhou a colega de quarto. Callie
agora estava do outro lado da sala, conversando atentamente
com Celine Colista, a outra capit do time de hquei. Todas
jogavam hquei juntas desde que chegaram na Waverly, mas
Brett nunca levou o esporte a srio, como a maioria das me-
ninas. Ser que Callie realmente pediu transferncia de quar-
to sem Brett saber? Tinha chegado a esse ponto? Ela se virou
para a nova colega de quarto, que estava parada na porta de
olhos vidrados, como se nunca tivesse ido a uma festa na vida.
    Jenny estava meio impressionada -- mas no bom sentido.
Heath voltou, acenando uma caneca da Waverly com um chei-
ro forte diante da cara dela.
    -- Para voc.
    -- O que ? -- perguntou ela, pegando a caneca com as
duas mos.
    -- Isso importa? -- Ele sorriu e virou o contedo da pr-
pria caneca garganta abaixo.
72
    Jenny ps a caneca nos lbios. O lquido amargo e forte
tinha gosto de cerveja misturado com rum. Gorgolejou por
sua traquia, provocando lgrimas nos olhos dela.
    -- Ei, olha l o Brandon! -- ela conseguiu arfar. Brandon
estava parado junto a uma das vidraas gigantes, cercado por
trs meninas minsculas com rabos-de-cavalo lourssimos e
iguais. Quando viu Jenny do outro lado da sala, seu rosto se
iluminou e ele acenou. Ela ergueu a mo para retribuir o ace-
no, mas Heath a pegou e puxou para o lado dele.
    -- Est na hora de a garota nova passar por nosso ritual
de iniciao -- disse ele, sorrindo diabolicamente.
    -- Como ? -- Jenny franziu a testa. -- Nunca ouvi falar
de rituais de iniciao.
    -- Ento voc no andou falando com as pessoas certas.
-- Heath tomou outro longo gole da caneca, depois a colo-
cou no antigo radiador prateado do aquecedor. -- Vem comi-
go. -- Ele a levou para a porta.
    Na sada, alguns rapazes o cumprimentaram batendo as
mos.
    -- Vai pra onde, Pnei? -- perguntou um deles. Heath
s ergueu as sobrancelhas. Os meninos comearam a rir, a
ofegar e gemer.
    -- O que  tudo isso? -- perguntou Jenny, olhando para
os meninos que uivavam.
    -- Quem pode saber? -- murmurou Heath enquanto
abria a pesada porta de madeira para Jenny.
    -- Quem  Pnei?  voc?
    -- Shhhh -- interrompeu Heath. Jenny fez biquinho,
sentindo uma pequena inquietao. Mas este era o colgio
                                                          73
interno. A terra mgica de Waverly. Ela estava segura aqui, no
estava?
    Do lado de fora, a noite estava um breu e silenciosa a no
ser pelos sons de alguns grilos que restaram do vero. Heath
parou diante da capela da Waverly, o prdio ao lado do
Richards. A capela era atarracada mas imponente, com vitrais
e uma porta de carvalho pesada.
    -- O que a gente...? -- comeou Jenny. Ela ainda no ti-
nha entrado na capela -- ia fazer isso no dia seguinte de ma-
nh, para a chamada, os anncios e as oraes.
    Heath apagou o cigarro em um dos vidros da frente.
    --  tradio que os novos alunos da Waverly entrem na
capela antes de as aulas realmente comearem.
    -- Voc no vai me trancar a dentro nem nada disso, vai?
-- perguntou Jenny numa voz trmula, sem ligar se parecia a
Velha Jenny.
    --  claro que no. -- Heath ergueu as sobrancelhas. --
Eu vou entrar com voc.
    -- Ah. -- O corao de Jenny estava se acelerando. --
Tudo bem, ento.
    Heath empurrou a enorme porta de carvalho at abri-la.
A luz dentro da capela vinha somente de algumas velas. E es-
tava silencioso feito... bom... uma igreja.
    --  bem legal aqui -- sussurrou Jenny.
    -- Senta aqui comigo. -- Heath deu um tapinha em um
dos bancos de madeira escura.  luz das velas, com as mos
dele cruzadas no colo e o cabelo penteado para trs com gel,
Jenny se perguntou se o estava julgando mal. Talvez ele real-
mente fosse espiritual e sensvel.
74
    Ela deslizou no banco para junto dele.
    -- Ento o ritual  esse, ?
    -- Ritual? -- Heath olhou para ela como quem no en-
tendia nada.
    -- Voc disse que... -- Jenny parou.  claro que no havia
um ritual. Era um truque.
    Eles ficaram em silncio por um minuto, ouvindo o ven-
to bater nas laterais da capela. Depois Heath pegou as mos
de Jenny.
    -- Voc estava to linda hoje de manh -- sussurrou ele,
trocando o l e o m, ento o que ele disse foi minda e lanh. --
Especialmente quando meu pai te deu uma carona para subir
o morro.
    -- Ah -- respondeu Jenny, radiante. Ele se lembrava mes-
mo! -- Bom, obrigada.
    -- Voc veio de uma escola s de meninas de Nova York,
no ?
    -- . -- Ela havia dito isso de manh? Jenny achava que
no.
    -- Voc foi expulsa?
    -- No exatamente.
    Depois Heath se curvou para ela. Ela pensou que ele s
tivesse perdido o equilbrio, mas a boca de Heath de repente
estava toda na cara dela e sua lngua se enfiava pelos lbios de
Jenny. A primeira reao de Jenny foi empurr-lo, mas um
formigamento de prazer comeou a percorrer suas costas.
Heath beijava bem pra caramba, talvez melhor do que qual-
quer outro que ela tenha beijado. Ela pegou a nuca de Heath,
fechou os olhos com fora e se permitiu ser levada. O banco
                                                             75
de madeira estalou e gemeu um pouco. Os rudos de beijo
ecoavam no teto em nicho. A mo dele acompanhou o con-
torno dos dedos dela, mas depois rapidamente desceram at
o antebrao e por fim terminaram no peito de Jenny.
    Jenny se afastou dele, alarmada.
    -- O que foi? -- Heath deu um sorriso sacana, os olhos
disparando de um peito para outro de Jenny. Ele no parecia
mais nenhum anjinho espiritual.
    -- Bom... Isso est meio rpido -- Jenny conseguiu di-
zer. --  s isso.
    -- Ah, sem essa -- insistiu Heath, a voz ficando mais
sonolenta. -- Jenny de Nova York. A Jenny doida.
    -- Eu no sou assim to doida -- replicou Jenny. Ela teve
a sensao arrepiante de que Heath estava citando algum. O
que as pessoas diziam sobre ela? E de onde tiravam as infor-
maes?
    Depois, de repente, Heath se deitou, colocou a cabea no
banco e comeou a ressonar. Jenny se levantou. Heath estava
de porre. Ela olhou a capela vazia, os roncos dele ecoando no
teto de vigas.
    Tudo isso fez com que ela se sentisse a Velha Jenny. Ela
suspirou e olhou em volta, vendo a capela mal iluminada. A
escola s ia comear oficialmente amanh, decidiu ela. A Nova
Jenny s estava no aquecimento.
76
         OwlNet                Caixa de Entrada de E-mail
   Para:   EasyWalsh@waverly.edu
     De:   HeathFerro@waverly.edu
   Data:   Quarta-feira, 4 de setembro, 9:50h
Assunto:   Cara...
Ease,
Perdeu uma festa do caramba. Nem consigo me lembrar do final,
s que aquela baixinha do segundo ano e eu que ficamos juntos
de verdade. Ainda estou na cama e acho que vou ficar aqui o dia
todo. Aposto que voc teve uma merda de desculpa qualquer para
no ir. Era a Tinsley? Voc viu a Tinsley nesse vero, no foi?
A, cara, responde a se no a gente vai pensar que voc morreu.
Tchau,
H
                                                                   77
            OwlNet            Caixa de entrada de E-mail
        Para:   BrettMesserschmidt@weaverly.edu
          De:   JeremiahMortimer@stlucius.edu
        Data:   Quarta-feira, 4 de setembro, 10:01h
     Assunto:    melhor pessoalmente...
     E a, B. Voc desligou o telefone rpido demais. Justamente quando
     a gente ia chegar na melhor parte! No posso ficar outro dia sem
     ver voc. Eu sei que suas aulas comeam amanh, mas voc termina
     s 4, no ? E se eu pegasse o trem e aparecesse amanh  tarde?
     Talvez a gente possa passar um tempinho debaixo daquele seu
     edredom macio...
78
                              8
        UMA WAVERLY OWL NO DEVE BEBER
           COM O PROFESSOR -- A NO SER
                   QUE SEJA SNAPPLE.
     U
                ff! -- Brett esbarrou em um cara alto enquanto
--              andava pelo corredor do terceiro andar do
                Stansfield Hall. Estava tentando ganhar alguns
minutos, vendo os e-mails na telinha do celular antes de se
encontrar com um novo professor chamado Sr. Dalton, que
devia ser o novo orientador do Comit Disciplinar. A mensa-
gem de Jeremiah tinha acabado de aparecer na tela. -- Des-
culpa -- murmurou ela para a pessoa que tinha esbarrado nela,
sem olhar para ver quem era.
    --  melhor olhar por onde anda. Voc  a Brett, no ?
    Ela olhou para ele. Um cara inacreditavelmente elegante,
com cabelo louro escuro com musse, estava parado diante dela.
Ele parecia o prncipe William, s que mais alto, mais bron-
                                                           79
zeado e melhor. Vestia uma camisa amarrotada de quadricu-
lado pequeno Savile Row com os dois botes de baixo
desencontrados. Brett no conseguiu deixar de imagin-lo
vestindo-a apressadamente sobre o peito duro e musculoso
ao sair da cama.
    -- Eu a reconheo da foto da sua filha -- prosseguiu o
rapaz. -- Sou Eric Dalton, o novo orientador do CD.
    pa. No era nenhum garoto.
    -- Ah! Humm. Oi, Sr. Dalton -- gaguejou Brett, enfi-
ando o celular no bolso. -- Eu, er, peo desculpas por isso. --
Ela estendeu a mo.
    Ele passou uma caneca de caf -- a mesma caneca mar-
rom e branca dos Waverly Owls que eles batizavam com lco-
ol nas festas do alojamento -- de uma mo para a outra para
apertar a mo dela. Brett de repente ficou feliz por ter fetiche
em hidratante e que a palma de sua mo fosse sedosa na mo
dele.
    -- No so permitidos aqui, voc sabe disso. -- O Sr.
Dalton ergueu as sobrancelhas para ao celular dela. Por um
segundo Brett pensou que ele estava falando a srio e come-
ou a preparar uma desculpa. Depois ele cochichou: -- Mas
eu no vou contar... desta vez. V se sentar em minha sala e
chegarei l em um segundo.
    Desnorteada, Brett sorriu, querendo ter alguma coisa es-
pirituosa para dizer.
    A porta para a sala dele estava aberta. Ela entrou e olhou
em volta. Para um cara que tinha acabado de chegar  Waverly,
ele certamente tinha muita tralha. Havia psteres enrolados
em papel pardo no cho, um globo preto e grande que ainda
80
mostrava a Rssia como URSS e livros e papelada em toda
parte. Ela percebeu uma garrafa cheia do que parecia vinho
tinto na mesa de carvalho no canto e sua mente disparou.
    Calma, disse ela a si mesma. Voc est aqui porque ele  novo
na Waverly e quer conhecer todos os membros do CD. Isso deve ser
Snapple de framboesa, e no vinho.
    Ela foi at um dos psteres que o Sr. Dalton tinha pendu-
rado em uma moldura pesada e dourada. Era na verdade um
pergaminho antigo, montado e emoldurado. Ela semicerrou
os olhos para as palavras em grego arcaico e murmurou.
    -- Louve cada deus como se ele estivesse ouvindo.
    -- Como sabe disso? -- disse uma voz atrs dela.
    Brett deu um pulo. O Sr. Dalton estava parado na soleira
da porta, sorrindo da timidez dela, como se ele soubesse de
um grande segredo e estivesse pronto para revelar a todos.
    -- Eu passei algum tempo na Grcia -- disse ela, insegu-
ra.
    -- No quer se sentar? -- perguntou ele. -- Desculpe pela
papelada. -- Ele rapidamente pegou uma pilha de papis em
uma cadeira, curvando-se para to perto de Brett que ela no
conseguiu deixar de perceber como ele cheirava bem. Tipo
Acqua di Parma, que era a nica colnia que ela suportava num
homem.
    -- Posso lhe servir alguma coisa? -- O Sr. Dalton se sen-
tou em sua cadeira de couro marrom e encosto alto. Ela fez
um barulho de peido, o que os dois fingiram no perceber. --
Eu tenho um frigobar, alguns copos, embora eu s tenha...
Bom.... Na verdade, tudo o que eu tenho, eu acho,  um pouco
de pinot noir. -- Ele franziu a testa, depois piscou com fora.
                                                              81
-- Desculpe. Quero dizer, obviamente no podemos beber
pinot noir. Nem sei o que ele est fazendo aqui, porque eu no
ia beber nem nada.
    Parece-me que o Sr. Dalton est a protestar demais, pensou Brett
pervertidamente, observando-o afastar nervoso o colarinho do
pescoo.
    -- Est tudo bem -- declarou ela toda comportada,
empoleirando-se na beira da cadeira.
    Dalton ligou o Mac G5 de tela plana instalado em cima da
mesa.
    -- Muito bem, Brett. Ento eles me obrigaram a colocar
todos os casos antigos do CD em um banco de dados. Me
deram o trabalho chato porque eu sou novo aqui. -- Ele
mostrou nervoso os dentes perfeitos e ela se perguntou se ele
tinha genes maravilhosos para os dentes ou se eles eram
recapeados. Era parada dura, mas ela no se incomodaria de
verificar mais de perto. Com, digamos, a boca.
    Ele remexeu nuns papis.
    -- Ento, alm de conhecer todos os nomeados para o
CD, estou procurando por algum para me ajudar a garimpar
todo esse negcio do comit disciplinar, chegar s informa-
es pertinentes e depois me ajudar a entrar com os dados no
computador. Mas tem que ser algum que esteve no CD no
ano passado, porque o material  confidencial para os alunos
que no so do CD. Voc foi do CD no ano passado?
    Brett lambeu os lbios.
    -- Bom, no -- respondeu ela, querendo mentir.
    -- Ah. -- O Sr. Dalton pareceu decepcionado. Ele sol-
tou um suspiro. -- Isso  pssimo.
82
    -- Mas ns no contaramos a ningum, no ? -- suge-
riu Brett devagar. -- Quer dizer, eu quero ajudar. Seria... Se-
ria bom para meu histrico.
    Claro.  por isso que quero fazer, pensou ela. Meu histrico.
    -- No sei no... -- O Sr. Dalton sacudiu a cabea. Ele
olhou para ela com um jeito indagador. Brett tirou nervosa
um fio de cabelo no rosto. -- Quantos anos voc tem? --
perguntou ele por fim.
    -- Dezessete.
    -- Ah. -- Ele inclinou a cabea e sorriu meio torto.
    -- Que foi?
    --  que voc no parece ter 17 anos.  s isso.
    Os homens diziam isso a Brett o tempo todo. Sempre fi-
cavam assombrados que ela ainda estivesse no ensino mdio.
    -- E quantos anos voc tem?
    Ele se aprumou um pouco.
    -- Vinte e trs. Acabei de me formar na Brown.
    Brett inconscientemente roeu o esmalte Hard Candy Vinyl
do dedo mnimo.
    -- Vou fazer ps-graduao, mas como estudei na Waverly,
acho que devo isso a eles, vou ensinar aqui por alguns anos --
continuou o Sr. Dalton.
    -- Eu quero ir para a Brown -- soltou Brett.
    -- Posso imaginar voc l. -- Ele assentiu.
    Ela olhou fixamente o lindo professor de 23 anos e no
desviou os olhos pelo segundo em que ele tambm a enca-
rou.
    -- Muito bem. -- Ele finalmente rompeu o silncio. --
Acho que talvez a gente possa bolar um jeito de voc me aju-
                                                              83
dar... Quero dizer, se realmente quiser.
    Eu quero, era o que Brett desejava dizer. Quero muito, de
verdade. Mas ela continuou em silncio.
    -- Talvez a gente possa se reunir amanh de manh, an-
tes das aulas. Ah, e Sr. Dalton  muito esquisito. Talvez eu v
me acostumar com isso quando tiver cinqenta anos e admi-
nistrar um negcio familiar. Mas por enquanto... -- Ele bai-
xou os olhos e depois olhou para ela de sob os clios louros e
grossos. -- Pode me chamar de Eric?
    -- Claro -- concordou Brett, sorrindo. Ela podia pensar
em um monte de coisas de que gostaria de cham-lo.
    Exatamente naquele momento, os papis que ele tinha
retirado para que ela se sentasse comearam a escorregar da
mesa dele na direo do colo de Brett. Ele avanou para a fren-
te, pegando-os. Ao mesmo tempo, Brett se abaixou para pe-
gar alguns papis que tinham cado no cho. Eles se chocaram
de cabea.
    Ai.
    -- Porra! -- gritou Brett, vendo um breve lampejo de
branco. Depois ela colocou a mo na boca. Embora a maioria
dos alunos da Waverly fosse desbocada, no se deveria xingar
na frente dos professores. Os Waverly Owls sempre devem
ter boas maneiras, e os palavres eram um sinal de indecncia
e m criao.
    Ele esfregou a testa, estremecendo.
    -- Voc est bem?
    Brett engoliu em seco. E se o Sr. Dalton pensasse que ela
era inculta e vulgar? Mas ela percebeu a expresso preocupa-
da dele e concluiu que ele no ligava.
84
   -- Acho que vou sobreviver -- respondeu ela por fim.
   -- Que bom -- ele riu. -- Porque eu sem dvida quero
que voc fique viva.
                                                     85
            OwlNet             Caixa de Entrada de E-mail
        Para:   BriannaMesserschmidt@elle.com
          De:   BrettMesserschmidt@waverly.edu
        Data:   Quarta-feira, 4 de setembro, 10:53h
     Assunto:   Gato, gato, gato
     Oi, mana
     Acabo de conhecer o homem perfeito. Ele  inteligente, lindo,
     tmido, doce e mais gato do que os modelos das propagandas de
     Ralph Lauren Romance. Mas, problema: ele  professor. Do tipo que
     passa dever de casa. Do tipo que se senta no palco da Waverly
     durante as reunies. Do tipo que d notas e no deve tocar nas
     alunas... Tenho certeza de que voc entendeu a essncia da questo.
     O que fazer?
     Bjs,
     Maninha
86
       OwlNet           Caixa de entrada de E-mail
   Para:   JeremiahMortimer@stlucius.edu
     De:   BrettMesserschmidt@waverly.edu
   Data:   Quarta-feira, 4 de setembro, 10:57h
Assunto:   Re:  melhor pessoalmente...
J,
Claro, pode vir amanh, mas no no meu quarto. A Callie est uma
prima donna. Que surpresa.
A gente se v.
B
                                                                   87
                              9
     UMA WAVERLY OWL NO DEVE PROCURAR
        TER ENCONTROS SECRETOS. SEMPRE
                  TEM ALGUM VENDO.
C
           allie se curvou por cima das portas sujas de madeira
          do velho estbulo, tentando no pisar em esterco
          seco de cavalo com os sapatos novos Stella McCartney
de ponta redonda e couro preto. O celeiro vermelho e desbo-
tado ficava ao lado de um pasto de 12 mil metros quadrados,
separado do resto do campus da Waverly por um bosque denso
de pinheiros. Um apito soou a distncia e Callie reconheceu a
voz rude da treinadora Smail, tcnica de hquei feminino, gri-
tando:
    -- Isso no  de equipe universitria, senhoras! -- O pri-
meiro dia de aula consistia em horrveis testes de oito horas
para os times do outono, mas Callie estava isenta porque j
era capit de hquei universitrio.
                                                            89
     O sol estava baixo no cu de final de tarde e Easy andava
na direo dela. Ele vestia uma das camisetas que tinha trazi-
do de casa -- uma coisa verde e rota com uma ferradura, 
claro -- debaixo do palet marrom surrado da Waverly. Sem
gravata. O cabelo castanho escuro apontava em mechas
desordenadas e havia uma mancha de tinta azul ao lado da
orelha esquerda. Um sorriso enorme e sexy se abriu no rosto
de Easy quando ele a viu. Ela o queria tanto. Talvez tudo en-
tre eles estivesse bem, afinal.
     -- Voc podia pelo menos ter trocado de camisa -- brin-
cou ela, pegando a bainha entre os dedos.
     -- Acho que sim, porque eu me sinto meio nu perto de
voc -- brincou ele tambm.
     -- Eu no estou assim to produzida.
     -- Est produzida demais. Olha s esses sapatos. -- Ele
apontou. -- Posso imaginar voc parada na frente do arm-
rio, angustiada com os sapatos mais novos e mais sensuais. No
? -- ele sorriu para ela. -- Eu estou certo, no estou?
     -- Errado -- rebateu Callie, embora,  claro, ele estives-
se certo. Ela ficava irritada que Easy a conhecesse to bem. E
que fosse mais inteligente do que ela. Na verdade, quando se
pensava bem no assunto, tudo nele a deixava ao mesmo tem-
po fervilhante e trmula de prazer.
     Easy acendeu um cigarro e se abaixou para ficar fora de
vista da casa de Marymount, a grande manso estilo Tudor bem
na beira do campus. Callie atirou o cabelo louro-avermelhado
atrs dos ombros. Por que ele ficava parado ali? Aqui estavam
eles, sozinhos no estbulo abandonado, enquanto todos os
outros estavam terminando os testes de esporte. Ela estava
90
louca para se deitar no feno infestado de carrapatos e arrancar
as roupas dele.
    -- Eu senti sua falta na festa de ontem  noite -- sussur-
rou ela com ternura.
    -- Humm. . Eu estava muito cansado.
    Ah, mas isso era de enfurecer. Ele ainda estava parado l.
    -- E a, quer vir aqui? -- perguntou Callie finalmente,
puxando o palet dele.
    -- S um minutinho. -- Ele se afastou e deu outro trago.
    -- Deixa pra l, ento. Esquece. -- Callie recuou, pegan-
do o prprio mao de Marlboro Lights. Ela colocou um ci-
garro na boca e tentou acender o isqueiro verde-fluorescente,
mas ficou lutando com a trava  prova de crianas.
    -- No, no, sem essa -- pediu Easy em voz baixa, viran-
do-se para ela e atirando o cigarro no cho. -- No fique as-
sim, toda...
    -- Bom, sei l -- comeou Callie. -- Quer dizer, voc...
    Easy ps a mo na nuca de Callie.
    -- Eu s estou meio desligado. -- Ele beijou de leve o
queixo de Callie, depois a comprimiu na porta do estbulo e
a beijou com mais fora. Suas mos competentes voaram por
todo o seu corpo. Callie tirou uma mecha de cabelo embara-
ado do rosto.
    -- Eu j te disse como  bom ver voc? -- murmurou
Easy entre os beijos.
    Callie suspirou. As coisas de repente estavam bem de novo.
Por que ela estava se torturando? Ela e Easy eram perfeitos
juntos. Talvez ela no devesse se sentir to apavorada com o
que aconteceu na Espanha. Talvez ela no devesse dar ateno
                                                            91
alguma quela mensagem instantnea idiota que recebeu de
Heath dizendo que eles tinham terminado.
     -- Talvez a gente deva se deitar -- sussurrou ela.
     Easy a puxou para o pasto, onde a grama era verde e ma-
cia, beijando de leve sua clavcula. Ele a empurrou para o cho
e beijou o pescoo.  assim que deve ser, pensou ela, olhando o
sol se pr. O estbulo abandonado era lindo e o sol estava baixo
e rosado no cu. No, no havia nenhum John Meyer tocan-
do suavemente ao fundo como naquela noite na Espanha, mas
isso definitivamente daria certo.
     -- Lembra do que conversamos na Espanha? -- murmu-
rou Callie, o corao estremecendo no peito. A lembrana
daquela noite voltou num jato: eles estavam na cama de Callie,
debaixo dos lenis, quase nus. Callie reunira toda a coragem
que tinha e disse ao namorado lindo, desleixado, sensual, in-
teligente e beligerante: "Eu te amo." Ela pretendia transar com
ele: eles iam dizer que se amavam e depois fariam amor pela
primeira vez. Todos os boatos do ano anterior sobre Tinsley
se esclareceriam e Easy seria dela para sempre.
     Em vez disso, ele a beijou em silncio, por fim o beijo fi-
cou mais lento e ele se acomodou no travesseiro ao lado do
dela e dormiu. Ela ficou ouvindo sua respirao passar a um
ressonar leve e se perguntou se ele realmente a ouvira. Ser
que ela falou baixo demais? Callie passou todo o vero espe-
rando que fosse este o motivo de ele no responder.
     Callie o amava, ela o amava de verdade. Ele no a ama tam-
bm? Ela percebeu uma daquelas corujonas gordas observan-
do-os de um galho de rvore. Parecia um dos desenhos idiotas
daqueles antigos comerciais de chocolate Tootsie Roll. Ela se
92
sentiu constrangida, como se a coruja a estivesse julgando.
    -- Lembra do que eu disse na cama? -- perguntou ela,
insegura.
    Easy de repente parou de beijar sua clavcula e tombou ao
lado dela.
    Ela pegou o brao dele.
    -- Que foi?
    -- Nada. -- Ele respirou fundo e olhou por sobre o pas-
to. Os gritos dos testes do hquei feminino ecoavam do cam-
po de treino. -- Isso simplesmente parece... Sei l.
    -- O que quer dizer? -- A voz de Callie saiu num guin-
cho agudo e constrangedor. Ela recolocou o Stella McCartney
no p direito e se sentou. Uma mancha enorme de terra cin-
zenta corria por sua perna e ela rezou para que no fosse es-
terco de cavalo.
    Uma figura masculina apareceu no caminho que levava
ao estbulo, empurrando um carrinho de mo.
    -- Merda. -- Callie pegou as mos de Easy, puxando-o
para cima. --  o Ben.
    Ben era o velho zelador desagradvel que sempre metia
os alunos em problemas. Ele at portava uma cmera digital
para ter as provas. No ano anterior, ele pegou Heath Ferro
fumando um baseado na piscina coberta, mas Heath o subor-
nou para deletar as fotos dando-lhe as abotoaduras Harry
Winston de platina que herdara do pai.
    Eles seguiram aos tropeos para o outro lado do estbulo
e se espremeram na porta de madeira.
    -- Eu devia voltar para o meu quarto -- sussurrou Easy.
    -- Tanto faz. -- Callie enfiou o salto na terra, embora
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soubesse que isso ia estragar totalmente os sapatos. Merda. Por
que teve de falar da Espanha?
    -- Olha. -- Ele pegou as mos dela. -- Desculpe. Vamos
tentar de novo. No seu quarto.  noite. Depois do jantar de
boas-vindas.
    -- Ah, , t legal -- ridicularizou Callie. -- Voc j est
na lista negra da Angelica.
    -- Vou encontrar um jeito. -- Easy a puxou para mais
perto e a segurou por um segundo. -- Eu prometo -- sussur-
rou ele, depois se afastou correndo.
94
     OwlNet          Caixa de Mensagem Instantnea
    AlanStGirard:   Cad o Heath?
BrandonBuchanan:    Na cama ainda. Nem tomou banho. Fede
                    pra caramba.
    AlanStGirard:   Cara, t quase na hora do jantar!
BrandonBuchanan:    Eu sei. Acho que tb est de porre.
    AlanStgirard:   Ele saiu com aquela garota nova ontem 
                    noite.
BrandonBuchanan:    Quem?
    AlanStGirard:   Cabelo cacheado curto? Peites? Dizem
                    que ela era stripper em NY.
BrandonBuchanan:    No. Ela quase no ficou l ontem 
                    noite.
    AlanStgirard:   Claro que ficou. Voc estava ocupado
                    demais secando a Callie pra perceber. Ela
                    sumiu porque o Heath levou a garota pra
                    capela. Acha que ela fez um showzinho
                    particular pra ele?
                                                                95
          OwlNet          Caixa de Mensagem Instantnea
        AlisonQuentin:   Essa capela fede. Por que o discurso de
                         boas-vindas  Waverly de Marymount 
                         sempre to compriiiiido?
     BennyCunningham:    Nem me fala. Cad vc-sabe-quem?
        AlisonQuentin:   Sei l. Mas sabia que a Sage desenhou
                         um pequeno pnei nos quadros de aviso
                         de todas as meninas do alojamento dela
                         que ficaram com ele? At agora so seis,
                         inclusive a garota nova. Isso s num
                         andar do Dumbarton.
     BennyCunningham:    Como  que eu no tenho um pnei no
                         meu quadro?
        AlisonQuentin:   Voc ficou com ele?
     BennyCunningham:    A gente se beijou quando vim pra c!
                         Meio molhado demais, mas a tcnica era
                         boa.
        AlisonQuentin:   B! Pensei que voc fosse minha amiga
                         inocente!
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                             10
     EXISTEM COISAS QUE UMA WAVERLY OWL
           NO PODE COMER PORQUE NO
                    PODE E PRONTO.
     V
              ocs fazem parte de uma longa tradio. -- A
--            voz grave e penetrante do reitor Marymount
              retumbou e estrondeou pela capela. Todo mun-
do dizia que Marymount tinha sido um grande ativista revo-
lucionrio nos anos 1970 e que ele era membro de carteirinha
do Mensa, mas Jenny achava que ele mais parecia um tcnico
da Liga Juvenil que dirigia uma minivan Dodge do que o rei-
tor de um internato de prestgio. Os cabelos grisalhos pente-
ados estavam colados na cabea suada. Atrs dele, estava
sentado o corpo docente da Waverly, todos com o uniforme
da escola: gravata marrom e azul-marinho, palet marrom,
camisa e calas brancas. Normalmente, os alunos s precisa-
vam usar o blazer marrom da Waverly com qualquer coisa que
                                                          97
quisessem por baixo, mas para a primeira reunio do ano na
capela todos tinham que vestir gravata, inclusive as meninas.
O meio-n Windsor de Jenny estava todo calombento. Ela
suspirou. O pai s tinha uma gravata, cheia de teias de aranha.
Ela nunca perguntou, mas ele provavelmente a possua desde
que ele mesmo estava no segundo ano do secundrio.
    Eles se reuniram para o discurso oficial de incio de ano
letivo do reitor Marymount antes do primeiro jantar oficial
que congregava todo o campus. A capela estava apinhada e chei-
rava a ce-c e o chul de adolescente.
    Na noite anterior, ela acordou Heath o suficiente para
deposit-lo na escada da frente do Richards, depois ela se ar-
rastou de volta ao Dumbarton, exausta. No meio da noite, ou
Brett ou Callie tinha desligado o rdio-relgio de Jenny para
usar a tomada para carregar o celular. Por sorte, os sinos da
capela a acordaram, e assim ela pde chegar aos testes de h-
quei a tempo. Toda aluna da Waverly tinha de praticar um
esporte e Jenny decidira pelo hquei, uma vez que parecia o
esporte de internato mais tradicional a jogar. Ela pretendia jogar
lacrosse na primavera pelo mesmo motivo. Jenny nem tinha
basto de hquei, mas a treinadora de cara de buldogue, Alice
Smail, encontrara um basto Cranberry sobrando para ela na
sede e Jenny logo descobriu que era uma jogadora nata em
campo.
    -- Voc tem certeza de que no jogou na sua escola? --
perguntou a treinadora Smail a ela. Como se Jenny pudesse
ter se esquecido. A meio-campo de seu time, Kenleigh, que
Jenny vira na festa da noite anterior, murmurou um "Boa jo-
gada" enquanto Jenny trotava de volta s linhas laterais. Tal-
98
vez ela at passasse para o time universitrio!
    -- Este ano, temos alguns novos membros no corpo do-
cente que gostaria de apresentar -- anunciou o reitor
Marymount. Jenny olhou o relgio. Eles j estavam ali h
quarenta minutos, cantando o hino oficial da Waverly e o hino
desportivo da Waverly, recitando a orao da Waverly a So
Francisco e aplaudindo enquanto Marymount apresentava os
monitores da escola, que eram como os presidentes de cada
turma. Jenny estava morrendo de fome.
    -- Primeiro, um ex-aluno de Waverly e recm-formado
na Universidade Brown, o Sr. Eric Dalton. O Sr. Dalton ser
o novo professor de histria do primeiro e do terceiro anos e
orientador do Comit Disciplinar. Ele tambm  o novo as-
sistente de treinador da equipe masculina de remo. Seja bem-
vindo. -- Todos aplaudiram obedientemente.
    Jenny espiou Brett, duas filas  frente, obrigada a ficar de
p e acenar para a turma porque era monitora do primeiro ano.
Jenny ficou olhando enquanto Brett cutucava a morena ao lado
dela e murmurava as palavras Ai meu Deus.
    -- Gostaria de estender calorosas boas-vindas a todos os
novos calouros e alunos... A Waverly  sua nova casa e ns
somos sua nova famlia -- continuou Marymount. -- E por
fim... Aproveitem o jantar!
    A multido explodiu em aplausos e apupos enquanto saa
da capela e atravessava o grande gramado na direo do salo
de jantar. Jenny arfou quando entrou. O salo parecia o inte-
rior de uma antiga catedral inglesa. As paredes eram revestidas
de telas clssicas datando de 1903 e tinha um monte de fotos
de Maximiliam Waverly, o fundador da escola.
                                                             99
    Os alunos zanzavam por ali, beijando-se e trocando cum-
primentos. Jenny no sabia bem o que fazer. Onde devia se
sentar?
    -- Est meio doido aqui, n?
    Jenny se virou, esperando que fosse Heath, finalmente
dando o ar da graa; mas ao lado dela estava o garoto com o
cavalete que ela vira no gramado no dia anterior ao passar com
Yvonne. Easy. Pelo menos, era o nome que ela pensava que
Yvonne havia dito.
    O cabelo dele era to castanho que era quase preto e os
olhos eram de um azul profundo. Ele vestia uma camiseta
surrada com a silhueta amarela de uma ferradura por baixo
do blazer da Waverly. Uma camiseta meio chique, vendida na
Barneys por 65 dlares, mas nele parecia decididamente des-
colada. A voz dele era grave, com um sotaque que ela no
conseguiu reconhecer.
    -- ,  meio doido -- concordou Jenny. Ela deu um pas-
so para o lado para deix-lo passar. Um caderno de desenho
Smythson of Bond Street estava pendurado em sua bolsa de
lona. Uma nica folha de papel de olhos, narizes e bocas
desenhadas estava presa na capa. -- A, est estudando retra-
tos?
    -- , estou. E voc?
    -- Ah. Humm, eu tambm. -- Silenciosamente, Jenny
tentou se recompor. Voc agora  a Nova Jenny, ela lembrou a si
mesma.
    -- Legal. -- Easy bateu a mo na de um colega que aca-
bara de passar por ele. -- Ento a gente se v. -- Ele sorriu
para Jenny.
100
    -- Ei -- chamou uma voz conhecida de trs dela. Ela se
virou e sorriu para Brandon, que estava ainda mais gracinha e
mais arrumadinho do que ontem -- como se isso fosse poss-
vel, com o blazer marrom da Waverly e gravata listrada. -- 
um jantar formal. Os lugares so marcados. Voc est na mi-
nha mesa.
    -- Ah. Obrigada. -- Jenny sorriu graciosamente e o se-
guiu pelo salo de jantar abarrotado. -- E a, humm, quanto
tempo durou a festa ontem  noite?
    -- Ah, o de sempre. -- Os olhos de Brandon voltaram-
se para o cho. -- Eu praticamente no vi voc l. Foi para
casa cedo?
    Jenny mordeu o lbio inferior.
    -- Humm, .
    Eles chegaram a uma mesa j ocupada por dois alunos: um
garoto muito alto com um piercing no nariz e uma menina
muito alta cujo rosto anguloso, largo, de olhos castanhos se-
parados e cabelo castanho basto anunciavam aos gritos a boa
famlia de que provinha.
    -- Este  Ryan Reynolds e esta  Benny Cunningham.
    -- Eu te vi na festa ontem  noite. Meu nome  Jenny. --
Ela sorriu para Benny.
    --  verdade -- Benny assentiu, lanando um olhar ma-
licioso para Ryan.
    Jenny tirou o quente casaco de l da Waverly e o colocou
na cadeira.
    -- No pode fazer isso -- sibilou Benny. -- Os profes-
sores vo pirar.
    -- Ah. -- Jenny rapidamente vestiu o casaco de novo. Ela
                                                         101
olhou a sala; a maioria dos alunos estava sentada a suas mesas
vestida no blazer.
     -- Procurando por Heath? -- soltou Benny. Ryan lhe deu
um cutuco.
     -- Ah. -- Jenny sacudiu o guardanapo marrom, esperan-
do que seu rosto no estivesse da mesma cor. -- . Ele esta-
va... ele estava meio... cansado ontem  noite. Tive que ajud-lo
a ir para casa.
     -- Voc quer dizer doido -- Ryan riu. -- Alis, Brandon,
est psicologicamente preparado para o Sbado Negro? --
perguntou ele, furando a antiga mesa de madeira com a faca.
     -- O que  o Sbado Negro? -- perguntou Jenny, curio-
sa.
     -- No fique muito animada -- Brandon riu. --  quan-
do todas as equipes esportivas do St. Lucius vm  Waverly e
fazemos uma batalha campal. Os times levam isso muito a
srio, porque a gente tem que odiar demais o St. Lucius. 
outra tradio. Est jogando hquei, no ?
     -- . -- Jenny sorriu. Ela nunca havia participado de um
time antes. -- Os testes foram hoje.
     -- Bom, o time feminino de hquei joga junto com os
times de futebol comum e de futebol americano. Mas a, quan-
do acaba, a galera das duas escolas comemora como astros do
rock em um local secreto que s  revelado no dia.
     -- O Heath costuma dar a festa -- disse Benny, fechan-
do novamente a pulseira Tiffany de prata no pulso. -- Mas
talvez ele j tenha te dito isso.
     Garons com camisas brancas engomadas e calas de pre-
ga de flanela cinza baixaram travessas grandes e brancas carre-
102
gadas de salmo grelhado marinado em wasabi. Isto era bem
melhor do que a lasanha experimental de cordeiro-e-abacaxi
flambada na vodca do pai.
    -- Ai, meu Deus. O cheiro  delicioso. -- Jenny pegou o
garfo e tirou um pedao enorme. -- Hummm!
    -- Cara, voc est comendo o salmo?
    Um menino ps os cotovelos na mesa ao lado da dela.
Heath. At que enfim.
    -- Oi. -- Ela cobriu a boca cheia com a mo.
    -- Ningum come o salmo -- zombou Heath. No
havia o menor sinal da energia amorosa de voc--uma-deu-
sa-do-sexo que ele demonstrou na noite anterior.
    Os olhos de Jenny se arregalaram. Ela olhou os pratos dos
outros e, sem nenhuma dvida, ningum mais na mesa toca-
ra no peixe.
    -- Por qu? Tem alguma coisa errada com ele?
    Brandon virou-se para ela.
    -- No... Ele  timo. As pessoas s... no comem. No
sei por qu. , tipo assim, um troo a.
    -- Jenny? -- Algum lhe deu um tapinha nas costas. Ela
se virou e viu Yvonne, a menina que a acompanhara at o
Dumbarton na vspera. Fivelas em formato de borboleta fei-
tas de tartaruga prendiam mechas do cabelo louro escorrido
nas costas, e seus olhos azuis-claros estavam to parvos e ma-
lucos quanto ontem. -- Posso falar com voc? -- Yvonne
olhou nervosa para os outros na mesa. -- No corredor?
    Ryan e Benny trocaram outro olhar malicioso. Jenny deu
de ombros e colocou o guardanapo no peixe. A Nova Jenny
no se deixa perturbar com facilidade, disse ela a si mesma. Ento,
                                                               103
e da que ningum comesse peixe? A Nova Jenny fazia o que
queria!
    Yvonne levou Jenny at a entrada da frente do salo de
jantar.
    -- Espero que no seja sobre o grupo de jazz -- declarou
Jenny de cara. -- Porque eu meio que no estou nada interes-
sada. Sou basicamente surda para msica.
    -- No, no  isso. Eu, humm, ouvi umas coisas sobre
voc e achei que voc devia saber.
    -- Hein? -- Jenny prendeu a respirao. Ela j ouvira
antes o discurso achei-que-voc-devia-saber e quase sempre
se tratava do que ela no queria saber.
    -- Todo mundo est trocando torpedos sobre voc.
    -- Como ? -- Jenny disse rapidamente.
    Yvonne respirou fundo.
    -- Esto dizendo que voc era stripper e tirava as roupas
por, tipo assim, um dlar. E que voc  tipo uma lenda do sexo
em Nova York. E, er, que voc j dormiu com algum daqui
da Waverly.
    -- Como ?! -- guinchou Jenny. De repente o corredor
parecia escuro e cheio de brumas. -- Com quem?! Quer di-
zer, quem disse isso?
    Yvonne olhou para baixo.
    -- O menino que estava na sua mesa. Heath Ferro. No
sei se voc j o conhece, mas ele...
    Jenny viu uma nvoa vermelha diante dos olhos. Heath.
    -- No acredito nisso.
    -- Eu  que no acredito nisso -- protestou Yvonne, agi-
tando a mo em crculo.
104
    -- Obrigada -- gritou Jenny.
    -- Agora eu tenho que ir. Desculpe. -- Yvonne se virou
e disparou porta afora.
    Jenny se recostou na parede, sentindo-se tonta e desori-
entada. Heath. Todo seu corpo tremia de pavor e raiva. Ser
que Heath arruinara sua carreira no internato antes mesmo
que ela comeasse?
    Brandon apareceu na porta em arco, a testa franzida de
preocupao.
    -- Voc est bem?
    -- Tenho que... -- Jenny girou antes de poder terminar a
frase, voando do salo de jantar. Ela disparou pelo gramado
verde e mido, querendo poder alar vo como um daqueles
corujes gordos. Os prdios antigos da Waverly assomavam
dos dois lados, as janelas iluminadas. O pedao de salmo se
rebelou em seu estmago e Jenny reduziu o passo. Ela queria
vir para o internato para comear do zero, tornar-se a garota
que sempre quis ser, ser uma verso nova e incrvel de si
mesma. Mas isso seria muito mais difcil do que ela pensava.
                                                         105
          OwlNet               Caixa de Mensagem Instantnea
        EasyWalsh:    Estou aqui fora. V se t tudo limpo.
      CallieVernon:   Pera.
      CallieVernon:   OK, acabo de colocar a orelha na porta da
                      Angelica e ouvi a TV. Alta. Parece bom.
        EasyWalsh:    Legal. Te vejo daqui a pouco.
106
                              11
        UMA BOA MANEIRA DE CONHECER UM
       WAVERLY OWL: DESCUBRA DE QUE COR
           A CUECA SAMBA-CANO DELE.
     V
               oc est fedendo.
--             Jenny acordou sobressaltada. Onde ela estava?
               Ah, sim. Na Waverly. No quarto dela.
    -- Eu falei a srio, voc est fedendo mesmo. Andou be-
bendo? -- sussurrou algum.
    Ser que Callie estava falando com ela dormindo? Jenny a
ouvira entrar; felizmente, foi logo depois de ela parar de cho-
rar no travesseiro. Ela tirou a roupa no escuro, disse "boa noi-
te" e se aninhou debaixo das cobertas.
    -- Eu no estou bbado -- disse outra voz arrastada. Uma
voz de homem.
    -- Bom, voc est fedendo a vodca. Eca.
    -- Adoro quando voc diz que estou fedendo -- disse o
                                                            107
cara.
     -- Shhh. A Pardee vai ouvir.
     Jenny se encolheu ainda mais debaixo do cobertor. A voz
parecia um tanto conhecida. E quem quer que fosse estava
mesmo fedendo -- Jenny podia sentir um cheiro vagamente
alcolico, embora as janelas estivessem escancaradas e a brisa
fria da noite entrasse no quarto.
     -- Bom, seria legal, Easy, se voc no fedesse, porque en-
to eu no teria que sentir esse gosto na sua boca.
     Easy?
     O estmago de Jenny desabou. Quantos Easys existiam
nessa escola?
     -- Tem certeza de que no tem ningum aqui? -- per-
guntou ele.
     -- Est vendo algum aqui? -- sibilou Callie.
     Jenny ficou enrolada feito uma bola. Callie a havia visto
ali. At desejou boa-noite a ela! Jenny queria deix-los a ss,
mas se levantar e fazer barulho agora seria muito deselegante.
E se Easy a visse? Jenny tinha certeza de que a quedinha que
tinha por ele brilharia nela, como se sua cara fosse um colete
fluorescente do campo de hquei. E pensar que ela de cara
ficara a fim do namorado da colega de quarto! A Velha Jenny
ataca novamente.
     Seus olhos se adaptaram ao escuro e ela espiou de sob o
cobertor. A cama de Callie ficava a menos de 1,50 metro.
Houve um lampejo de pele nua  luz da lua.
     -- Camisinha -- Jenny ouviu Callie cochichar.
     Uma pausa. Depois a voz de Easy.
     -- Srio? Onde?
108
    -- Gaveta de cima.
    Jenny ouviu um remexer no escuro. Depois uma luta e
cobertas, e tump! Easy estava com metade do corpo no cho.
Ele tentou manter o equilbrio, mas segurou na mesa de ca-
beceira e terminou arrastando a mesinha com ele. Fez um
barulho terrvel. Uma caixa de camisinhas Lifestyle Extra
Lubrificada cuspiu para fora, junto com um vidro grande de
loo hidratante para pele seca Lubriderm e um pacote de
canetas Bic escrita fina.
    Jenny se levantou da cama, encarando o corpo nu e espar-
ramado de Easy.
    -- E a -- grunhiu Easy, sorrindo para ela. -- Eu conhe-
o voc.
    -- Ih! -- Jenny se enfiou de volta ao cobertor.
    -- Callie, voc disse que no tinha ningum aqui -- sus-
surrou Easy meio alto.
    Callie chutou o colcho, com raiva.
    -- Isso  ridculo -- suspirou ela e saiu da cama. Jenny
espiou de sob o cobertor e viu a silhueta do corpo pequeno de
Callie. Ela estava com suti rosa com um jacar da Lacoste
bordado na ala. Onde estava a Brett, alis? Callie olhou para
o amontoado que era Jenny debaixo do cobertor.
    -- Desculpa, Jenny. -- Ela deu de ombros, depois foi at
Easy, pisando na mo dele ao seguir para a porta.
    -- Aaai! -- ele gritou de dor. -- Aonde voc vai?
    -- Ao banheiro. -- Callie deixou a porta aberta e o quar-
to se encheu da luz fluorescente do corredor. Jenny se enter-
rou mais fundo debaixo das cobertas, mortificada. Ela est nos
deixando sozinhos?, perguntou-se, apavorada.
                                                          109
    Ela ouviu Easy se sentar, estalar o pescoo, depois fungar.
    -- E a, Jenny  a forma abreviada de Jennifer?
    -- Bom,  -- resmungou Jenny, ainda aninhada nas co-
bertas.
    -- No queria te deixar desconfortvel, Jenny -- conti-
nuou ele.
    -- No tem problema -- murmurou ela no travesseiro.
Tinha cheiro de terra e calor, como a casa dela no Upper West
Side. Ela ficou feliz por t-lo trazido, mas de repente provo-
cou tanta saudade de casa que ela quase explodiu em lgrimas.
    -- Pode parar de se esconder. Eu estou vestido.
    Jenny espiou com um olho por cima do cobertor. Easy
tinha vestido a cueca, mas era s. A barriga dele era lisa e
musculosa. E a cueca samba-cano tinha um padro de ve-
leiro que a lembrou do catlogo da J. Crew. Ela fechou os
olhos.
    Estava sufocante de quente debaixo das cobertas. Ela se
sentou um pouco, esperando que Callie voltasse a qualquer
momento e levasse Easy para algum lugar para que ele no
tivesse tempo de ver os olhos inchados e o cabelo amarfanhado
de Jenny. Ela nem podia imaginar como estaria sua aparncia
agora, em especial se comparada  de Callie.
    Mas ao que parecia, Easy no se importou. Ele saiu do cho
e se sentou na beira da cama de Jenny. Se ela no estivesse
totalmente aturdida, podia ter dado espao para ele. Mas ela
ficou imvel. Ele estava apertado junto dela.
    -- Eu estava me perguntando quando  que a gente ia se
conhecer direito -- murmurou ele to baixinho que Jenny mal
conseguiu ouvir.
110
    -- O qu? -- perguntou Jenny, embora tivesse ouvido
muito bem.
    -- Nada. -- Easy olhou para cima. -- Ah. As Sete Irms.
    -- Qu?
    -- A constelao. -- Easy apontou para as estrelas de
Starfix velho que algum tinha colado no teto anos antes. --
Mas a olho nu s seis estrelas so visveis.
    -- Ah. -- Jenny no sabia como responder, no s ao que
Easy acabara de dizer, mas a esta situao e ponto final. Seu gato
dos sonhos estava sentado na cama dela. A Velha Jenny ficou
totalmente apavorada. A Nova Jenny estava praticamente vi-
brando. Misturadas, as duas Jennys ficaram imveis e de ln-
gua colada.
    Ela olhou o contorno dos ps compridos e atlticos de Easy.
O segundo dedo de cada p era mais comprido do que o pri-
meiro. Isso era um sinal de novo? Pera. O que  isso? Era a
mo dele nas costas dela?
    T legal. Estava tudo errado. Onde estava a Callie, afinal?
Isso era muito errado. Jenny sabia que devia afugent-lo. Mas
ela simplesmente... no conseguia.
    -- Er, voc entende muito de constelaes? -- pergun-
tou ela.
    Easy movia a mo lentamente, o polegar passando na base
da coluna de Jenny. Errado, errado, errado!
    -- No h muito mais a se fazer em Lexington  noite.
-- Ele suspirou. -- A no ser que voc que iria subir na caixa
d'gua ou atirar bosta nos trilhos do trem.
    -- Eu sou de Nova York -- sussurrou Jenny, mordendo
uma mecha do cabelo para evitar que os dentes batessem de
                                                              111
nervosismo. -- Mas voc j deve saber disso.
    -- Hein?
    -- Voc deve saber -- ela se mexeu, o rosto ficando quen-
te. Era apavorante pensar que ele j ouvira coisas, coisas vul-
gares, a respeito dela.
    -- Nada. No sei de nada. Voc  famosa?
    -- Eu... -- Ela deu um pigarro. Como Yvonne podia sa-
ber das fofocas sobre ela e esse cara lindo, no? -- No. Acho
que no.
    -- Bom, isso  pssimo. -- Easy sorriu. -- E eu aqui pen-
sando que estava na presena de uma celebridade.
    Jenny sentiu a mo dele nas costas dela de novo. Estava
quente atravs do lenol.
    -- Meu Deus!
    Jenny e Easy se viraram rapidamente. O Sr. Pardee. O
marido da diretora do alojamento, que por acaso tambm era
o professor de francs mais babaca da Waverly, tinha aberto a
porta completamente. Jenny viu um bilhete rabiscado em seu
quadro branco: Fui estudar no quarto da Benny -- Brett. O Sr.
Pardee estava vestido no moletom com capuz do futebol da
Waverly e uma cala de pijama vermelha quadriculada. O ca-
belo castanho meio desgrenhado estava eriado em calombos
de gel e o pequeno brinco de prata brilhava na luz implacvel
do corredor.
    Easy rapidamente pulou da cama de Jenny, vestiu os jeans
e pegou a camisa.
    -- Cara. -- Ele foi direto ao Sr. Pardee. -- Eu no estive
aqui.
    -- Voc no esteve... Como ? -- disse o Sr. Pardee, pis-
112
cando furiosamente.
     -- Voc no me viu.
     -- Easy, eu estou te vendo. -- Pardee parecia que estava
tentando se convencer. -- Voc j usou essa fala comigo an-
tes.
     -- No -- respondeu Easy. -- Eu no estive aqui. -- E
disparou para o corredor.
     -- Espere... Aonde est indo? -- gritou o Sr. Pardee. Mas
era tarde demais. Ele sacudiu a cabea e se virou para Jenny.
Sem saber exatamente o que fazer, ela no se mexera. O Sr.
Pardee podia ser o marido da diretora do alojamento, mas
Jenny ouvira dizer que tambm era um drogado total. Supos-
tamente, ele s se formou nas provas de francs depois de
fumar um ou dois baseados.
     Quem sabe ele no est chapado demais agora at para
saber o que est acontecendo?
     -- Isso no foi legal. -- O Sr. Pardee arrotou um pouco.
-- Os meninos s tm permisso para vir a este alojamento
no horrio de visita.
     -- Eu sei, mas... -- gaguejou Jenny.
     -- Cara. -- O Sr. Pardee estava encarando as camisinhas
no cho. Ningum se incomodara em peg-las ainda. -- Isso
no parece bom.
     -- O que est acontecendo? -- Callie estava parada na
porta, bem atrs dele.
     -- Vou ter que reportar isso -- anunciou o professor atra-
vs de um bocejo de chapado. -- Quer dizer, a Angelica ter
que...
     -- No, espera! -- pediu Jenny. Ela no podia se meter
                                                           113
em problemas no primeiro dia de aula.
    -- Oi-! -- repetiu Callie. -- O que est acontecendo?
-- Jenny percebeu que o Sr. Pardee olhava o pedao de pele
entre o short de cintura baixa American Apparel de Callie e a
camisetinha amarrotada Only Hearts. O jacar no suti espi-
ava por seus buraquinhos.
    -- Easy estava aqui -- declarou ele categoricamente.
    -- Easy?! -- Callie respondeu num tom de voz chocado,
como se o Sr. Pardee tivesse dito eu vi uns macacos tomando cer-
veja!
    -- Onde voc estava? -- perguntou Pardee.
    Callie fez uma carranca e revirou os olhos.
    -- Eu estava na biblioteca. Acabei de voltar.
    Jenny a encarou, incrdula. Pardee pareceu aceitar essa
histria, embora fosse o meio da noite e Callie estivesse pra-
ticamente nua, sem sapatos e no tinha mochila nem livro
nenhum com ela.
    -- Ento o que Easy estava fazendo aqui? -- Callie olhou
para Jenny como se dissesse, Nem pense em foder com tudo.
    O Sr. Pardee ergueu uma sobrancelha.
    -- E ento?
    Uma expresso de suspeita e mgoa toldou a cara de Callie.
Foi uma atuao digna de um Oscar.
    -- Estava acontecendo... alguma coisa?
    O Sr. Pardee arrastou os ps.
    -- Eles estavam na cama juntos.
    -- Mas no estvamos fazendo nada! -- defendeu-se Jenny.
    -- Ento por que parece que uma caixa de camisinhas
tamanho jumbo explodiu por aqui? -- quis saber o Sr. Pardee.
114
    Callie revirou os olhos.
    -- No acredito nisso. Sua vagabunda! -- gritou ela para
Jenny, puxando a camiseta, de frustrao, para expor a barri-
ga. O Sr. Pardee encarou faminto a barriga tonificada pelo
hquei. Callie balanou as sobrancelhas para Jenny. Continua,
murmurou ela.
    Os olhos de Jenny se arregalaram. Ela no ia deixar que
Callie pusesse a culpa nela por isso!
    -- Sr. Pardee, isso  um grande mal-entendido -- alegou
Jenny, sem se importar que sua voz estivesse virando um re-
lincho. -- Eu realmente no estava fazendo nada!
    Mas o Sr. Pardee deu de ombros.
    -- Vamos descobrir isso no CD.
    -- O qu? -- disse Jenny.
    -- Comit Disciplinar, sua puta -- cuspiu Callie.
    -- Callie, chega! -- exigiu o Sr. Pardee. -- Jenny, sabe
quem  seu orientador?
    -- , humm, o Sr. Dalton? -- Pelo menos era o que dizia
a carta de boas-vindas  Waverly que fora mandada ao senhor
Jennifer Humphrey.
    -- Muito bem. Ele  novo. Tudo bem. Vou relatar  sala
do Sr. Dalton no Stansfield Hall s nove da manh. No te-
nho certeza de que sala ele ocupa, mas vou ver o mapa no
primeiro andar. Ele vai avaliar sua situao antes que chegue
ao CD. -- Ele mexeu no brinco. -- Entendeu? timo. Agora
tenho que encontrar o Easy...
    Quando teve certeza de que ele foi embora, Callie fechou
a porta e soltou um suspiro enorme.
    -- Ai, meu Deus. Foi por pouco.
                                                         115
    -- Puta? -- A voz de Jenny tremia.
    -- Desculpe por isso -- suspirou Callie, sentando-se na
cama e encarando Jenny com os enormes olhos castanhos. --
Eu precisava ter certeza de que o Sr. Pardee acreditava que eu
estava irritada...
    -- Bom, ele acreditou em tudo mesmo.
    Callie deu de ombros.
    -- No  grande coisa.
    Jenny esfregou a cara.
    -- No  grande coisa? Vou ter que aparecer perante... um
comit! O que est rolando aqui, afinal?
    Callie se curvou e pegou um dos pacotes de camisinha.
    -- Voc  nova,  mulher e eu soube que  inteligente.
Eles vo pegar leve com voc. -- Ela esfregou o pacote qua-
drado entre os dedos. -- Talvez voc possa usar suas ligaes
com os Raves.
    -- Do que voc est falando? -- Ser que Callie estava
sendo sarcstica? Jenny nunca contou nada a Callie sobre os
Raves. E o que o Comit Disciplinar ia fazer com ela? Colo-
ca-la para catar lixo no Hudson de snorkel? E se isso fosse para
seu histrico?
    -- Olha aqui -- comeou Callie. -- A Brett  do comit.
Ela vai tratar de livrar a sua cara. Se eu fosse pega com o Easy,
eles iam me expulsar. Eu j fui flagrada fazendo umas coisas
aqui.
    -- Ah, sim? -- disse Jenny, curiosa.
    -- , eu j tive, tipo assim, duas advertncias. Na tercei-
ra, voc est fora.
    -- Ah. -- Jenny se sentiu meio aliviada. Ento essa era
116
sua primeira advertncia. No era assim to ruim.
    -- Ia ser uma droga de verdade se eu fosse expulsa. -- Callie
abriu o pacote de camisinha com a unha. -- Meus pais me
mandariam para uma escola pblica em Atlanta. A galera
contrabandeia armas e latas de Miller Lite pelos detectores de
metal de l. E todo mundo s fala na NASCAR. At as meni-
nas! -- Ela olhou para Jenny. -- D para me imaginar na
NASCAR?
    Callie era linda demais para ir para uma escola pblica.
Depois Jenny se conteve, lembrando-se de que no devia fi-
car toda puxa-saco com uma garota mais velha, como a Velha
Jenny ficava com Serena van der Woodsen na Constance. Ela
fechou os olhos e se obrigou a parar. Nova Jenny, Nova Jenny,
Nova Jenny.
    Callie tirou a camisinha amarela e inseriu o indicador na
abertura.
    -- Preciso atravessar esse ano sem ser pega.
    Jenny suspirou, resignada. Ela adorava tudo na Waverly --
o ar silvestre, os prdios de tijolinhos no estilo Nova Inglater-
ra, que os professores usassem blazer na aula e em geral tives-
sem o ttulo de doutorado, at o salmo wasabi suculento que
todo mundo evitou. Ela queria remar no rio, conhecer meni-
nos de outras escolas preparatrias e voltar a Manhattan triun-
fante, porque ela agora era uma aluna de internato. Ela no
queria ferrar com tudo j de sada, e no entanto aqui estava ela
de novo, a mais falada garota do campus e j metida em encrenca
antes que as aulas sequer tivessem comeado.
    Callie girou a camisinha no dedo.
    -- Vai ficar tudo bem -- garantiu ela a Jenny. --  srio.
                                                             117
Eles vo te mandar para o estudo restrito. Ou proibir as visi-
tas. Mas a Brett  do CD. -- Ela sorriu com doura como se
dissesse: Eu vou ser sua melhor amiga para todo o sempre se voc me
ajudar a sair dessa.
     -- No sei no. -- Jenny cruzou as mos no colo. Da
mesma forma que queria ser amiga de Callie, ela no queria
ter problemas. -- Vou ter que pensar no assunto.
     -- Eu entendo totalmente! Leve o tempo que quiser!
Pense nisso! Mas voc no vai ter problemas. No  nada, re-
almente no  grande coisa.
     -- , mas... -- Jenny mordeu o lbio. -- No sei...
     Callie saiu da cama, disparou para o closet e abriu a porta.
     -- E olha aqui... Para sua reunio com o orientador ama-
nh, voc vai precisar ficar o mais profissional possvel. Quer
alguma coisa minha emprestada?  srio. Qualquer coisa. --
Ela passou a mo pelo trilho de lindas roupas de grife perfei-
tamente bem-passadas.
     --  mesmo? -- Jenny se levantou e olhou o closet de
Callie com ela. O peso da situao aos poucos comeava a
ceder. Ser que Callie teria lhe oferecido alguma coisa de seu
armrio antes que o Sr. Pardee pegasse Easy no quarto? De
jeito nenhum. Jenny sentiu um afluxo estranho e arrojado de
poder, um jorro to forte que meio que a assustou.
     --  srio. O que eu puder fazer. Esse ano vai ser o me-
lhor de sua vida -- disse Callie entusiasmada.
     Jenny pegou um vestido preto e macio DKNY do cabide
de cetim branco e o segurou diante do corpo. O melhor ano
da vida dela? Ela podia mesmo ter um ano assim...
118
      OwlNet              Caixa de Mensagem Instantnea
  HeathFerro:    E a, eles transaram mesmo?? Deu pra vc ouvir
                 pela parede?
 EmilyJenkins:   Estava to ALTO que tive que colocar minha
                 sound machine com rudo de trnsito para
                 bloquear o barulho!
  HeathFerro:    Eles estavam batendo na parede?
 EmilyJenkins:   Total. No dormi nada.
  HeathFerro:    Legal.
      OwlNet              Caixa de Mensagem Instantnea
  SageFrancis:   Vc sabia que umas calouras esto desenhando
                 pneis nos quadros de aviso? Elas nem
                 conhecem H. S acham que  legal fazer isso!
AlisonQuentin:   H est ficando sem opes... Deve passar para
                 as calouras da prxima vez...
                                                                 119
                               12
             UMA BOA WAVERLY OWL OLHA
              OS SUPERIORES NOS OLHOS.
N
            a manh seguinte, Jenny estava perto dos arm-
            rios, olhando o quarto silencioso e banhado de sol.
            Era apenas quinta-feira, o primeiro dia de aula, mas
o quarto j parecia usado h muito: livros e papel por toda parte,
roupas empilhadas pelo cho, maquiagem, vidros de xampu e
de esmalte espalhados em cima das mesas ao lado de monitores
de tela plana, pilhas de cadernos e livros didticos, pacotes fe-
chados de marcadores luminosos e uma grande planta osci-
lando no peitoril estreito da janela. Jenny tinha chegado h
quase dois dias, mas ainda no sentia que estava no quarto dela,
uma vez que mal teve um momento a ss nele. A cama de
Brett estava vazia -- ela entrou de mansinho depois de toda a
comoo da noite passada e deve ter acordado cedo. Havia uma
marca no colcho onde seu corpo estivera. Callie ainda dor-
                                                              121
mia profundamente, enroscada em posio fetal.
    Jenny passou a mo em uma pilha de cardigs de cashmere
macios de Callie. Todas as roupas de Callie eram lindas, mas
nesta manh Jenny se sentia estranha para pegar alguma em-
prestada. Em vez disso, ela vestiu a prpria saia cqui brilhan-
te Banana-Republic-mas-que-parecia-Theory, a nica blusa
Thomas Pink e sapatilhas de bal rosa-beb Cynthia Rowley.
Ela ps o blazer da Waverly e avaliou o visual. Definitivamen-
te Inocente.
    Jenny foi para o corredor na ponta dos ps e fechou a por-
ta do quarto depois de sair. Ao lado do recado de Brett sobre
estudar no quarto de Benny, algum tinha escrito SALVE A
TINSLEY! em grandes caracteres magenta no quadro de avi-
sos pendurado na porta. Tambm havia um desenho do que
parecia um pnei pequeno no canto inferior. Andando pelo
corredor, ela percebeu que alguns quadros de outras meninas
tambm tinham o desenho do pnei pequeno. O internato
estava se revelando uma pintura de Chagall -- cheio de brin-
cadeiras, jogos mentais e mistrios.
    Jenny seguiu pelos antigos caminhos de paraleleppedo que
serpenteavam pelo campus da Waverly em direo ao Stansfield
Hall, uma enorme estrutura de tijolos aparentes que abrigava
os escritrios da administrao e algumas salas de aula. Pou-
cos alunos j estavam acordados, mas a turma de manuteno
cuidava do campo de futebol e dos jardins. O ar tinha cheiro
de grama recm-aparada.
    Dentro do Stansfield Hall, havia intrincados frisos de ges-
so representando videiras trepadeiras e flores nas paredes, vi-
trais na escada e gravuras nos corrimes de madeira. Jenny
122
subiu a escada para o terceiro andar e foi at o final de um
corredor imponente com piso de mogno. Uma placa de bron-
ze na porta fechada da sala dizia ERIC DALTON. L dentro,
Jenny ouviu risos e deu um passo para trs.
    -- J ouvi essa antes -- ela ouviu uma voz de mulher di-
zer. -- Todo professor de ingls desde a quarta srie me disse
que eu tenho o mesmo nome da mulher de O sol tambm se
levanta.
    -- Lady Brett Ashley -- disse a voz de homem. -- Ela
era uma encrenqueira.
    -- Bom, ento  do nome -- Jenny ouviu Brett respon-
der numa voz de quem estava paquerando.
    -- Mas, humm, olha, temos que conversar com aquela
aluna, ento no vamos conseguir tratar de algumas coisas da
administrao que eu queria discutir. Est livre para almoar
hoje? Podemos lidar com isso depois.
    -- Acho que sim -- respondeu Brett. -- Eu te encontro
aqui?
    Jenny bateu na porta. Ela ouviu um remexer de papis e o
bater de copos.
    -- Entre -- gritou o Sr. Dalton. Jenny entrou na sala, que
estava abarrotada e uma baguna. Brett estava sentada na bei-
ra de um sof de couro marrom, as mos cruzadas no colo,
parecendo empertigada e inocente demais.
    O Sr. Dalton se sentou em sua cadeira  mesa e mexeu
nuns papis.
    -- Jenny, no ? Sente-se, por favor. -- Ele fez um sinal
para o sof. Jenny se sentou o mais distante que pde de Brett.
-- Esta  a Brett -- continuou ele. -- Ela  do Comit Disci-
                                                           123
plinar e est me ajudando com umas coisas da administrao.
    -- , ela  minha...
    Brett se virou para o Sr. Dalton.
    -- A Jenny e eu j nos conhecemos. Ns duas moramos
no Dumbarton.
    , no mesmo quarto. Jenny se perguntou por que Brett no
disse que elas eram colegas de quarto.
    Dalton sorriu.
    -- Ah, bom, ento tudo bem. Brett est me ajudando aqui
com alguma questes do CD e, como membro do CD, est
ajudando a cuidar deste caso. -- Ele deu um pigarro. -- En-
to, Jenny, eu sou seu orientador e tambm estou reunindo
informaes gerais sobre o caso CD, ento vamos matar dois
coelhos numa cajadada s. -- Ele folheou mais alguns docu-
mentos como se pudesse absorver o que estava escrito sem
sequer l-los.
    Jenny percebeu que Brett no estava usando o blazer da
Waverly, mas um lindo top de seda berinjela e uma saia de l
preta na altura dos joelhos. Em seus ps havia sandlias Marc
Jacobs de tira. As pernas compridas e magras estavam cruza-
das sensualmente e voltadas para o Sr. Dalton.
    O Sr. Dalton se empoleirou no canto da mesa com um
bloco tamanho ofcio na mo.
    -- Tudo bem, ento, o que aconteceu ontem  noite?
Soubemos que voc estava no seu quarto com um rapaz cha-
mado Easy Walsh. O Sr. Pardee disse que vocs estavam dei-
tados na cama juntos.  isso?
    -- Bom, o caso  o seguinte -- respondeu Jenny com
humildade. Ela ficou acordada a noite toda pesando qual seria
124
a melhor opo: confirmar a suspeita dos alunos da Waverly
de que ela era uma tremenda puta ou fazer inimizade com a
colega de quarto. -- Eu no... Eu no acho que esteja pronta
para contar o que aconteceu ao senhor.
    O Sr. Dalton ergueu uma sobrancelha.
    -- Oh?
    -- Quer dizer, eu tenho que fazer uma declarao bem
agora? Ou posso esperar at que, sabe como , tenha uma
audincia de verdade? Porque no estou preparada para falar
agora.
    -- Bom, tecnicamente, voc no precisa me contar nada
-- admitiu o Sr. Dalton, a caneta postada acima do bloco. --
Mas, como seu orientador, gostaria de sentir que voc pode falar
comigo.
    -- Eu no estou preparada. Eu...
    -- O que quer dizer com no estar preparada? -- inter-
rompeu Brett, descruzando as pernas e olhando para Jenny.
Seu cabelo parecia ainda mais vermelho quando ela ficava com
raiva.
    Jenny fechou a boca com fora e deu de ombros. Estava
com medo de falar.
    Brett examinou Jenny criticamente. A blusa listrada de rosa
e branco era apertada demais no peito e seu rosto estava todo
rosado, como se tivesse atravessado o campo correndo.
    Brett tinha chegado tarde na noite anterior, depois do flagra
do Sr. Pardee, mas Eric a colocou a par quando ela chegou 
sala dele de manh -- no que Brett realmente acreditasse na
verso de Pardee. Era totalmente idiota da parte de Jenny no
dizer alguma coisa para tirar Easy e ela de problemas. Coitada
                                                             125
da Jenny. Ela era a escada perfeita para Callie. Meu Deus, a
Callie era uma cretina.
    Jenny percebeu Brett examinando-a como se ela fosse um
espcime biolgico em uma lmina de vidro. Ela sentiu o rosto
arder. Eu sou a Nova Jenny, eu sou a Nova Jenny, eu sou a Nova
Jenny, repetiu ela para si mesma, enchendo-se de coragem.
    -- Bom. -- O Sr. Dalton esfregou as mos. -- Acho que
se voc no quer dizer nada agora, certamente no precisa. Mas
ser que h outra pessoa no corpo docente com quem voc se
sinta mais  vontade para falar?
    Jenny deu de ombros novamente, impotente. Hoje era o
primeiro dia de aula. Ela ainda no tinha conhecido os pro-
fessores.
    -- Ento, tudo bem -- continuou o Sr. Dalton. -- Obri-
gada por vir aqui, Jenny. Acho que vamos ter um julgamento
na semana que vem. Que tal na segunda?
    -- Sim, est timo -- respondeu ela num tom neutro. --
Humm, obrigada. -- Ela olhou para Brett ao sair da sala do
Sr. Dalton, esperando um sorriso de estmulo, mas Brett es-
tava examinando as pontas do cabelo vermelho-bombeiro,
parecendo totalmente entediada.
    Jenny fechou a pesada porta de carvalho depois de sair,
perguntando-se se foi realmente uma idiotice dizer que no
estava preparada para declarar nada. O que era isso, Law &
Order: Colgio Interno?
    De repente, ela estava cara a cara com Easy Walsh, parado
do lado de fora da sala do Sr. Dalton, esperando para entrar.
Assim que seus olhos se cruzaram, o corao dela comeou a
disparar.
126
    Ela ficou to absorta com a possibilidade de ter problemas
e possivelmente ser considerada a maior puta da Waverly que
tinha empurrado para o fundo da mente a pequena sesso n-
tima de afagos dos dois. Agora ela se lembrava da agradvel
sensao de calor do corpo de Easy ao lado do dela.
    -- Oi. -- ela engoliu em seco rapidamente.
    -- Hein? -- Easy olhou para ela inexpressivamente, os
olhos azuis cados e parecendo cansados. Ele vestia uma ca-
miseta amarela esfarrapada que dizia LEXINGTON ALL-
STARS. -- Ah! -- Ele arregalou os olhos.
    -- Humm, como vai? -- insistiu Jenny timidamente.
    -- Eu... -- ele oscilou para a esquerda, os olhos ainda ar-
regalados. Um forte cheiro de vodca saa dos poros dele. --
Eu... Voc estava a dentro?
    -- Estava. -- Jenny ficou tonta s de respirar o mesmo ar
de Easy.
    Ele ia comear a dizer alguma coisa, mas a porta se abriu e
o Sr. Dalton colocou a cabea para fora.
    -- Sr. Walsh,  sua vez.
    Sem se despedir, Easy cambaleou para dentro da sala. Jenny
se virou e desceu a escada, entrando na forte luz do sol. Em
um galho de rvore baixo bem no caminho estava um daque-
les corujes. Seria o mesmo que tinha tentado mat-la s h
dois dias? Ela semicerrou os olhos.
    A coruja finalmente piscou lentamente para ela, como se
estivesse chapada, depois olhou para o outro lado.
    Jenny passou por ela correndo a caminho da primeira aula.
Era o primeiro e possivelmente nico momento de triunfo
do dia. Ela deu uma encarada na coruja e venceu.
                                                           127
                              13
        EM POCAS DE AFLIO EMOCIONAL,
           UMA WAVERLY OWL DEVE OUVIR
                 SUA CORUJA INTERIOR.
     F
             ico feliz em ver voc aqui -- Dalton recebeu Easy.
--          O porre de Ketel One da noite anterior dei
            xou Easy se sentindo como a gosma que ele tirou
dos ps de Credo antes de uma corrida. Ele se jogou numa
cadeira de escritrio de couro preto e olhou sem expresso a
colega de quarto de Callie, Brett, que estava sentada na frente
dele com uma blusa roxa totalmente transparente. O novo
orientador parecia ter uns 18 anos, uma mudana bem-vinda
com relao a seu antigo orientador, o Sr. Kelley, que era to
velho que mal conseguia se lembrar do prprio nome e tinha
finalmente se aposentado no ltimo ano com uns cem anos
de idade.
    -- Oi, Easy -- Brett o cumprimentou com um tom de
                                                           129
autoridade exagerado, tomando algumas notas em um bloco
amarelo. -- Teve um bom vero?
    -- Arr -- resmungou Easy, encarando o teto. Brett po-
dia pensar que ela era a Srta. Eu-tenho-poder-sobre-voc-
porque-sou-perfeita, mas Easy no ia cair nessa. Antigamente,
ele e Brett eram prximos. Eles foram da mesma turma de
francs no primeiro ano em Waverly e, para a apresentao
final, em vez de ficar na frente da turma e ter uma conversa
oca, Brett teve a idia de fazer um curta metragem mrbido e
godardiano em francs com uma antiga cmera Super-8. Easy
era parceiro dela na aula e portanto foi o astro existencialista
do filme. Ele tinha que dizer coisas estranhas em francs, como
"Mon omelette du jambon est mort", e "Les yeux -- os olhos --
doem." Monsieur Crimm adorou e deu A para os dois.
    -- Er, Francis Walsh -- Dalton dirigiu-se a ele, olhando
o arquivo com ateno. -- O que tem a me dizer sobre a noi-
te passada?
    -- Com ela aqui? -- Ele apontou o polegar para Brett. --
Pensei que essas coisas fossem confidenciais.
    -- Sou assistente dele -- Brett se intrometeu rapidamente,
sentando-se mais ereta.
    -- Ela est me ajudando com os procedimentos do Co-
mit Disciplinar -- explicou Dalton. -- Acho que isto a quali-
fica.
    Easy olhou de um para o outro. Caraca. Dalton foi fisga-
do -- por Brett Messerschmidt!
    -- Diz aqui que voc teve alguns problemas com o regu-
lamento nos ltimos anos, Easy. -- Dalton deu um pigarro.
-- Castigo disciplinar trs vezes. Duas suspenses. Voc qua-
130
se foi expulso uma vez no ano passado por no aparecer na
aula depois das frias de primavera. Discusses incontveis
com os professores. Atitude desagradvel. -- Ele fez uma pausa
e passou a uma nova pgina do arquivo. -- Interrompeu au-
las. Notas abaixo do padro. Quase nenhuma atividade
extracurricular. Pego com lcool quatro vezes. Matando o trei-
no esportivo. Sem esprito de equipe... -- Ele virou para ou-
tra pgina.
     Brett deu um sorriso malicioso.
     -- Mas... -- O Sr. Dalton manteve o indicador no arqui-
vo e ergueu as sobrancelhas. Ele mostrou o papel a Brett e ela
inclinou a cabea de lado, ctica. Easy revirou os olhos. Sem
dvida era aquela porra de pontuao PSAT de novo. Ento
ele gabaritou quase todas as trs sesses, grande coisa. Era o
tipo que coisa que deixava os pais babando, embora Easy no
desse a mnima. Escapulir do alojamento para ver estrelas ca-
dentes no meio dos campos de treino s duas da manh ou
andar descalo no riacho atrs do prdio de belas-artes ao
amanhecer, essas eram as coisas com que ele se importava,
coisas de que ele podia se lembrar quando estivesse velho e
trmulo. E no um teste de aptido escolar idiota. Infelizmen-
te, todas as regras imbecis se intrometiam na vida dele, quan-
do s o que Easy queria era momentos mais perfeitos na
Waverly, como aqueles.
     -- Voc  um legado -- prosseguiu Dalton, olhando para
as abotoaduras fechadas. -- Mas isso no deve significar nada.
Quero dizer, eu tambm sou um legado da Waverly.
     --  mesmo? -- guinchou Brett. -- Eu tambm!
     -- Meu pai foi aluno daqui e meu av tambm. E o ir-
                                                          131
mo dele tambm. -- Dalton se voltou para Brett. -- Basica-
mente, os homens da famlia Dalton foram a primeira turma
a se formar na Waverly Academy.
     -- Como se eu precisasse saber disso -- murmurou Easy
sarcasticamente. Qual era a desse professor, tentando impres-
sionar a Brett?
     Danton estreitou os olhos.
     -- Olha, eu nunca esperei ser tratado de forma diferente
dos outros. Na verdade, acho que os professores eram mais
duros comigo porque eu era um legado... Eles esperavam que
eu fosse um exemplo para os outros alunos.
     -- T. -- Era essa a besteirada. Easy trincou os dentes. Ele
era um legado, o que devia ser uma coisa especial, mas ele sabia
como funcionava: se sua famlia tivesse dinheiro suficiente para
mandar os filhos (ou as geraes) sucessivamente  Waverly, a
direo puxaria seu saco pelo resto de seus dias. No havia
nenhum padro moral envolvido nisso, s o dinheiro. Heath
Ferro era um maldito legado, afinal, e olha a merda toda em
que ele se metia!
     Danton se curvou para a frente.
     -- Zombe do que quiser, mas voc no devia estar no
Dumbarton ontem  noite e voc certamente no devia es-
tar... er... com aquela garota nova, a Jennifer Humphrey.
     -- Voc estava com a Jenny? -- Brett se curvou para a
frente, parecendo muito interessada.
     -- Foi isso o que a Jenny disse? -- perguntou Easy.
     -- Ela no disse nada. -- Brett franziu a testa. -- Ela dis-
se que no estava preparada para fazer uma declarao.
     -- Ah. -- Easy coou o nariz. Ele no tinha certeza do
132
que fazer com a Jenny e do que tinha acontecido na noite
anterior. Depois de conversar com ela no refeitrio, ele se
convenceu de que ela era s uma miragem. Ela no parecia
usar muita maquiagem, se usava, e era baixinha, enquanto
Callie era alta. Jenny tinha mos e ps minsculos, clios lon-
gos e portava uma bolsa que no trazia o G de Gucci colado
em toda parte. E ela perguntou a ele sobre arte. Callie nem
sonhava em perguntar a ele sobre arte. E a noite passada, bem
que pode ter sido uma miragem tambm, j que ele estava
bbado. Ele estava prestes a transar com Callie e tinha se ar-
rastado seminu para a cama de Jenny, com o Pardee na cola
dele.
    Agora Jenny -- a lindinha Jenny -- estava encrencada por
causa dele. Mas ele precisava ficar perto dela. Ela parecia to
rosada e nova, meio como aquela tela de Boticcelli que ele viu
em Roma no ano passado. O nascimento de Vnus, com a mu-
lher sensual saindo da concha de ostra. Ele no queria que ela
ficasse encrencada. Mas ele no queria que Callie descobrisse
que ele tocara em Jenny. Easy colocou a cabea entre as mos
para evitar que o crebro de ressaca sasse pelas orelhas.
    -- Olha s, eu no sei o que est acontecendo aqui, mas
como seu orientador, tenho que alertar a voc: esse tipo de
infrao, acima de sua mirade de outras infraes, pode levar
 expulso.
    Brett respirou fundo e sacudiu a cabea, fingindo realmen-
te se importar.
    Easy mal piscou.
    -- Tudo bem.
    -- Voc ouviu o que eu disse? -- perguntou Dalton. --
                                                           133
Voc pode ser expulso.
     -- . Eu ouvi.
     -- Se eu fosse voc, passaria mais tempo pensando em por
que estou aqui -- sugeriu Dalton com severidade -- e menos
tempo se metendo em problemas.
     Esse era o tipo de coisa idiota que um dos irmos dele podia
dizer. Easy era o mais novo de quatro e os trs irmos tam-
bm foram alunos da Waverly. Sempre que Easy reclamava
disso com eles, eles diziam que ele s entenderia a importn-
cia da Waverly quando sasse de l. E essa era uma daquelas
besteiras que as pessoas diziam quando ficavam mais velhas e
descerebradas. Os irmos dele j se formaram na faculdade e
se ps-graduaram em direito; dois estavam casados e o outro
era noivo. Eles eram adultos chatos e frouxos e no sabiam o
que era viver de verdade.
     -- T legal -- respondeu Easy entredentes. -- Voc j me
orientou, ento? -- Sem esperar por uma resposta, ele se le-
vantou vigorosamente, abriu a porta e saiu.
     Do lado de fora do Stansfield Hall, ele de repente se sen-
tiu tonto. Voc pode ser expulso. Ser que ele falou a srio? Se
Easy fosse expulso da Waverly, podia esquecer seu ano em
Paris. Ele seria obrigado a morar em casa, sozinho com os pais
irritadios, onde teria aulas com um professor particular e seu
nico contato com o mundo exterior seria com a mulher pa-
vorosa de cabelo louro e duro da correspondncia que gosta-
va meio demais de Easy. Easy precisava se sentar. Talvez fosse a
vodca da noite anterior, mas ele sentiu um jato de nusea.
     Vaia, vaia.
     Easy olhou para as rvores. Um dos corujes o estava ob-
134
servando, os olhos redondos e amarelos. Easy fez um som de
pio para a coruja, como o que ele fazia quando precisava que
Credo se acalmasse, e pegou uma garrafa amassada de Sprite
na bolsa da escola. Ele tomou um gole do que restava da Ketel
One da noite anterior. Todo mundo estava indo para as pri-
meiras aulas do ano, mas Easy precisava pensar.
    Ele vagou pelo caminho de pedra gasta em direo ao es-
tbulo, querendo que Callie estivesse ali para se deitar com
ele em uma baia mida e fazer com que ele se esquecesse da
ameaa de Dalton. Eles se esticariam em uma velha manta para
cavalo e ficariam o dia todo ali, sem se importar em matar aula.
Mas imaginar Callie nua no estbulo abandonado no o esta-
va deixando excitado -- ele no conseguia impedir que a Callie
de Fantasia reclamasse do feno no cabelo e de insetos imagi-
nrios na manta.
    Easy se fechou na baia quente e meio mida, e fechou os
olhos com fora. Mas quando revisitou sua fantasia, no era
Callie que estava esparramada na manta, olhando para ele.
    Era Jenny.
                                                            135
            OwlNet            Caixa de Entrada de E-mail
         Para:   Alunos de Waverly
           De:   ReitorMarymount@waverly.edu
         Data:   Quinta-feira, 5 de setembro, 9:01h
      Assunto:   Dano de propriedade
  Caros alunos,
  Chegaram a minha ateno os pneis desenhados que apareceram
  em todo o campus -- nas caladas, em quadros de avisos e nas
  paredes do box do vestirio feminino.
  Por favor, entendam que danificar a propriedade da Waverly  uma
  infrao grave e no ser tolerada. Alguns alunos tambm relataram
  anonimamente perturbao emocional com eles. Por favor,
  observem que o centro de sade mental fica aberto 24 horas por
  dia e que qualquer um visto danificando propriedade da escola
  enfrentar conseqncias disciplinares.
  Tenham um bom primeiro dia de aula,
  Reitor Marymount
136
                             14
          NENHUMA WAVERLY OWL ESCAPA
           DO INTERROGATRIO -- NEM A
               FILHA DA GOVERNADORA.
C
          allie estava voando na aula de latim do primeiro tem
          po quando a Sra. Tullington, a administradora da
          escola, interrompeu a aula.
    -- Srta. Vernon -- o Sr. Gaston, o professor, voltou-se
para ela. -- Sua orientadora quer v-la.
    A sala da orientadora ficava a apenas um andar da sala de
latim. Callie esfregou as mos de nervosismo. Ela e a Srta.
Emory no eram exatamente boas amigas. A Srta. Emory era
uma cretina meio sapata de meia-idade e cabelo curto de
Connecticut que foi aluna da Vassar com a me de Callie. A
duas mulheres foram rivais, sempre competindo pelas notas
mais altas e a admisso na sociedade Pi Beta Kapa. Elas tam-
bm brigaram pela mesma vaga na Faculdade de Direito de
                                                          137
Harvard -- e a me de Callie venceu. Amargurada, a Srta.
Emory decidiu abandonar a faculdade de direito e fazer
mestrado em educao na Universidade de Nova York. Ela
deixou muito claro a Callie que o fato de no ter ido para
Harvard afetara todo o rumo de sua vida, e Callie desconfiava
de que ela colocava toda a culpa por isso na me dela. Era outra
brilhante combinao aluna-orientadora arranjada pela admi-
nistrao da Waverly.
     A sala da Srta. Emory era singular. No tinha absolutamen-
te livro algum nem objetos pessoais em suas prateleiras, e a
nica coisa presa no quadro de avisos era a lista de telefones
da Waverly, que relacionava todos os nmeros e ramais de
outros membros do corpo docente da escola. Um laptop Sony
Vaio solitrio estava na mesa de madeira escura e uma sacola
de compras com a palavras RHINECLIFF YARN BARN
pousava em uma mesa vazia atrs dela. Agulhas de tric de
madeira e alguns fios de l se projetavam do alto. A Srta. Emory
fazia tric? Que coisa estranha.
     Callie se sentou rapidamente na cadeira Aeron preta na
frente da mesa da Srta. Emory. Junto das espartanas blusa de
gola rul preta e da cala preta prtica, a saia rosa Diane von
Furstenberg e o relgio Chopard rosa com diamantes pareci-
am ridculos.
     -- Queria me ver?
     A Srta. Emory desviou os olhos da tela do computador.
Ela semicerrou um olho e contorceu a boca enorme em um
esgar. Parecia uma Popeye louca de saias. Por que Callie no
podia ter uma orientadora legal, como a Sra. Swan, que lhe
dava permisso para ir ao Metropolitan Opera trs vezes por
138
ano, ou o Sr. Bungey, que dava festas de Natal regadas a us-
que escocs com os filhos e ouvia todos os seus problemas de
relacionamento? Mas no, Callie tinha que ficar com a Popeye
maluca, que provavelmente usava aquelas agulhas de tric para
espetar a bunda das alunas quando elas se comportavam mal.
    -- O Sr. Pardee me disse que eu devia conversar com voc
-- anunciou monotonamente a Srta. Emory. -- Ele disse que
seu namorado foi pego no seu quarto ontem  noite. Depois
do toque de recolher.
    Callie respirou fundo para se preparar. Tinha anos de ex-
perincia distorcendo a verdade para a me, mas isso sempre
a deixava nervosa.
    -- Bom, o caso  o seguinte -- comeou ela. -- Meu
namorado foi l, sim. Mas no foi me visitar. Ele estava visi-
tando minha colega de quarto, a Jenny.
    -- E como voc sabe disso?
    Callie franziu o cenho.
    -- Porque... Porque eu no estava l.
    A Srta. Emory a olhou com descrena.
    -- Hummmmmm. -- Ela comeou a digitar alguma coisa
no teclado. Callie percebeu que a Srta. Emory tinha unhas
muito grossas, rodas at o sabugo.
    Que merda. Ser que o hummmm da Srta. Emory signifi-
cava que Jenny a entregara? Callie no acreditava nisso: ela vira
o brilho nos olhos dela -- Jenny estava ansiosa para se mistu-
rar. Por que ela apareceria na festa do alojamento Richards,
basicamente sem ser convidada? Se ela no ligasse para a or-
dem social da Waverly, ia ser amiga daquela parva da Yvonne.
No, a Jenny queria mais do que isso, Callie tinha certeza.
                                                             139
    -- Olha. -- Callie deu de ombros. -- Eu no sei o que
aconteceu. Eu estava estudando. Foi logo antes do toque de
recolher, eu voltei e s Jenny estava l. Easy tinha ido embo-
ra. O Sr. Pardee estava falando com ela.
    -- Hummm. Ento  assim. Voc e Easy no esto mais
namorando?
    Callie estremeceu. Com aquele horrvel Eu te amo ainda
vagando por ali, sem resposta, cada segundo que se passava
sem que ele dissesse a mesma coisa a fazia se sentir ridicula-
mente vulnervel. Se eles no transassem logo e comeassem
a falar do quanto se amavam, Callie podia ter que pedir exa-
mes no centro de sade mental junto com todas as meninas
traumatizadas com os pneis nos quadros de aviso.
    -- No -- mentiu Callie. -- Ns no estamos juntos.
    -- Sei. -- A Srta. Emory a encarou por sobre os culos
pretos e quadrados. -- Porque algum viu voc e o Sr. Walsh
no estbulo ontem mesmo.
    -- Ns... Estvamos terminando -- Callie conseguiu ga-
guejar, a voz seca. -- Eu... Eu no quero falar nesse assunto,
se no tiver problema. -- Droga de Ben! Droga de funcionri-
os que moram com os alunos no campus e sabem de cada de-
talhe ntimo da vida deles!
    -- Humm -- respondeu a Srta. Emory, parecendo no
acreditar em nada do que Callie dizia. -- Bem, comporte-se.
Ns no nos esquecemos do ano passado.
    -- Tudo bem -- guinchou Callie.
    Depois a Srta. Emory comeou a digitar furiosamente. Em
geral esta era a deixa para Callie sair. Ela queria loucamente
torcer o pescoo para ver o que ela estava digitando -- prova-
140
velmente um plano de trs pontos para arruinar a vida de
Callie.
    Ela correu de volta  aula, ansiosa para retornar ao mundo
tranqilizador das declinaes em latim. Sentada em sua car-
teira, ela esfregou as mos. Se a Srta. Emory descobrisse que
ela mentira e que Easy foi at l para v-la, ela sem dvida seria
expulsa, em especial depois do episdio com o Ecstasy do ano
passado. E a a me dela a deserdaria e ela teria que se mudar
para a casa da tia Brenda, que fedia a peixe, no subrbio mais
tedioso de Atlanta. Ela seria obrigada a ir a uma escola catlica
com crianas plidas e cheias de espinhas que achavam que
uma grande noite de balada era beber Smirnoff Ice no estaci-
onamento do Dairy Queen e trocar cartes da NASCAR. O
estmago de Callie se revirou.
    Callie tinha dois desafios diante de si: primeiro, certificar-
se de que Jenny no ia falar e, segundo, convencer a Srta.
Emory de que ela e Easy no eram mais nada. Sua vida na
Waverly dependia disso.
                                                              141
            OwlNet            Caixa de Entrada de E-mail
         Para:   JennyHumphrey@waverly.edu
           De:   KissKiss! Online
         Data:   Quinta-feira, 5 de setembro, 12:50h
      Assunto:   Surpresa!
  Cara Jenny Humphrey,
  Hoje  seu dia de sorte! Sua amiga Callie Vernon escolheu uma linda
  cesta de presentes para voc, cheia de maquiagem, no valor de 50
  dlares. A cesta vem com uma bolsa Le SportSac gratuita! Por favor,
  v ao site para escolher a cor que preferir.
  Kiss kiss,
  A equipe de KissKiss
142
      OwlNet            Caixa de mensagem Instantnea
CallieVernon:   Vem comigo na Pimpernels. Meio-dia.
 EasyWalsh:     Fazer compras? No.
CallieVernon:    importante. Precisamos conversar.
 EasyWalsh:     No d pra ser no campus?
CallieVernon:   Vc pode entrar na sala de provas comigo...
 EasyWalsh:     A gente j no est com problemas demais?
                                                             143
                              15
          UMA WAVERLY OWL SEMPRE DEVE
             PEGAR A ESTRADA DA MORAL.
E
        asy viu Callie apoiada na frente da loja, remexendo ner
        vosa na bolsa Gucci de ala de bambu e segurando um
        cigarro apagado. Era uma tarde quente e ela vestia uma
blusa fina colorida e saia igual. Os moradores de Rhinecliff
-- principalmente artistas hippies de cabelo desgrenhado --
andavam pela rua de paraleleppedo, tomando sorvete de
morango de casquinha e parando para falar com Hank, o cara
que vendia camisetas de batik e incenso na calada. Mas Easy
duvidava de que os hippies estivessem falando com Hank por
causa do incenso. Hank vendia maconha a muitos alunos da
Waverly, inclusive a Easy. Ele j acenava para ele.
   -- Bom, olha quem est aqui -- disse Callie sarcastica-
mente.
   Easy no respondeu. Eles estavam na frente da Pimpernel's,
                                                           145
uma loja cheia de frescuras onde Callie fazia a concesso de
comprar roupas. Era a nica loja em Rhinecliff que no ven-
dia blusas de batik -- e quando vendia, eram de seda, com
lantejoulas e custavam trezentos dlares. Da ltima vez em
que esteve ali, Easy passou o tempo todo examinando uma
coisa que parecia uma meia de tric rosa minscula e custava
360 dlares, tentando entender o que poderia ser. Um aque-
cedor de nariz? Uma bolsa para maconha? Uma camisinha
aconchegante? Callie finalmente informou a ele que se trata-
va de uma botinha de cashmere para cachorro.
    Mas era importante que ele conversasse com Callie, en-
to aqui estava ele.
    -- Ns temos um problema -- anunciou ele categorica-
mente.
    Callie examinou as unhas recm-pintadas.
    -- Ns, n?
    Easy fez uma carranca.
    --  claro que somos ns. E por que foi que eu vi a Jenny
Humphrey saindo da sala do Dalton? Foi pela noite passada?
Ela no tem nada a ver com isso.
    -- Bom, a Srta. Emory tambm falou comigo. E se quer
saber, sim, a Jenny estava l por causa da noite passada. Eu 
que no posso assumir a culpa. A histria do Ecstasy, lembra?
Meus pais iam me deserdar e me mandar para a escola
NASCAR!
    -- Do que  que voc est falando? -- quis saber Easy,
esfregando as laterais do rosto que ele no barbeou.
    Callie sacudiu o cabelo louro da nuca.
    -- Olha, eu no quero ser expulsa. Ento eu disse que voc
146
estava l com a Jenny e que a gente terminou.
    -- Como  que ? -- perguntou Easy, aturdido. Callie deu
de ombros e abriu a porta da loja. Tocaram sinos para anunci-
ar sua chegada.
    -- Querida! Bem-vinda de volta! -- guinchou uma mu-
lher muito alta e muito magra de cabelo louro lambido assim
que eles passaram pela porta.
    -- Oi, Tracey! -- piou Callie. Elas se beijaram no rosto
em uma rotina bem ensaiada. Easy recuou, querendo sair.
Imediatamente. Fazer compras, mulheres gritando, botinhas
de cashmere para cachorro. No era a praia dele. Por que ele
veio? Ele devia estar curtindo os ltimos dias na Waverly.
    -- Tenho umas coisas para voc do vero. -- Tracey ace-
nou, conduzindo Callie e Easy para um pequeno nicho nos
fundos. Ela puxou uma arara de vestidos, saias e blusas. Er-
gueu um vestido Donna Karan marfim. -- No  lindo?
    Easy virou a cabea de lado para ler a etiqueta de preo:
US$2.250.
    -- Ah, sim -- Callie arfou. Ela no parecia nada preocu-
pada por ter metido a nova colega de quarto em problemas
ou que ela tivesse mentido para a administrao. Nada disso.
S estava preocupada se a loja tinha o vestido no tamanho dela.
    -- Voc praticamente pode usar esse vestido no seu casa-
mento! -- Tracey colocou o vestido no corpo de Callie.
    -- Se voc fosse uma piranha -- acrescentou Easy gros-
seiramente. Ele se jogou no sof lavanda, tirando uma almo-
fada rosa de renda e franjas de sob o traseiro.
    Callie revirou os olhos.
    -- Homens -- ela suspirou para Tracey. -- Eles no sa-
                                                           147
bem de nada! -- Depois ela se aproximou e afagou o brao de
Easy. -- E a, o Dalton foi mau com voc?
    -- Ele disse que eu podia ser expulso.
    -- Ah, mas no vai. Voc  um legado. Eles nunca expul-
sam os legados. -- Easy viu um lampejo de preocupao atra-
vessar o rosto dela enquanto ela pegava as roupas que Tracey
trouxera para experimentar.
    -- No sei no -- respondeu ele enquanto ela fechava a
porta rosa da sala de provas. -- E se decidirem criar um pre-
cedente?
    -- No vo -- insistiu Callie determinada, atirando o suti
La Perla por cima da porta da sala de provas. Ele parecia
franzino e meio triste. -- Voc est totalmente seguro.
    -- Ento voc simplesmente vai deixar a Jenny levar a
culpa no seu lugar?
    -- E por que no? O Sr. Pardee pegou a Jenny, afinal. E
ela est preparada. A gente conversou sobre isso.
    Easy suspirou.
    -- Sabe de uma coisa, Dalton me disse que ela no falou
uma palavra do que aconteceu. E se ela falar?
    -- Ela no vai -- respondeu Callie, a voz estalando de
determinao forada.
    Easy se recostou. A vendedora, Tracey, encarava seus All
Star cano longo, que ele apoiou no div de veludo lavanda da
loja. Que foi, ele no devia colocar os ps ali? Saco.
    De repente, Callie enfiou a cabea para fora da porta da
sala de provas.
    -- Amorzinho? Preciso de um favorzinho seu.
    -- O que ? -- Se era para ajudar a desenroscar a calcinha
148
ou fechar alguma coisa, ele realmente no estava no humor
para isso.
    Os olhos de Callie encontraram os dele.
    -- Bom... -- Ela enrolou uma mecha de cabelo louro no
indicador. -- Se a Jenny assumir a culpa por mim... e eu te-
nho certeza de que ela vai... a gente precisa parecer... crvel.
    -- Crvel?
    -- Sabe como . Como se alguma coisa realmente tivesse
acontecido entre vocs dois.
    Easy mexeu o queixo sem acreditar, encarando Callie.
    -- A -- Callie continuou --, isso pode parecer estranho,
mas eu estou me perguntando se voc pode paquerar a garota
um pouco. Sabe como , talvez se os dois agirem como se
gostassem. S um pouco.
    -- Est me pedindo para dar mole pra outra garota? --
Easy riu, tirando os ps do div de veludo. -- J se esqueceu
de que voc  a pessoa mais ciumenta do mundo?
    Callie fechou a porta novamente e atirou o vestido que
acabara de provar no alto da porta.
    -- Eu no sou ciumenta -- retorquiu ela.
    -- O que quer que eu faa?
    -- Sei l. D em cima dela. Seja legal com ela. Como
amigo.
    Com a porta da sala de provas fechada, a viso que Callie
tinha de Easy ficou obscurecida. Mas se ela pudesse v-lo, teria
ficado confusa com o sorriso aparentemente enorme na cara
dele e a cor que subia do pescoo para as bochechas.
    Quando ela colocou a cabea para fora da porta de novo,
ele tinha conseguido se recompor.
                                                            149
    -- Isso  assim to ruim? Voc no vai ser expulso da es-
cola.  idiotice. Mas voc j foi visto pelo Sr. Pardee no aloja-
mento, ento j est encrencado. No ia doer tornar tudo um
pouquinho mais real, ia?
    -- Bom, eles esto certos! -- Easy ergueu as mos, im-
potente.
    Ela deu pulinhos de frustrao e Easy olhou para o peito
dela por um segundo.
    -- Amorzinho, por favor? No seria horrvel se eu fosse
expulsa?
    -- Mas e se eu for expulso?
    Callie franziu a cara.
    -- No vai -- disse ela com firmeza. -- Eu j disse que
no vai.
    Easy hesitou. Seria possvel que Callie o tivesse visto sen-
tado na cama de Jenny ontem  noite, tocando as costas dela,
e que tudo isso fosse s um teste?  melhor fingir que ele no
tem certeza da idia -- embora por dentro,  claro, todo o seu
corpo parecesse ter sido atingido por um raio. Seria realmen-
te possvel que a namorada estivesse pedindo a ele para azarar
a garota que ele queria?
    -- Isso no parece muito moral -- respondeu ele estoi-
camente, tirando o sorriso bobalho da cara.
    -- Moral? -- Ela bateu a porta de novo. -- Est se esque-
cendo de como voc me roubou de Brandon Buchanan no
ano passado? Bem na cara dele?
    -- E da?
    -- Isso no foi l muito moral, foi?
    Easy deu de ombros.
150
    -- De qualquer forma -- continuou Callie --, eu vou falar
nesse assunto com a Jenny tambm. At parece que estou te
pedindo para transar com ela ou coisa assim. Voc pode por
favor fazer isso por mim?
    -- Eu... -- Easy gaguejou. Ela no o estava testando. Es-
tava falando a srio. Ele realmente era a porra do cara mais
sortudo do mundo.
    Callie abriu a porta, usando o vestido Donna Karan bran-
co. Parecia a Barbie Piranha-do-Internato no dia do casamento.
    -- E a, vai fazer? -- perguntou ela. Ele assentiu devagar
e ela abriu um sorriso. -- Obrigada, amorzinho. Vai ser uma
ajuda imensa.
    No, no, pensou Easy. Eu  que agradeo.
                                                          151
            OwlNet            Caixa de Entrada de E-mail
         Para:   RufusHumphrey@poetsonline.com
           De:   JennyHumphrey@waverly.edu
         Data:   Quinta-feira, 5 de setembro, 12:15h
      Assunto:   Saudade
  Oi, pai
  Acabo de sair de minha primeira aula de ingls. Meu professor leu
  parte de "Hoel" em voz alta e me fez lembrar de quando a gente
  comeu seus biscoitos de aveia de aparncia horrvel mas deliciosos
  naquele cinema esquisito e vimos o documentrio sobre o Allen
  Ginsberg. Eu adorei aquele dia.
  Os testes de hquei aconteceram ontem e voc no vai acreditar, mas
  sou uma atleta nata. Voc treinou escondido um time de hquei de
  poetas beats ou coisa assim? Porque eu no sei de onde tirei isso...
  Ainda estou me adaptando a tudo por aqui --  diferente da cidade
  e da Constance em muita coisa. O cheiro  melhor e no tem
  baratas, mas tem um monte de REGRAS -- ainda estou aprendendo
  quais so... S espero que eu aprenda com a mesma rapidez com
  que aprendi hquei.
  Soube alguma coisa do Dan? Tenho que admitir que s vezes sinto
  saudade dele.
  Beijos e abraos!
  Te amo,
  Jenny
  P.S.: Pode me mandar meu celular? Achei que eles eram proibidos,
  mas por acaso todo mundo aqui tem. Est em cima da minha
  escrivaninha, no meu quarto. E se por acaso ele se transformar
  magicamente num Treo 650, bom, eu no vou mandar de volta...
  Obrigada, pai. Te amo de novo.
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       UMA WAVERLY OWL INTELIGENTE PODE
             LIDAR COM QUALQUER COISA.
     E
              a, me fala desse professor gato -- piou a irm de
--            Brett.Brett tinha se enfiado atrs do Stansfield
              Hall para dar uma ligada rpida para a sede da Elle
antes de se juntar a Eric no almoo. -- Voc vai ter que almo-
ar com ele?
    --  um almoo de trabalho -- disse Brett. -- Ficamos sem
tempo hoje de manh. No quer dizer nada.
    -- Claro que quer! Qual  o nome dele, alis?
    -- Eric Dalton.
    -- Como ? Voc sumiu um segundo.
    -- Eric Dalton -- continuou Brett em voz alta e depois
afastou o celular da orelha para ver a tela. A tela piscava CHA-
MADA PERDIDA. Ela enfiou o Nokia de volta na bolsa.
    Brett no conseguia deixar de ficar nervosa. Ela no con-
                                                             153
seguira parar de pensar em Eric desde que eles se conhece-
ram no dia anterior. Ele era meio complicado e indiferente, o
que era um desafio. Brett tambm tinha a sensao de que ele
gostava dela, mas que sabia que no devia -- outro desafio.
Brett adorava desafios.
    Nesta manh, na aula de clculo, enquanto o Sr.
Farnsworth explicava o conceito de infinito, Brett os imagi-
nou escapulindo para Nova York, pegando a sute presidenci-
al do Sherry-Netherland, pedindo champanhe Veuve Cliquot
e ovos Benedict do servio de quarto e passando horas sem
fim de sexo suarento com as cortinas abertas para que pudes-
sem ver as carruagens puxadas a cavalo no parque.
    Na nica vez em que ela e Jeremiah foram  capital, Brett
queria tomar um martni no Harry Cipriani, que ficava bem 
direita do Sherry-Netherland Hotel. Mas Jeremiah exigiu que
eles fossem ao Smith & Wollensky porque ele sabia que o jogo
dos Yankees-Sox ia ser exibido aos berros na TV de tela de
plasma deles. Seu estmago se revirou quando ela pensou na
vinda de Jeremiah esta tarde. Ela no estaria com a estrutura
psicolgica certa para v-lo.
    Brett trincou os dentes enquanto subia a escada para a sala
de Eric. S o que ela queria fazer era ficar sentada na cama de
Callie, tomando um shake sabor daiquiri de banana direto do
liquidificador, e contar a ela sobre cada sarda no rosto perfeito
de Eric. Mas desde que elas se mudaram, ela e Callie mal se
falavam. Ela tentou perguntar a Callie sobre a histria de Jenny/
Easy quando parou no quarto depois das reunies da manh,
mas Callie rapidamente correu para o banho sem responder.
E da que elas no fossem amigas agora? Ou talvez Callie es-
154
tivesse com medo de, se deixasse a guarda baixa, confessar o
que tinha feito a Tinsley? Era provvel mesmo.
    Brett bateu na porta da sala de Eric e sentiu cheiro de ch
de camomila l dentro. Ele abriu a porta e lhe deu um sorriso
adorvel.
    -- Oi -- disse ele, recuando para ela passar.
    Brett sorriu para ele, contendo-se para no se atirar no
pescoo sexy e bronzeado de Eric. Ele estava lindo, da gravata
elegantemente colocada s suas... meias. Sem sapatos, s meias
verdes que pareciam macias. Ela tremeu por dentro. Porque
afinal, bem abaixo daquela camada do que ela apostava que
era cashmere Brooks Brothers, estavam os ps dele. Ele estava
basicamente a um passo de ficar nu.
    -- Obrigada -- respondeu ela, recuperando a compostura.
Depois ela percebeu uma bandeja enorme de queijo, caviar,
azeitonas, salmo defumado, bolachas e tea cakes balanando
na beira do aparador. Era exatamente o tipo de arranjo opu-
lento de comida gourmet que as clientes do pai dela manda-
vam  casa deles numa cesta como agradecimento por suas
lipos perfeitas.
    -- Gosta de queijo? Manchego? Coach Triple Cream?
    At parece que ela ia conseguir comer.
    -- Claro. Tudo isso.
    -- Azeitona tambm? -- Ele apontou. -- Gosto de fazer
uns piqueniquezinhos.
    Brett pegou recatadamente uma fatia minscula de quei-
jo e a colocou entre os lbios grossos. O sal cobriu sua boca e
ela engoliu com um rudo.
    -- Peguei esse jeito de comer com a minha famlia. -- Eric
                                                           155
coou a lateral do pescoo magro e barbeado. -- Minha fam-
lia, cara. Eles so loucos por queijo.
     --  -- concordou Brett, encantada com o clssico sota-
que da Nova Inglaterra. Ela no fazia a menor idia de onde
ele era, mas tinha que ser de algum lugar da Costa Leste.
Boston, talvez, mas ele definitivamente no falava com sota-
que de cidade universitria. -- O que os seus pais fazem? --
Finalmente ela conseguira falar.
     Ele deu uma pausa.
     -- Er, bom, meu pai trabalha no editorial de uma revista.
Minha me... Ela tem seus pequenos projetos, eu acho. E os
seus?
     Mas que coisa mais vaga.
     -- Meu pai  mdico. -- Brett deu de ombros. Ela no ia
contar a Dalton que tipo de mdico era. -- E minha me... .
Ela tambm tem seus pequenos projetos. -- Um destes pro-
jetos era comprar suteres de grife para os sete chihuahuas da
famlia.
     -- Mas ento, minhas fontes me disseram que voc foi 
Itlia -- disse Eric, espalhando brie em um wafer Breton e
sentando-se de novo na cadeira.
     Brett olhou para ele.
     -- . Como voc soube disso?
     Ele baixou a cabea, meio tmido.
     -- Bom, quer dizer, eu vi no seu arquivo.
     Ela sentiu a cor subindo pelo rosto. D.  claro que ele
olhou arquivo dela. Foi assim que ele a reconheceu, antes de
tudo. Ser que isso significava que ele sabia dos pais dela?
     -- Desculpe -- acrescentou ele rapidamente. -- Eu no
156
quis dizer que...
     -- No! -- disse ela. -- Meu Deus. Eu no ligo. Fui 
Europa para estudar. Passei algum tempo na Amrica do Sul
tambm, com a famlia. -- Ela no acrescentou que sua fam-
lia tinha comprado a maior e mais brega casa em Bzios, no
Brasil, e mandou todos os chihuahuas de primeira classe para
passar o vero com eles.
     Ele olhou srio pra ela.
     -- Est sendo modesta. Voc foi  Frana com os alunos
de francs avanado... principalmente da oitava srie... quan-
do ainda estava na stima... e foi a Creta com o programa de
distino quando ainda era caloura.
     Ela deu de ombros. Era estranho ter algum repetindo suas
realizaes para voc. Mas tambm era meio legal. Provavel-
mente Jeremiah no fazia idia de onde ficava Creta.
     -- Voc  inteligente. -- ele sorriu. -- Eu preciso de uma
mulher inteligente por perto para me ajudar a passar por esse
primeiro ano.
     -- Bom, esta sou eu -- disse ela timidamente, achando
um pouco engraado que ele a tenha chamado de mulher em
vez de garota. Ela observou enquanto ele depositava graciosa-
mente um caroo de azeitona na beira da bandeja de cermica
azul, que parecia italiana. Jeremiah teria cuspido o caroo na
mo.
     -- Ento, vamos comear. -- Ele abriu a pasta de papel-
manilha e revelou uma grande pilha de documentos. -- Quero
te mostrar isto... Estes so alguns dos arquivos de caso. Tm
umas novecentas pginas. E  srio, guarde isso para voc.
Lembre-se, tecnicamente voc no devia estar fazendo esse
                                                           157
tipo de trabalho, uma vez que no era do CD no ano passado.
Tudo nestes arquivos  confidencial. Acha que pode lidar com
isso?
    -- Claro que sim -- garantiu-lhe Brett. Ela riu um pou-
co. -- Eu sou boa com segredos.
    --  mesmo? -- Ele olhou para ela e abriu um sorriso
lentamente. Brett se sentiu derreter por dentro. Ele passou
uma pilha de papis a ela, os dedos roando no dorso da mo
de Brett. Brett quase engasgou com o Manchego. Ele no ia
se afastar muito rpido tambm. O tempo se desacelerou. Brett
contou: Um Mississippi, dois Mississippi...
    Trs segundos. As mos dos dois ainda estavam se tocan-
do. Um formigamento percorreu as costas dela e sua mo
zumbiu, como se ela estivesse tocando uma cerca eletrificada.
    -- Era o que eu esperava de voc -- murmurou ele, fi-
nalmente quebrando o silncio.
    Brett olhou para baixo, querendo que os lbios no se abris-
sem num sorriso enorme.
158
                             17
      OS WAVERLY OWLS DEVEM TER CUIDADO
         COM QUEM OUVE SEUS SEGREDOS.
B
        randon olhou Jenny de longe, vindo pelo morro de
         gramado molhado de orvalho do Hunter Hall, o pr
         dio da aula de ingls. Ela arrumara cuidadosamente
o cabelo cacheado em duas marias-chiquinhas e vestia uma
blusa rosa e branca, o blazer da Waverly e uma saia cqui bo-
nitinha. Brandon quase podia imagin-la como uma fazendeira
indo ordenhar uma vaca ou cantar no alto da colina.
    Duas garotas louras de rabo-de-cavalo abraaram os livros
no peito e sorriram para ele quando passaram.
    -- Oi, Brandon -- piou Sage Francis, vestida numa saia
pregueada cinza ultracurta e sandlias prateadas. Brandon sor-
riu distrado. -- Vi voc jantando ontem  noite com aquela
menina, a Jenny. Ela realmente dormiu com cara dos White
Stripes?
                                                          159
    -- O qu? -- perguntou Brandon, coando uma sobran-
celha.
    -- Ouvi dizer que ela dormiu com o vocalista dos Raves,
Jack White, e com o Easy Walsh... Tudo na mesma semana!
    -- E no se esquea de que ela montou no Pnei! -- guin-
chou a amiga de Sage, uma garota chamada Helena que era
famosa por estrelar as peas da escola e se agarrar com o dire-
tor dos alunos nas festas do elenco. Brandon estava meio can-
sado do termo pnei. As meninas no paravam de falar nele e
agiam de uma forma totalmente ridcula. Pior ainda, o Heath
adorava que tivessem bolado um apelido sexual para ele. Na
noite passada, antes de ir para o jantar, Heath cutucara Brandon
na barriga tonificada de power ioga, vangloriando: "Quer apos-
tar que posso botar o pnei pra passear entre a primeira e a
segunda aulas?"
    -- Ela no disse que alguma coisa aconteceu entre ela e
Easy -- responde Brandon tranquilamente, tentando parecer
calmo.
    -- Ela  pior do que a Tinsley! -- Sage e Helena riram,
depois deram-se as mos e se afastaram.
    -- Ela no... -- comeou Brandon. Mas elas j haviam ido
embora. Pessoalmente, Brandon se sentia nauseado com to-
dos os boatos sobre Jenny. Ele ouviu dizer que ela foi flagrada
num sexo ruidoso com Easy Walsh na noite passada, vestida
s com um suti de renda no terrao do alojamento, os boa-
tos estavam por toda a Waverly. No que ele acreditasse que
Jenny tenha feito isso, ela era doce demais para uma coisa as-
sim. Em especial com um cachorro como o Easy Walsh.
    Jenny vinha na direo dele, parecendo ainda mais ino-
160
cente e arregalada do que quando Brandon a conheceu. Ele
estendeu a mo e pegou o brao dela quando ela passou.
    -- Oi.
    Jenny parou, completamente confusa.
    -- Ah! -- exclamou ela. Agora que ela o olhava, ele podia
ver olheiras escuras sob os olhos dela. Ele queria poder passar
suavemente seu Open Eyes Magic Eye Balm da L'Occitane
na pele delicada de Jenny. -- Oi.
    -- Voc est bem?
    -- Humm, claro.
    -- Eu trouxe isso pra voc. -- Ele vasculhou a maleta de
camura caramelo John Varvatos e encontrou um sanduche
de peru e brie embrulhado em um guardanapo. -- Eu no te
vi no almoo e achei que podia estar com fome.
    -- , estava mandando um email pro meu pai. -- Jenny
apertou os lbios, sem o olhar nos olhos. --  s que... Eu
meio que estou a ponto de explodir por causa da presso --
admitiu ela, os lbios tremendo. -- Eu no sei o que fazer.
    -- O que aconteceu?
    -- Deixa pra l. -- Jenny sacudiu a cabea, o queixo tre-
mendo. -- Eu estou bem.  s que tenho que pensar numas
coisas por um tempo, entendeu?
    Brandon se perguntou o que ela quis dizer com isso. Ser
que significava que ela afinal ficara com Easy? Ou que algum
estava espalhando boatos maldosos e infundados a respeito
dela? Easy, provavelmente. Meu Deus, ele odiava o Easy.
    -- No deixe que ele atinja voc -- disse Brandon, ten-
tando olhar nos olhos castanhos de Jenny.
    -- Quem?
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     -- Voc sabe quem. O Easy.
     -- Easy? No  culpa do Easy. -- Jenny chutou a grama
perfeitamente bem-cuidada.
     -- No? Ento  a histria do Pnei? Porque, sabe de uma
coisa, praticamente todas as meninas da Waverly cometeram
o erro de ficar com o Heath. -- Brandon sorriu um pouco.
--  srio. Elas vo encontrar outra pessoa de quem falar logo.
     Jenny sacudiu a cabea e olhou para ele atravs dos clios
escuros e grossos.
     -- Eu nem sabia que ele era chamado de Pnei -- con-
fessou ela, abatida. -- Mas pelo menos agora eu sei o que aque-
les desenhos significam. De qualquer forma, no, no  s o
Heath. Isso foi s o comeo.
     -- Ento o que ?
     -- Eu me sinto... -- Jenny engoliu em seco. Ela estava
meio sem-graa em admitir isso a algum que ela mal conhe-
cia, mas ela sentia que podia confiar em Brandon. -- Eu sinto
como se o Easy e eu tivssemos uma ligao verdadeira. 
esquisito. No posso explicar.
     Brandon sentiu a garganta se fechar. Mas. Que. Porra.
     -- Ento -- disse ele por fim. -- Voc... Gosta dele?
     -- Bom, eu... -- A voz dela falhou.
     Brandon sacudiu a cabea vigorosamente.
     -- No pode gostar do Easy.
     Jenny deu de ombros.
     -- Bom, . Eu sei. Ele  namorado da minha colega de
quarto.
     , ele estava bem ciente disso, muito obrigado. Mas no,
voc no deve gostar dele porque ele  a maior roubada. Afinal, Easy
162
tinha tirado Callie dele no ano passado e desde ento nada mais
foi o mesmo. Num minuto, ela estava ao lado dele na festa da
biblioteca, pedindo Grey Goose e tnica. No outro, ela esta-
va subindo a escada da biblioteca, com a lngua de Easy prati-
camente descendo pela garganta dela em pblico.
    Agora Jenny tinha uma espcie de ligao com ele? Ora,
francamente.
    -- Mas isso no importa. -- Ela olhou os sapatos e fechou
os olhos com fora. -- Eu no devia ter dito nada.
    -- No... -- disse Brandon, inseguro. -- Fico feliz que
tenha falado.
    -- Eu tenho que ir -- disse ela, ainda chutando o cho.
-- Espero que seu dia seja bom. -- A voz dela tremeu nova-
mente, como se estivesse prestes a chorar.
    Talvez pela segunda vez em sua vida, Brandon queria so-
car alguma coisa. Por que Easy roubava todas as garotas legais?
E ser que isso significava que alguma coisa tinha acontecido
mesmo entre os dois?
    A aula seguinte de Brandon era de biologia celular e
molecular e ele estava dois minutos atrasado. Ele se sentou na
carteira e olhou de um jeito maligno para a menina de cabelo
louro comprido que estava sentada na frente dele. Ela usava
um anel de ametista cintilante na mo direita e cheirava vaga-
mente a cigarros e perfume Jean Patou Joy. Ela se virou e tor-
ceu os cantos da boca bonita, num beicinho de batom Chanel,
em um meio-sorriso.
    -- Oi, Brandon -- cricrilou Callie. -- Conheceu algu-
ma garota legal no vero?
    Brandon deu de ombros, desviando os olhos para janela
                                                           163
panormica da sala de aula e vendo um bando de gansos a ca-
minho do sul, grasnando de cabea esticada. Ele no conhe-
ceu garota legal alguma no vero, mas conheceu uma no
primeiro dia de volta  escola. Como podia evitar que a Waverly
estragasse a Jenny como tinha feito com Callie?
164
     OwlNet           Caixa de Mensagem Instantnea
BennyCunningham:     E a elas no esto se falando mais.
    CelineColista:   Viu o SALVE A TINSLEY! no quadro
                     delas?
BennyCunningham:     Acho que as duas queriam que ela fosse
                     embora -- vc sabe que o Easy estava
                     amarrado na Tinsley.
    CelineColista:   Agora C est sendo legal com aquela
                     putinha da Jenny, embora ela
                     praticamente tenha transado com o
                     namorado dela. S para irritar a B.
BennyCunningham:     Meu Deus, essas cretinas so malucas!
       OwlNet         Caixa de Mensagem Instantnea
     SageFrancis:    Ento o quadro de avisos de Angelica
                     Pardee levou um pnei! Voc acha?
BennyCunningham:     Ela  casada. E velha.
     SageFrancis:    Talvez ela tenha uma paixo secreta por
                     Heath...
BennyCunningham:     Quer apostar como eu pergunto isso a
                     ela no check-in da noite?
     SageFrancis:    Aimeudeus, pergunta!
                                                               165
                              18
     UMA WAVERLY OWL NO DEVE SE PRENDER
       AO PASSADO -- ESPECIALMENTE SE FOI
              CHEIO DE EX-NAMORADOS.
C
          allie se sentou na aula de biologia e sentiu olhos que
          claramente no eram de boas-vindas. No era o en
          carar vago dos gatos mortos e emaciados que esta-
vam dispostos nas bandejas metlicas de dissecao no labo-
ratrio. Brandon Buchanan no parava de encar-la.
    J havia se passado quase um ano desde que eles termina-
ram. Ela foi a uma festa da revista de literatura da Waverly, a
Absinthe, na biblioteca, sem pretender terminar tudo. Mas a
festa foi classicamente romntica -- eles reduziram as luzes
da biblioteca e cobriram as paredes com uma tela de gaze gros-
sa. Uma msica antiga e melindrosa dos anos 1920 saa baixa
dos alto-falantes e todos foram instrudos a usar um traje de
gala criativo. Easy estivera l. Ela conhecia Easy,  claro -- o
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crculo ecltico da elite da Waverly era pequeno -- mas no
muito bem. Ela sempre o achou sensual e misterioso, com um
jeito de artista sensvel, e ela o pegou olhando-a algumas ve-
zes na capela. Quando Brandon saiu para pegar uma bebida
para os dois, ela fez contato visual, pensando que ia azarar
inocentemente Easy do outro lado da sala. Mas ele se aproxi-
mou dela. E foi como naqueles documentrios sobre o mun-
do natural da PBS em que o leo ataca uma gazela. Aconteceu
to rpido que ela nem sabia o que a atingira.
    Ela teria alegado que Easy colocou alguma coisa em seu
copo, mas ela ainda nem tinha bebido nada. S alguns segun-
dos depois, eles escapuliram para a sala de livros antigos da
Waverly como se precisassem desesperadamente encontrar
aqueles volumes empoeirados dos sonetos perdidos de John
Donne. Afundando em uma das poltronas de couro gasto, eles
se beijaram por horas, comunicando-se por telepatia enquan-
to suas lnguas se retorciam. No dia seguinte, Brandon soube
-- todo o mundo soube -- e Callie e Brandon terminaram na
hora do almoo.
    -- No final do semestre, vocs tero examinado os vri-
os sistemas corporais do gato e identificado cada rgo. -- O
professor elegantemente desgastado de biologia, o Sr. Shea,
andou pela sala. -- Em dezembro vocs tero uma prova oral
final, durante a qual devero identificar corretamente todos
os rgos.
    Dos fundos da sala, Heath Ferro riu baixinho das palavras
prova oral. O Sr. Shea ligou o projetor no alto e comeou a
apontar um diagrama de um gato. Callie olhou para Brandon
novamente. Os olhos dele continuavam fixos nela e ela virou
168
a cabea rapidamente. Ela rabiscou Pare de me encarar, seu per-
vertido, numa letra cursiva elaborada em uma folha de papel
em branco de seu bloco. Assim que terminou as letras, ela
rabiscou por cima com traos pretos e largos.
     De repente o celular dela vibrou no bolso de trs. Ela o
pegou devagar e discretamente o colocou no colo para que
ficasse escondido pelo tampo da mesa. Era uma mensagem
de texto de Benny, que estava sentada a trs filas de distncia.
     J pensou no grito de torcida?
     No, respondeu Callie.
     Todo ano, no Sbado Negro, as veteranas do time de h-
quei feminino davam um grito de torcida. Primeiro todo o
time dava um grito padro e chato. Depois era tradio que as
meninas mais velhas escolhessem uma titular mais nova do
time para dar outro grito mais maluco e constrangedor, levan-
do-a a acreditar que todas as meninas iam acompanh-la.
Compreensivelmente, a garota ficava totalmente mortificada
quando se via dando o grito sozinha. s vezes ela parava de
falar com as outras jogadoras por semanas. Mas assim que a
temporada comeava, ela invariavelmente acabava rindo da
histria, feliz por ter uma ligao com as meninas mais velhas
e descoladas. Era um trote ritual que comeou nos anos 1950
e, como co-capit deste ano, Callie era responsvel por ele.
     O telefone vibrou novamente. Acho que devemos pegar sua
nova colega de quarto, era o texto de Benny.
     Callie congelou, o corao pulando na garganta. De jeito
nenhum. Passar um trote em Jenny podia deix-la puta da vida
e Callie tinha que manter Jenny feliz. Acho que no, escreveu
ela. Ela nem  titular!
                                                            169
    Benny mandou outra mensagem rapidamente.  sim, sol-
taram a lista hoje. J viu a garota jogar? Ela fica meio que em toda
parte, mas  boa.
    Ela no, respondeu Callie rapidamente.
    Callie viu enquanto Benny digitava furiosamente no mi-
nsculo Nokia. Mas voc no est puta com ela por causa do EZ? A
gente pode deixar a garota totalmente sem-graa.
    Callie se endireitou na cadeira. Toda a escola estava falan-
do de Jenny e Easy e cochichando sobre Callie enquanto pas-
savam por ela nos caminhos de pedra do campus. Ela no
contou a ningum a verdade sobre Easy e Jenny -- era arris-
cado demais. Constranger Jenny era a ltima coisa de que
Callie precisava. No sei, digitou ela em resposta.
    Sage, Celine e eu achamos que  ela. O que a Brett acha?
    Como se ela e Brett tivessem discutido o assunto. Ou
qualquer coisa, alis. Ela suspirou e largou o telefone na bolsa
amarelo-clara da Coach, indicando que a conversa estava en-
cerrada.
    A sineta final tocou. Callie se levantou rapidamente e pe-
gou o bloco, esperando que seu cabelo no estivesse com chei-
ro de formaldedo. Ela sentiu uma mo no ombro e se virou.
Era Brandon, vestido em calas verde-oliva Zegna elegante-
mente passadas e mocassins Prada sem meias. Seu cabelo es-
tava cheio de reflexos dourados e ela se perguntou se ele tinha
usado um kit de luzes caseiro na noite anterior ou coisa as-
sim.
    -- Oi -- ela o cumprimentou.
    -- E a, o que o diabo fez, o diabo leva, hein? -- Os olhos
castanhos de Brandon estavam frios.
170
    -- Como? -- perguntou ela cautelosamente.
    -- Como se sente em ver algum roubar seu namorado
debaixo do seu nariz?
    Callie o encarou por um momento e sorriu por dentro.
Boa, Easy! Ele j deve ter azarado a Jenny em pblico. Mesmo
antes que ela tivesse a chance de falar com Jenny sobre isso.
    -- E a? -- insistiu Brandon.
    -- ,  um horror -- Callie engoliu em seco, tentando
parecer magoada.
    -- Voc no acredita em mim. -- Brandon deu de om-
bros. -- Mas eu sei de uma coisa que voc no sabe -- canta-
rolou ele.
    -- E a gente  o qu, aluno do primrio? -- zombou ela,
de repente odiando a perfeio das sobrancelhas de Brandon.
-- Preciso ir.
    Passando em disparada por um grupo de calouras que pa-
reciam muito novinhas, Callie parou no segundo andar.
    Os alunos passavam por ela enquanto ela se encostava na
parede de tijolinhos da escada. Ser que Brandon ainda espera
voltar com ela? Sem chances. Era quase to provvel quanto
Easy realmente se apaixonar pela baixinha Jenny Humphrey.
At parece que isso jamais pudesse acontecer.
                                                         171
           OwlNet           Caixa de Mensagem Instantnea
      RyanReynolds:    E a, soube alguma coisa de onde vai ser a
                       festa do Sbado Negro? Ouvi dizer que a
                       Tinsley vai dar...
      CelineColista:    mesmo? Eu soube que ela est tendo um
                       caso secreto com aquele cara do Entourage.
      RyanReynolds:    Meu Deus, espero que no. Eu morreria por
                       essa garota, ela  to gostosa.
      CelineColista:   Voc e todos os outros caras da escola.
      RyanReynolds:    Quer dizer do planeta.
172
                              19
   AO SER CORTEJADA COM PTALAS DE ROSAS,
             UMA WAVERLY OWL DEVE NO
                  MNIMO AGRADECER.
     E
              i! -- gritou Jeremiah, pulando do morro compri-
--            do dos campos de treino da Waverly para o gra
              mado. Brett pestanejou. Ele estava com uma ca-
miseta preta desbotada, calas de veludo bege amarrotadas e
Pumas verdes. Ele sorria tanto que Brett podia ver a fila torta
dos dentes de baixo. Jeremiah provavelmente estava delicioso
para todas as outras garotas do campus mas, para Brett, ele pa-
recia imaturo e sujo.
    -- Oi -- gritou ela, notando o tremor inegvel na voz.
Jeremiah disparou numa corrida, o cabelo ruivo e macio vo-
ando atrs dele. Ele lhe deu um beijo e passou os braos for-
tes em sua cintura.
    -- Gata -- murmurou ele agressivamente. -- Parece que
                                                           173
no vejo voc h um milho de anos. Sinto que estamos to
longe um do outro.
     Argh.
     -- Bom, isso  idiotice -- Brett corou, pegando a mo
dele. -- A gente se falou ontem.
     -- Voc est bem? -- Jeremiah a apertou. -- Parece to...
sei l. Nervosa.
     -- Ah, no. -- Brett tentou sorrir. -- S estou feliz.
     Ah, , ela estava feliz, mas no por Jeremiah. Com o al-
moo perturbador e absolutamente mgico com o Sr. Dalton.
Antes de sair da sala dele, ele tocou no ombro dela e a convi-
dou para ir jantar um dia. Os lbios nervosos e retorcidos dele
quando fez o convite, os olhos brilhando quando ela disse sim.
Jantar, jantar, jantar com Eric! E eles iam sair esta noite!
     -- Vamos para o gazebo, n?
     Brett voltou a prestar ateno nele.
     --  -- guinchou ela. O antigo gazebo branco ficava ani-
nhado em um grupo de salgueiros-chores e se postava na
margem do Hudson. Era um local famoso da Waverly para os
namorados. Na verdade, era to popular que na primavera
passada os alunos distriburam uma ficha de reserva do gazebo
para que ningum interrompesse a vida de outro casal. Tinha
um confortvel balano para dois. Havia um espao aberto no
alto do gazebo, ento  noite era possvel ver as estrelas. --
Mas no podemos ficar muito tempo, porque tenho que me
preparar para o jantar.
     -- Tudo bem.
     Eles andaram juntos pelo caminho de pedra, de mos da-
das, pelos hectares de gramado e antigos prdios de tijolos
174
aparentes com ornamento branco reluzente de cada lado de-
les. O cu estava ficando nublado e Brett no tinha certeza se
era a umidade ou seus nervos, mas ela definitivamente estava
suando um pouco. Jeremiah de repente parou e pegou as mos
dela. Os alunos andavam pelo campus, seguindo para os aloja-
mentos para a hora de visita antes do jantar, todos olhando
Brett e o namorado gato de cabelo macio.
     -- Eu senti muito a sua falta. -- Ele a beijou na testa. --
Queria que as escolas ficassem mais perto, sabia?
     -- Elas s ficam a 15 quilmetros de distncia -- disse
Brett rudemente, olhando frentica em volta. Eles estavam
parados bem no meio do gramado, em plena vista do Stansfield
Hall. Se Eric olhasse pela janela da sala dele, veria os dois. --
No  assim to longe.
     -- Bom,  bem longe para mim.
     -- Vamos para o gazebo. -- Ela pegou o brao dele rapi-
damente. -- Podemos conversar l.
     -- Tudo bem. -- Jeremiah ps o brao grande e aconche-
gante em torno dela. -- E a, como est aqui? Tem algum pro-
fessor novo que seja anormal?
     -- Humm...
     -- Eu soube que vocs tm um cara novo. Um que  rico
de verdade?
     -- No sei... -- Brett meio que achava que todos os pro-
fessores ou eram ricos de verdade e no precisavam de em-
pregos remunerados ou eram realmente pobres e
desesperados.
     -- Eric Dalton. J o conheceu?
     O corao dela parou. Ela olhou Jeremiah na cara. Ele a
                                                             175
estava testando?
    -- Er...
    -- Voc saberia se o tivesse visto. Ele  um Dalton.
    -- Como assim, um Dalton?
    Jeremiah olhou para ela como se estivessem saindo ver-
mes pelo nariz de Brett.
    -- Isso  uma coisa s de Massachusetts? Sabe. Um
Dalton. O av dele era Reginald Dalton. Tem... Tem, tipo
assim, um complexo gigantesco com o nome dele em Boston.
Aquele que sempre tem a rvore de Natal grande, sabe?
    Na casa dos Messerschmidt em Rumson, havia uma foto
de Brett aos quatro anos, num vestido de veludo vermelho,
segurando um chihuahua de pelcia, parada debaixo da rvo-
re de Natal de Dalton. D! Meu av era do ramo de ferrovias.
Minha famlia tinha uma casa em Newport. As palavras de Eric
voltaram a ela. Ela nunca pensou que ele era um Dalton Dalton.
    Brett vira especiais na TV sobre eles, de biografias histri-
cas na PBS a fofocas escandalosas do tipo eles-so-piores-do-
que-os-Kennedy no E!. Ela soube que o av dele, Reginald
Dalton, era herdeiro de uma fortuna em ferrovias. A famlia
possua Lindisfarne, a maior manso de Newport, e isso h uns
cem anos. O pai, Morris Dalton, era dono de uma editora
internacional que ganhava zilhes de dlares e s publicava
os livros e revistas de maior classe. E sim, ela sabia que havia
um filho, mas ele era tmido demais e no gostava dos refle-
tores. Brett achava que ele era feio, ou um desajustado social,
ou as duas coisas e que a secretria de RP da famlia queria
manter a privacidade dele. Mas que erro cometeu!
    -- Acho que ele foi apresentado na capela -- murmurou
176
ela por fim a Jeremiah.
     -- Ah. Bom, at que enfim est chegando o Sbado Ne-
gro -- Jeremiah mudou de assunto rapidamente. -- Vai ser
divertido, n? A gente nunca vai a uma festa juntos, tipo as-
sim, durante as aulas.
     -- . -- Brett tirou a mo dele, fingindo precisar coar o
brao.
     -- Ei, agora fecha os olhos. -- Eles se aproximavam do
gazebo. A mo cheia de calos de lacrosse de Jeremiah cobriu
metade do rosto de Callie. -- Eu tenho uma surpresa.
     Ele a conduziu por alguns passos ao longo do gramado,
respirando excitado. A cada passo, Brett tinha uma sensao
cada vez mais pesada de medo. O que ela realmente precisava
era que Jeremiah fosse embora para ela poder se sentar e pen-
sar. Eric era Eric Dalton? De verdade?
     -- T legal, pode abrir agora. -- Jeremiah retirou a mo
do rosto dela. Brett arfou. No meio do gazebo de madeira
branca, havia um enorme buqu de tulipas negras cercado por
montes de ptalas de rosa cor de vinho. Ela nunca vira tantas
flores em um s lugar antes. Devia haver centenas delas ali.
     -- Eu gosto das pretas -- disse ela num tom agudo. Como
? Mais parecia que ela era obcecada por elas.
     -- Voc disse uma vez quando passamos pela floricultura
em Manhattan. -- Ele fez uma mesura, dando um pulo ani-
mado, como um garotinho que acaba de levar o caf-da-ma-
nh na cama para os pais.
     -- Eu... -- comeou Brett. Este era o tipo de coisa que
Callie sempre rezou em segredo para que Easy fizesse para ela,
e ele nunca fez.
                                                           177
    -- E aqui. -- Jeremiah estendeu um envelope branco da
United Airlines. Brett o abriu e viu que era uma passagem de
ida e volta de primeira classe para San Francisco. Ela olhou
para ele de um jeito interrogativo.
    -- Meu pai est abrindo um restaurante na Newbury
Street em Boston, e ele vai viajar a Sonoma para provar vi-
nhos. Ele disse que eu podia te levar. Mas ele vai deixar a gen-
te totalmente a ss. Vai ser no Dia de Ao de Graas.
    Brett abriu a boca, mas no saiu nada. Passear de carro pelos
vinhedos da Califrnia parecia timo, mas Jeremiah bebia
cerveja. Ela fechou os olhos e tentou imaginar os dois juntos
em uma vincola. Voc devia cuspir o vinho depois de provar,
mas Jeremiah era o tipo de cara que preferia engolir e ficar de
porre. Ele estava se esforando muito. Meio demais. Alm dis-
so, o Dia de Ao de Graas parecia to longe. E se... E se ela
passasse o Dia de Ao de Graas com Eric?
    Como  que ? Eles ainda nem se beijaram. Mas ela ainda
podia sonhar...
    -- Que timo. -- Ela forou um sorriso, olhando mara-
vilhada para as flores novamente.
    Jeremiah a abraou por trs e beijou seu pescoo com de-
licadeza.
    --  meu jeito de dizer a voc que eu senti saudades suas,
gata.
    -- Bom, definitivamente ... alguma coisa. No sei o que
dizer.
    -- Que tal obrigada? -- A voz de Jeremiah parecia meio
tensa de repente, como a de uma me repreendendo um fi-
lho.
178
   Brett riu, nervosa.
   -- Tudo bem. Obrigada -- respondeu ela, fazendo biqui-
nho para dar um beijo tenso no rosto dele.
   Ele virou a cabea e pegou o beijo dela na boca.
   -- No h de qu, sem dvida alguma.
                                                      179
           OwlNet              Caixa de Mensagem Instantnea
      SageFrancis:   Ento eu vi Brett e o namorado gato dela de St.
                     Lucius indo para o gazebo, mas ela parecia
                     infeliz. Benny me disse que ela acha que Brett
                     gosta de outro. Vc sabe de quem?
  CallieVernon:      Humm...
      SageFrancis:   Eu soube que ela est saindo escondido com um
                     cara entre as aulas.
  CallieVernon:      Um cara dessa escola? Quem?
      SageFrancis:   Sei l, mas ele pode ser mais velho. Tipo
                     veterano.  o que a Benny acha.
  CallieVernon:      Sei.
      SageFrancis:   Vc no sabia? Vocs esto brigadas total?
  CallieVernon:      Mais ou menos. Acho que sim.
180
       OwlNet            Caixa de entrada de E-mail
   Para:   Todos os Novos Alunos
     De:   ReitorMarymount@waverly.edu
   Data:   Quinta-feira, 5 de setembro, 17:01h
Assunto:   Bem-vindos!
Caros novos alunos,
Bem-vindos  Waverly! Espero que seu primeiro dia de aulas tenha
sido bom.
Esto convidados para um sorvete para todos os calouros e alunos
transferidos na sexta-feira  noite, depois do jantar. A festa do
sundae vai comear s 20:00h.  uma tima oportunidade para
fazer novos amigos!
Lembrem-se,  um evento obrigatrio.
No se preocupem, vou levar os confeitos!
Reitor Marymount
                                                                181
                                20
UMA WAVERLY OWL DEVE RESISTIR  TENTAO --
 EM ESPECIAL SE A TENTAO FOR O NAMORADO
                 DA COLEGA DE QUARTO.
N
             aquela noite, antes do jantar, comeou a chover
             muito. Jenny se enfiou embaixo do mohair azul-
             claro que a av tricotara para o pai dela quando ele
estava na faculdade, em Berkeley, e leu trechos de Madame
Bovary para a aula de ingls. O novo aluno ficara ao fundo, no can-
to, atrs da porta, quase fora de vista, comeava um captulo. L-
grimas melanclicas encheram os olhos de Jenny. Ela leu o
livro no ano passado na Constance Billard e sabia que no tra-
tava deste rapaz -- tratava de Emma Bovary, que s queria ir
a festas e dormir com homens que no eram o marido dela --
mas ainda assim, ela simpatizou com esse novo aluno rstico
que estava sendo ridicularizado pelos meninos da escola pre-
paratria. Ela se perguntou se o aldeo um dia foi acusado
                                                               183
injustamente e teve que escolher entre a popularidade e ter
um X disciplinar grande e preto ao lado de seu nome.
    Uma chave tilintou na porta e Callie entrou de repente,
carregando vrias sacolas de compras. Jenny rapidamente en-
xugou os olhos na l spera da manta, deixando-os ainda mais
vermelhos do que j estavam.
    -- Surpresa! -- cantarolou Callie, puxando uma bolsa de
maquiagem de couro Louis Vuitton de uma das sacolas. --
Comprei um esmalte novo e um monte de maquiagem tam-
bm. Vai ficar um tempinho por aqui?
    -- Er, vou. -- Jenny fez uma pausa, confusa. Ser que
Callie estava falando com ela porque Brett no estava ali, ou
isso fazia parte da festinha de puxa-saquismo de Callie? Jenny
ganhara outro certificado de presente digital de Callie esta tar-
de: cinqenta dlares em iTunes. Estava comeando a pare-
cer os 12 dias de Blackmail Christmas.
    -- Legal. -- Callie desligou o CD player, Jenny estava
ouvindo uma msica horrvel de Yo La Tengo, e colocou
Modest House. -- E a, como foi seu primeiro dia de aula?
    -- Humm, foi bom -- respondeu ela mecanicamente,
recostando-se na parede atrs da cama.
    -- Olha, eu s quero agradecer a voc por me salvar da
escola NASCAR. -- Callie riu, dando a Jenny um potinho de
Ben & Jerry's Phish Food, o sorvete preferido dela. Como 
que ela sabia?
    -- Bom, quer dizer... -- Jenny gaguejou. -- Eu no disse
nada, de um jeito ou de outro.
    -- Eu sei -- respondeu Callie alegremente. -- E est tudo
bem. Voc no precisa dizer nada ao Sr. Dalton. Quando fala-
184
ram que vai ser a audincia do CD, alis?
    -- Na segunda.
    Callie abriu o prprio pote de Phish Food e mergulhou
nele uma colher de plstico. Ela tombou a cabea de lado e
analisou Jenny com cuidado.
    -- Sabe de uma coisa, seu cabelo fica lindo desse jeito --
disse ela por fim.
    -- Ficou maluca? -- Jenny tocou a cabea. Estava cho-
vendo e seu cabelo explodira em uma bola frisada. Ela o pren-
dera em um rabo-de-cavalo, mas mechas cacheadas se
projetavam para todo lado, danando em volta de seu rosto.
    -- , eu gosto mesmo dele.  meio... desconstrudo --
disse ela. -- E a, a reunio com Dalton foi boa?
    Jenny grunhiu.
    -- Acho que sim.
    Callie tentava tirar uma colherada de sorvete do potinho,
mas estava gelado demais e a colher de plstico ficava se cur-
vando.
    -- Ento voc acha que talvez v me dar cobertura no CD?
    -- Talvez -- disse Jenny. -- Eu no...
    --  claro que vai -- interrompeu Callie. -- E eu preciso
que voc me faa outro favor. Bom, no  bem um favor. Vai
ser divertido.
    Jenny a encarou. Outro favor? Ser que Callie no devia
estar puxando o saco dela? Claro que ela no tinha exatamen-
te devolvido a cesta de beleza nem o certificado de iTunes, mas
espera a!
    Callie dava estocadas no sorvete com a colher fazendo, por
fim, um talho.
                                                           185
    -- Pode parecer meio estranho, mas eu estou me pergun-
tando se voc pode azarar meu namorado um pouco.
    Jenny se interrompeu e respirou fundo.
    -- Quer dizer... O Easy?
    -- .  s que, para que isso d certo, precisa parecer cr-
vel que vocs dois se gostam, entendeu?
    -- Voc quer que eu... D mole para ele? -- repetiu Jenny.
    -- . Tipo assim, sei l. Vai jantar com ele. Talvez um
encontro entre as aulas. Nada muito grande. S para que os
professores vejam vocs dois.
    Jenny a encarou. Ela devia estar irritada -- azarar Easy a
incriminaria mais, no ? Mas em vez disso, seu corao mar-
telava febril.
    -- Voc no quer fazer isso, quer? -- Os ombros de Callie
arriaram. -- Ento ele bebeu meio demais, mas ele  um doce,
voc s precisa conhecer.
    -- Eu...
    Houve uma batida na porta de repente.
    -- Oi! -- gritou Benny Cunningham, entrando no
quarto. -- Estou interrompendo?
    -- A gente s estava, humm, tomando um sorvete --
explicou Callie em voz baixa. -- Eu te ofereceria um pouco,
mas ainda est gelado demais.
    -- Aqui est a garota que eu queria ver -- exclamou
Benny, apontando para Jenny.
    -- Eu? -- perguntou Jenny, apontando para si mesma.
    -- . -- Benny puxou as mangas do cashmere verde. --
Voc vai jogar hquei de campo como titular, no ?
    -- , entrei no time hoje. -- Jenny ainda no acreditava
186
que ia jogar hquei pela Waverly. Era to surreal.
     -- timo! -- guinchou Benny. -- Estvamos pensando
se voc queria fazer parte de nosso grito de torcida do Sbado
Negro. Em geral  para veteranas, mas escolhemos umas
meninas mais novas tambm. Voc  do segundo ano, no ?
     -- Sou. -- Jenny olhou para Callie. -- Grito de torcida?
     Callie vacilou. Quando Jenny lhe deu as costas, ela mur-
murou para Benny, Eu disse que no quero.
     Benny a ignorou.
     -- .  bem divertido. A gente faz um novo todo ano e
atormenta o St. Lucius com ele. Mas  s um grupo pequeno
de meninas, entendeu?
     -- Jia. -- A cara de Jenny se iluminou. -- Isso parece
bem divertido.
     -- Jia? -- perguntou Benny. -- Voc sinceramente dis-
se jia, no disse? -- Ela riu, mas Jenny sentiu que no foi nada
simptico.
     -- Humm, quer dizer, legal -- Jenny se corrigiu,
constrangida. Jia! Como a Velha Jenny pde sair com essa?
     -- ? -- Benny ergueu as sobrancelhas para Callie. Callie
fez uma carranca. -- Demais!
     -- Voc tambm vai dar o grito? -- perguntou Jenny a
Callie.
     -- Na verdade, como Callie  capit,  ela que escreve o
grito -- explicou Benny.
     --  mesmo? -- perguntou Jenny, curiosa. Agora lhe
ocorria que estar no time de hquei seria como pertencer a
uma irmandade. Jenny tinha toda uma nova famlia de irms.
Era meio bacana.
                                                             187
    Callie engoliu em seco.
    -- Estou trabalhando nisso.
    -- S termine antes do sbado -- acrescentou Benny. --
T legal, tenho que ir na reunio da revista de literatura. Eu
s queria ter certeza de que a Jenny estava nessa. Tchauzinho!
-- Ela bateu a porta.
    Jenny se virou para Callie.
    -- Vocs fazem coisas bem divertidas por aqui.
    --  -- respondeu Callie baixinho. -- Eu no levaria
muito a srio, sabe?  s um grito de torcida idiota.
    Jenny deu de ombros e lambeu um pouco do sorvete ge-
lado demais na colher de plstico. Deixando de lado os boatos
da piranhagem, as titulares do time de hquei queriam que
ela desse o grito de torcida com elas. Isso no era o mximo?
    A porta se abriu novamente e Brett entrou, o gorro azul
de tweed Eugenia Kim ensopado e o cabelo ruivo curto colado
na cara. Assim que viu as duas, um olhar de irritao se insta-
lou no rosto perfeitamente cinzelado.
    -- Pensei que vocs estivessem estudando  noite.
    -- No -- respondeu Callie. -- Estamos fazendo uma
festinha de sorvete e maquiagem.
    -- Ah. -- Brett atirou o gorro no cho.
    -- Por que voc est toda molhada? -- perguntou Callie,
parecendo mais cretina do que o necessrio.
    Brett tirou a capa de chuva Burberry cqui que chegava
at a coxa e a atirou no cho.
    -- O Jeremiah veio aqui. A gente ficou preso na chuva.
    -- Jeremiah? -- Callie se endireitou, pensando na men-
sagem instantnea que tinha recebido de Sage mais cedo. --
188
Vocs conversaram a srio?
    Brett olhou para ela sem entender.
    -- A srio? A gente... Sei l. A gente ficou.
    Callie a encarou, um meio-sorriso na cara. Sem essa. Elas
eram grandes amigas. Se Brett gostava de outro cara, certa-
mente ia contar a Callie. Havia muitos veteranos gatos na es-
cola -- Parker DuBois, por exemplo. Parker era meio francs,
tinha olhos azuis grandes e penetrantes e fazia fotografia, ten-
do passado o vero tirando fotos de artistas novos e nervosinhos
para o suplemento de moda da edio de domingo do New
York Times. Callie podia ver Brett gostando de Parker. Ela es-
perou, fitando com os olhos castanhos os olhos verdes de Brett.
At que Brett baixou os olhos em silncio.
    -- Quem  Jeremiah? -- Jenny rompeu o silncio.
    -- Acho que o Jeremiah  o namorado da Brett. -- Callie
tentou pegar os olhos de Brett de novo, mas no conseguiu.
Ela suspirou. -- Ele  lindo e atltico,  um doce e d as me-
lhores festas do St. Lucius.
    -- Jia -- Jenny no conseguiu deixar de exclamar nova-
mente, tentando esconder sua surpresa. Pelo modo bajulador
como Brett agira na reunio da manh na sala do Sr. Dalton,
Jenny achava que ela estava sozinha.
    -- Por que voc no trouxe o Jeremiah ao quarto? --
perguntou Callie. -- Ou vocs dois s ficaram pegando chu-
va no meio dos campos de treino?
    Jenny observou Callie falar com Brett. Ela estava fazendo
uma coisa que algumas pessoas faziam quando queriam pare-
cer legais, animada e interessadas, enquanto no fundo esta-
vam pensando coisas bem ruins, e no se pode chamar a
                                                            189
ateno delas porque elas se limitam a te chamar de parani-
ca.
    Brett revirou os olhos.
    -- No, a gente no fez nada l. Por que algum ia que-
rer ficar no campo? Que tosco. Voc e Easy j transaram no
campo? Voc e Brandon j transaram no campo? -- Brett
marchou para o armrio e pendurou o casaco.
    -- Caraca. Algum est na TPM -- zombou Callie,
examinando as unhas.
    Jenny ainda pensava em como Brett tinha paquerado o Sr.
Dalton quando ouviu o nome de Brandon.
    -- Ela disse Brandon? -- perguntou Jenny a Callie. --
Tipo assim, Brandon Buchanan?
    -- . Eu fiquei com ele por quase um ano. Ele no te
contou isso?
    -- No.
    -- T. Achei que tivesse contado a todo mundo. Uma vez,
no inverno passado, todo um bando de alunos foi a Park City
para fazer snowboard e Brandon conheceu um grupo de tu-
ristas suos e contou a eles todos os detalhes de nosso relaci-
onamento atormentado, embora a gente j tivesse terminado
quela altura. E depois ele me pediu a noite toda para ir  sau-
na com ele.
    Jenny torceu o nariz. Isso no parecia nada tpico de
Brandon.
    Callie sacudiu a cabea.
    -- Eu sei. O que  isso! Saunas so cheias de germes.
Ningum vai a uma sauna, a no ser os gays velhos.
    -- Saunas so legais, Callie -- Brett contradisse do closet.
190
-- O Easy foi  sauna nessa viagem.
    Callie corou e esticou o lbio inferior.
    -- De qualquer forma -- sussurrou ela para Jenny. --
Onde estvamos mesmo? Ah. Easy. E a, o que voc acha?
    -- Bom, eu acho... -- comeou Jenny. Ela meio que que-
ria perguntar, Quer que eu d mole mesmo para o Easy? Mas tal-
vez essa fosse uma pergunta da Velha Jenny. E ele tocara as
costas da Nova Jenny...
    -- Do que vocs esto falando? -- quis saber Brett, sain-
do do closet.
    -- Nada! -- responderam Callie e Jenny em unssono.
    -- Que legal -- continuou Callie, virando-se para Jenny.
-- Vai ser divertido. O Easy  um doce. E vai acabar tudo logo.
    Jenny mordeu o lbio. No to cedo, esperava ela.
                                                           191
                                21
              UMA WAVERLY OWL DEVE SER
                   FIEL A SUAS ORIGENS.
A
           lguns minutos mais tarde, depois que a chuva passou
           e o cu de final de vero comeou a assumir um tom
           alaranjado, os alunos andaram em grupos pequenos
de seus alojamentos para o salo de jantar e Brett desceu o
caminho de pedra para a recepo da Waverly. Um vento ge-
lado de repente levantou a beira do cachecol de seda pura cin-
za Herms, o que fez Brett pensar no inverno. A maioria dos
garotos odiava o inverno na Waverly, porque voc ficava pre-
so entre quatro paredes e no tinha nada para fazer a no ser
assistir a filmes velhos na biblioteca e ir para as aulas. Mas Brett
adorava. A diretora do alojamento acendia lareiras nas salas de
uso comum e os professores cancelavam as aulas no primeiro
dia de neve. s quatro horas j estava escuro e ela e Callie to-
mavam chocolate quente com menta enquanto fofocavam
                                                                193
sobre as mais recentes paixonites. Brett tinha certeza de que
no ia tomar chocolate com Callie neste inverno -- elas mal
estavam se falando --, mas talvez ela tivesse outra pessoa com
quem dividir o chocolate. Nua.
    Enquanto ela se desviava de alguns esquilos gordos que
brigavam por um Cheeto, o celular de Brett bipou com uma
mensagem de texto. Desculpe ter desligado antes, dizia. Te amo,
Maninha!
    Brett rapidamente retornou a ligao para Bree e caiu na
caixa postal.
    -- Estou prestes a sair para jantar com um Dalton -- sus-
surrou ela deliciada ao telefone. -- Fique com inveja. Muita
inveja. -- Depois desligou.
    Brett entrou na recepo, uma sensao de vertigem e aci-
dez inflamando a boca do estmago. O saguo estava vazio e
exemplares de The New Yorker, The Economist e National
Geographic estavam arrumados com elegncia na enorme mesa
de centro de teca. Uma sinfonia de Vivaldi tocava no apare-
lho de som. O piso de cerejeira antigo guinchava sob suas botas
Jimmy Choo pretas de salto 7 centmetros enquanto Brett se
aproximava da recepcionista cinqentona, a Sra. Tullington.
    -- Preciso de um passe para a noite -- disse Brett casual-
mente. E, porque sempre se precisava de um motivo adequa-
do: -- Vou acompanhar meu tio em um leilo de artefatos
russos antigos e ovos Faberg em Hudson.
    Brett sabia que uma mentira era mais convincente quan-
do voc atirava um monte de detalhes ridculos.
    A Sra. Tullington olhou para Brett por sobre os culos de
aro de tartaruga. As rugas em volta da boca aumentaram de
194
desaprovao. Brett vestia uma saia Armani preta risca-de-giz
aberta na lateral. Os lbios pintados de Vincent Longo esta-
vam de um vermelho vivo, os braos plidos estavam nus e o
decote em V da blusa de seda preta era to baixo que quase era
possvel ver a renda preta do suti Eres.
    Por fim a Sra. Tullington assinou o passe.
    -- Divirta-se com os ovos -- disse ela toda empertigada.
-- E com seu tio.  bom saber que vocs, meninas, mantm
contato com a famlia.
    O caso era que se a Sra. T se incomodasse em olhar pela
janela do prdio, teria visto Brett entrar em um Jaguar 57 ver-
de -- um carro que definitivamente no pertencia ao tio de
Brett, um misto de ator-desempregado-com-personal-trainer
quarento que fazia malhar novas mames flcidas na acade-
mia Body Electric em Paramus. Eric estava de jeans azul-es-
curo True Religion apertado e camisa branca. Brett cobriu os
joelhos com a saia, sentindo-se meio produzida demais.
    -- Voc est linda. -- Eric sorriu, pegando a alavanca de
cmbio de um jeito sexy.
    -- Ah. Obrigada.
    Uma msica de Sugir Rs tocava no CD player Bose. As
janelas estavam arriadas e uma brisa fria de final de vero en-
trava no carro.  medida que eles desciam suavemente a coli-
na da frente da Waverly e passavam pelos campos de treino,
Brett sentiu um estremecimento sbito e desnorteante. Tal-
vez eles estivessem deixando a escola para sempre -- e nunca
mais voltassem. Mans. Ela pensou em todos os outros senta-
dos para jantar agora no salo. s quintas-feiras era massa com
molho de tomate aguado e um frango frito nojento.
                                                           195
     Ela deu uma espiada no perfil de Eric -- o nariz meio ar-
rebitado e o queixo perfeito, com uma barbinha, e depois
olhou a pulseira de correntinha de platina que ele usava no
pulso direito. Parecia uma coisa que uma garota teria dado a
ele.
     --  de meu trisav -- explicou ele, percebendo que ela
olhava. Ele sacudiu a pulseira. -- Gosta?
     -- Sim -- respondeu ela sem flego. A pulseira era prati-
camente um tesouro americano. --  linda.
     Eles saram do terreno da Waverly e entraram na cidade,
que era essencialmente uma rua principal com postes peque-
nos de ferro batido, uma loja de arte, uma floricultura, uma
barbearia com o poste giratrio e algumas casas no estilo Fe-
deral. Brett imaginou que eles iam para o Le Petit Coq. Era o
lugar para onde a famlia dela sempre a arrastava durante o Fim
de Semana dos Pais porque era arrogante e francs e era o nico
em quilmetros que servia foie gras. Mas o Jaguar passou dire-
to, sem sequer reduzir. Ele passou voando pelo shopping nos
arredores da cidade, e tambm pelo McDonald's e pelo
cineplex.
     -- Acho que eu devia ter perguntado. -- Eric se virou para
Brett. -- At que horas pode ficar fora?
     -- Meia-noite -- disse Brett. Agora eram seis horas.
     Eric sorriu.
     -- Isso nos d seis horas.
     Ele entrou em um estacionamento espaoso, desceu por
uma ruela e depois contornou um prdio grande e achatado
de concreto. Era o aeroporto de Waverly, o lugar onde ela che-
gara no pequeno avio dos pais alguns dias antes. Na pista,
196
havia um pequeno Piper Cub. Um homem de casaco verde e
bon dos Boston Red Sox estava parado ali, mascando um
charuto apagado na pista, ao lado do avio. Ele acenou e Eric
retribuiu o aceno.
    -- Aonde vamos? -- quis saber Brett. Seu corao batia
veloz. Ela no sabia o que esperar, mas sabia o suficiente para
ficar excitada. Se esta sada envolvia um avio -- ela no con-
seguia imaginar aonde eles poderiam ir. Mas que merda, por-
ra!
    Eric desligou o motor do carro.
    -- Eu estava pensando que talvez a gente pudesse comer
alguma coisa melhor do que o galeto especial do Little Rooster.
    -- Indo para Lindisfarne? -- gritou o cara de casaco de
aviador.
    --  isso mesmo -- gritou Eric em resposta.
     claro. Eles iam par a propriedade da famlia em Newport.
Brett mal conseguiu se conter. Parecia aquele filme meloso,
O dirio da princesa. S que ela era muito mais descolada do
que aquela magricela da Anna Hathaway, e ele era um Dalton!
    Brett s havia visto Lindisfarne no especial do E! True
Hollywood, ento, quando o Piper Club tocou a pista da pro-
priedade, uma sensao irreal de resplendor tomou conta dela.
A manso de frente para o mar era um castelo de pedra cober-
to de hera, com torrees, um fosso e tudo o mais. Ela at se
lembrava do especial do E! de que cisnes raros nadavam no
fosso que circundava a manso em vez de crocodilos, embora
Brett no os visse agora. Talvez estivessem dormindo. E en-
quanto ela saa do avio para o gramado macio e perfeitamen-
                                                           197
te bem-cuidado, at o ar salgado do mar parecia aristocrtico.
Brett e Eric levaram dez minutos andando da pista de pouso
at a manso. Foram recebidos pelo labrador amarelo gordu-
cho e amistoso do zelador, Mouse, antes que fosse chamado
por seu dono  distncia, que acenou para Eric.
    Primeiro Eric mostrou a propriedade a ela, levando-a para
a casa por uma das pesadas portas de carvalho escuro e entrando
na sala francesa, que era redonda, com uma rotunda alta e
detalhes brancos. Brett mal conseguia respirar. Tudo na vida
dela que podia acontecer depois deste momento -- digamos,
ir para uma universidade da Ivy League, ou se mudar para um
loft em Tribeca, ou conhecer o presidente da Frana -- era
plido em comparao a ficar parada na imponente sala fran-
cesa azul, admirando os Monets grandes e fora de foco nas
paredes.
    Brett estava to sobrepujada, que mal conseguia se con-
centrar enquanto ele a levava de uma sala a outra. Depois ele
a guiou de volta ao lado de fora at a casa de hspedes, um
chal verde desbotado com um enorme deque nos fundos e
escada de madeira dando pra o mar. A maioria das casas de
hspede consistia em um quarto e uma pequena sala de estar.
A casa de hspedes de Lindisfarne era quase do tamanho da
casa no-to-pequena dos pais de Brett. L dentro, Brett se
sentou em um sof enorme de chintz, olhando as paredes bran-
cas cobertas de Warhol enquanto Eric mexia na cozinha. Se os
Dalton tinham empregados -- e Brett tinha certeza de que
eram muitos -- eles certamente sabiam quando deixar os
membros da famlia a ss.
    Eric serviu L'Evangile Bordeaux 1980 como um especia-
198
lista em duas taas Riedel gigantes. Ele no pareceu se impor-
tar que Brett fosse patentemente menor de idade.
     --  onde eu fico, principalmente, quando estou aqui --
explicou ele, girando o vinho na taa enquanto eles saam para
o deque de madeira que cercava a casa.
     S a alguns metros de distncia, as ondas se quebravam
nas rochas. Brett tomou um longo gole de vinho. Que vido.
     -- E ento -- comeou Eric. -- Brett Messerschmidt.
Quem  voc?
     Ele olhou para ela, mas no daquele jeito que os adultos
olham quando acham que voc  uma adolescente boba que
pode amadurecer e ser algum srio. Em vez disso, ele a olha-
va intensamente, como se ela realmente importasse. Brett to-
mou um gole de vinho, tentando desesperadamente pensar
em uma resposta brilhante e sucinta. Quem era Brett
Messerschmidt?
     -- Bom, eu gosto de Dorothy Parker -- respondeu ela, e
depois quis esmurrar a si mesma por parecer tanto uma estu-
dante convencida, idiota e imatura.
     --  mesmo? -- perguntou ele, mordendo o lbio como
quem diz, No era isso que eu queria saber. -- O que mais? Me
conte alguma coisa de sua famlia.
     -- Minha famlia? -- Ela engoliu em seco, as palavras
agarradas na garganta. Provavelmente era a pior pergunta que
Eric podia fazer. Ela sentiu o rosto ficar vermelho. -- Eu no
gosto muito de falar deles.
     -- Por qu? -- Ele tomou um gole de vinho. -- Posso
me arriscar a adivinhar?
     Ela deu de ombros.
                                                          199
    -- Como quiser. -- Ela esperava ter parecido tranqila,
embora estivesse enlouquecendo por dentro.
    -- Seus pais a tratam como uma princesa. Voc 
mimadinha.
    Brett tomou outro gole de vinho.
    -- Acho que sim -- disse ela cautelosamente. -- Voc
no?
    Eric sorriu.
    -- Acho que sim.
    -- Mas sim, a resposta  pergunta  sim, eu fui mimada
-- comeou Brett. A histria falsa da famlia que morava em
uma fazenda orgnica em East Hampton e dava festas benefi-
centes para aves ameaadas de extino parou na ponta da ln-
gua, pronta, mas ela se conteve. Alguma coisa no modo como
Eric a olhava a fez sentir que talvez ela pudesse contar a ver-
dade a ele, por mais constrangedora que fosse. Ela estava to-
mada de uma sensao de calma. -- A casa dos meus pais...
Minha me baseou em Versalhes -- comeou ela devagar. --
S que fica em... Bom, em Rumson, Nova Jersey.
    -- Eu conheo Rumson -- interrompeu Eric. -- Velejei
por l algumas vezes. Parece um lugar legal para viver.
    Brett o olhou com cuidado. Ele no parecia estar se diver-
tindo  custa dela. Ela tomou outro gole de vinho e depois
respirou fundo.
    -- Ento voc deve ter visto a casa dos meus pais -- pros-
seguiu ela. --  a maior da praia. Meus pais so meio como a
Famlia Soprano. Sabe como eles transpiram dinheiro, mas s
usam de formas muito estpidas? Eles so assim. S que no
so ilegais. E tm menos gosto, se  que isso  possvel.
200
    -- Ento a padronagem preferida da sua me  leopardo?
-- espicaou Eric.
    -- Ah, muito pior. Zebra. Em tudo. Na cala. Nas meias.
Banquetas de bar.  um horror. Minha irm... ela  editora de
moda... por vrias vezes ameaou abandonar nossa famlia.
    Eric riu.
    -- Minha me gosta de estampados escoceses. Parecem
uns espermatozoidezinhos.
    -- Eca! -- guinchou Brett.
    Ela se sentia tonta, embora tivesse tomado menos de uma
taa de vinho. Conversar sobre os pais com Eric no parecia
nada estranho. Ela se perguntou por que pensou, em todos
esses anos, que as coisas seriam melhores se ela tivesse uma
casa de campo em Cape Cod de tamanho normal e algumas
Toyotas em vez de dois Hummers dourados e iguais com in-
terior em couro, estampa de zebra e um M grande em ouro
(de Messerschmidt) incrustado nos apoios de cabea. Abrir-
se desse jeito era contagiante. Ela queria continuar.
    -- Minha me usa diamantes cor-de-rosa e s come tru-
fas Lindt e Zoloft, e tem sete chihuahuas pequenos com
coleiras de zebra iguais. Ela os leva a toda parte. E meu pai, ele
 cirurgio plstico. -- Brett soltou tudo isso num jato. Ela
no conseguia acreditar nas coisas que estava contando a Eric.
    -- Sim. -- Eric pousou o queixo na curva da mo. -- Me
conta mais.
    -- Tudo bem -- continuou ela, ansiosa. -- s vezes, no
jantar, meu pai leva umas clientes famosas e elas falam de coi-
sas bem revoltantes. Tipo como os peitos eram antes da cirur-
gia. E o que acontece com toda a gordura que eles aspiram das
                                                              201
pessoas. -- Ela se sentia libertada. Era como nadar nua.
    Eric se curvou para a frente.
    -- E o que  que fazem com ela?
    -- Usam as clulas dela -- sussurrou ela. -- Sabe como
, para pesquisa.
    -- De gordura? -- sussurrou ele tambm, parecendo meio
aterrado.
    Ela assentiu.
    -- Bom, humm, er, mas s vezes eles s jogam fora.
    Ele recuou e olhou para ela cuidadosamente com um sor-
riso de diverso na cara.
    -- Meu Deus, isso  um alvio.
    -- Alvio?
    Ele mudou de posio na cadeira e olhou para a gua. Um
veleiro branco pequeno e gracioso oscilava na frente da casa
de hspedes, a uns 150 metros da margem.
    -- Todo o mundo est sempre tentando se vangloriar...
At o pessoal da Waverly, que  muito mais privilegiado do
que a maioria. Quer dizer, ningum  sincero sobre quem 
ou sobre sua famlia. Quem liga se seu pai ganhou o prmio
Nobel ou se aspira gordura da bunda de umas mulheres de
Nova Jersey? O que isso tem a ver com voc?
    Ela o encarou.
    --  -- concordou ela. --  verdade.
    Ele a encarou tambm.
    -- Voc  diferente -- concluiu ele.
    Brett olhou nos olhos dele e tudo dentro dela parecia pres-
tes a explodir.
    -- Pode me dar licena? -- Ela deu um pigarro. -- Te-
202
nho que dar um telefonema.
     -- Claro. -- Eric recuou a cadeira e, enquanto ela se le-
vantava, ele at tocou de leve o quadril esquerdo dela. Ela parou
por um segundo enquanto o cabelo caa nos olhos. A mo dele
ainda estava ali. Depois um relgio do vov em alguma sala
distante soou e ele afastou a mo.
     Ela saiu para o gramado molhado de orvalho, acendeu um
cigarro e subiu a escada de um gazebo de madeira cercado de
lrios. Ela respirou o aroma doce, desejando no perder a co-
ragem. Brett discou e, depois de um nico toque, a voz de
Jeremiah apareceu na caixa postal. "Oi, no estou aqui. Deixe
seu recado, man!" Bip
     --  a Brett -- disse ela com a voz rouca, fervilhando com
o som da gravao meio canalha dele. -- acho que a gente no
deve se ver de novo. Ento, humm, no v  festa do Sbado
Negro depois do jogo. No posso explicar agora, mas  o que
eu quero. Eu, humm, lamento muito. Tchau.
     Brett voltou pelo gramado. Eric tinha sado da casa e esta-
va girando conhaque distrado em uma taa, o jeans escuro
enrolado at os joelhos. O cu amplo estava escuro e roxo, e
luzes pequenas cintilavam na gua. Ela podia ouvir as ondas
batendo na praia e o rugido suave de uma buzina de farol dis-
tante.
     -- Est tudo bem? -- perguntou ele, pegando o cigarro
dela para dar um trago.
     Ela assentiu. Depois, sem dizer nada, ele apontou para a
luz verde que cintilava no meio do mar.
     --  o meu barco. Eu no tenho aula s sextas-feiras, en-
to estava pensando em velejar at a Waverly.
                                                             203
    -- Eu gosto da luzinha verde -- refletiu Brett. -- me lem-
bra O grande Gatsby... Sabe como , quando Gatsby olha no
per de Daisy para ver se a luz est acesa?
    -- Claro -- disse ele. -- Talvez eu v deixar a luz acesa
um dia quando aportar na escola.
    Brett tentou no sorrir.
    -- Quem voc acha que estar procurando por ela? --
perguntou ela. Mas, pela expresso dele, Brett suspeitava de
que ele queria dizer uma garota muito especial de Rumson,
Nova Jersey.
204
                              22
   A AULA DE ARTE  O MELHOR LUGAR PARA OS
       WAVERLY OWLS CONTAREM SEGREDOS.
A
         aula de retratos s acontecia duas vezes por semana,
         s teras e quintas-feiras, e Jenny esperava ansiosamen
         te pela primeira aula do ano letivo. A Waverly tinha
um programa de belas-artes estelar e uma galeria envidraada
de frente para o rio com exposies pblicas organizadas pe-
los alunos. Em geral as peas dos alunos eram vendidas por
quantias surpreendentes. Normalmente, era preciso subme-
ter o trabalho a avaliao para ser aceito na aula de retratos,
mas como Jenny fora admitida na Waverly com base em seu
portfolio de arte, ela podia fazer o curso j no primeiro se-
mestre. Belas-artes era sua matria preferida e ela estava louca
para sentir o cheiro de tinta e se perder no processo de cria-
o.
    E sim, ver Easy Walsh tambm seria muito empolgante.
                                                            205
Em especial agora que ela tinha permisso para dar mole pra
ele!
     A aula acontecia em um prdio chamado Jameson House,
um chal irregular no estilo rural com sarrafos azuis, uma
chamin de pedra e um varal do lado de fora com bandeiras
americanas tingidas em um dos projetos de fabricao de te-
cidos do ano anterior. Dentro, o piso inacabado estalava e todo
tipo de desenhos e estudos de cor semi-acabados estavam pre-
sos na parede branca. As quatro salas enormes cheiravam a
aguarrs, fixador em spray, argila mida e o antiquado forno a
lenha. Jenny ficou parada l dentro, respirando aquele ar.
     -- Bem-vindos, bem-vindos -- disse a Sra. Silver, a pro-
fessora de arte. Ela era robusta e calorosa, com braos brancos
e largos e cabelo grisalho empilhado no alto da cabea num
coque enorme e emaranhado. Estava com um monte de pul-
seiras no pulso esquerdo, um enorme macaco de listras ama-
relas e verdes e uma camiseta de batik extragrande com as cores
do arco-ris que definitivamente foi ela prpria quem fez.
     A sala tinha o teto inclinado, mesas de arte oblquas e uma
parede com janelas do tamanho de janelas de catedral inun-
dando tudo de luz. A mesa da Sra. Silver era uma baguna de
pincis, frascos de vidro velhos, vidrinhos de aromaterapia,
grossos livros de arte, cartes de ioga e um jarro de dois litros
de Mountain Dew. A Sra. Silver era ainda mais bagunceira do
que o pai de Jenny. Ela apostava que os dois realmente se da-
riam muito bem.
     -- Ah, Easy! -- chamou a Sra. Silver. -- Estou to feliz
em v-lo! Teve um vero agradvel?
     Jenny se virou. Easy Walsh foi at a Sra. Silver e a beijou
206
com ternura no rosto. Hoje seu casaco da Waverly estava pen-
durado no brao e ele vestia uma camiseta amarelo-mostarda
com a bainha esfarrapada e uma cala Levi's cinza que se ajus-
tava com perfeio em seu traseiro musculoso. O cabelo on-
dulado estava em toda parte e Jenny percebeu que uma
folhinha amarela de bordo estava presa atrs da orelha direita.
    Easy olhou a sala de aula. Os olhos azuis-claros pararam
nela por um segundo. Jenny percebeu que a nica mesa vazia
na sala ficava  direita da dela.
    -- Muito bem, gente -- anunciou a Sra. Silver. -- Vamos
direto ao que interessa, porque eu sei que vocs esto ansio-
sos. Agora vou passar os papis de desenho e os espelhos. Va-
mos comear fazendo esboos de nossos auto-retratos.
    Houve um gemido coletivo. No havia nada pior do que
auto-retratos.
    Easy lentamente andou at a mesa ao lado da de Jenny, os
olhos concentrados nela o tempo todo. Ele atirou a mochila
de couro caramelo debaixo da mesa e se sentou no banco de
metal adjacente. Depois, lentamente retirou os fones Bose do
pescoo e enrolou o fio no iPod branco fino. Ele se curvou e
escreveu na mesa de Jenny com um pedao de carvo, Oi. A
letra dele era infantil e pontuda.
    Ol, escreveu Jenny bem embaixo em uma caligrafia ele-
gante.
    A Sra. Silver passou carvo, marcadores Prismacolor, es-
pelhos e rolos de papel a cada aluno. Jenny olhou seu reflexo.
Os olhos desmentiam o mar de nervos dentro dela. Est tudo
bem, disse ela a si mesma. Callie disse para voc paquerar. Mas
ser que Callie tinha dito para ela ter palpitaes cardacas?
                                                           207
    -- E a, o Dalton deu uma dura em voc? -- cochichou
Easy.
    -- Na verdade, no -- cochichou Jenny em resposta. Ela
se perguntou se Callie tinha dito a ele que ela no tomou uma
deciso sobre assumir a culpa ou no.
    -- A Callie est criando problemas?
    -- Callie? Er, no... -- Jenny ps a ponta do marcador na
boca. -- Ela tem sido legal.
    -- Bom, espero que ela no esteja te obrigando a fazer
muita merda. s vezes ela faz isso.
    Jenny se perguntou o que ele queria dizer com isso. Ela se
virou para a folha de papel em branco, ciente de que Easy
parecia estar olhando de lado para ela, pelo canto do olho. A
Velha Jenny podia impedi-la e dizer que embora Callie tenha
falado que ela podia paquerar, ela no devia fazer isso, e a Nova
Jenny riu e cutucou Easy com o marcador Prismacolor, dei-
xando uma grande marca vermelha no antebrao dele.
    -- Pra que isso? -- cochichou ele, examinando a marca.
    -- Eu queria te fazer uma tatuagem. -- Ela concluiu que
a marca era um nariz e acrescentou dois olhinhos e uma boca.
    --  bonita -- declarou ele. Depois, ele pegou o
Prismacolor azul e escreveu no brao dela, OI, JENNY, e de-
senhou um personagem de quadrinhos de sobrancelhas fran-
zidas e dentes quebrados, completo, com uma tufo de cabelo
crespo no alto da cabea.
    --  meu retrato? -- Jenny riu.
    -- No... O seu  um retrato meu?
    -- No. Mas um vez eu pintei meu namorado em seis
estilos diferentes, de Pollock a Chagall.
208
     -- Meu pai tem um Chagall no estdio dele -- disse Easy
a ela. -- Acho que  tipo Eu e a aldeia. Eu costumava ficar olhan-
do essa tela horas seguidas quando era pequeno.
     Jenny pestanejou, pega de guarda baixa. Eu e a aldeia era a
tela preferida dela.
     -- Voc... Voc tinha um gosto timo, para uma criana.
     -- E a, ainda est com esse namorado? -- murmurou
Easy, virando-se timidamente enquanto falava e olhando-se
atentamente no prprio espelho de mo. Ele traou linhas
grossas de carvo na folha em branco diante dele. Era empol-
gante v-lo desenhar.
     -- Ah, no -- respondeu Jenny rapidamente. Ela e Nate
s ficaram juntos por umas trs semanas, e depois ele deu um
grande fora nela na festa de Ano-novo. Ele era mais velho e
provavelmente s a estava usando para voltar para a namora-
da de verdade.
     -- Mas voc devia gostar dele. Pintou o retrato dele seis
vezes.
     Jenny sombreou uma rea em volta do nariz do auto-re-
trato, analisando a leve mentira na cabea antes de dize-la em
voz alta.
     -- Bom, ele gostava mais de mim do que eu dele.
     -- Tenho certeza de que sim -- disse Easy com delicade-
za.
     Jenny respirou fundo e deu outra olhada no adorvel per-
fil dele. Enquanto trocava de carvo, ela o viu olhar para ela
tambm. Ento no era exatamente direito, mas ela no con-
seguia se conter. Alm disso, no foi Callie que pediu a ela
para fazer isso?
                                                              209
    -- E a, Jenny, sabe de algum segredo bom?
    A mo dela deslizou e fez uma grande linha preta atraves-
sando a bochecha do auto-retrato. Que tal Brett chegando s
3 da manh depois de Jenny ter visto a garota sair do campus
com o Sr. Dalton mais cedo? Esse era um segredo dos gran-
des. Tambm havia a queda gigantesca de Jenny por Easy --
outro segredo picante.
    -- Humm, na verdade, no -- respondeu ela em voz
baixa.
    -- Eu tenho -- ofereceu-se Easy.
    Jenny sentiu o corao martelar na garganta.
    -- O que ?
    Ele baixou os olhos, depois olhou para ela de novo.
    -- Vou escrever, mas voc tem que ler mais tarde.
    -- Por que no pode falar?
    -- Porque  segredo. -- Ele escreveu uma coisa em car-
vo em um pedao de papel, dobrou trs vezes e passou a ela.
    Jenny pegou o bilhete e enfiou no bolso. Depois alguma
coisa de repente ocorreu a ela. Callie lhe dissera sobre como
devia dar mole para Easy, mas talvez Callie tenha dito a Easy
para fazer a mesma coisa. Seja legal com a Jenny: saia com ela um
pouco, d a impresso de que vocs se gostam. Jenny podia ver exa-
tamente o que estava acontecendo.
    O corao dela afundou. Ento era isso, e nada mais?
    Assim que soou a sineta, ela correu para o primeiro reser-
vado do banheiro feminino da Jameson House e abriu o bi-
lhete. Em garranchos a carvo borrados, dizia:
    Os corujas da Waverly conversam. Talvez elas vejam ns dois juntos
um dia.
210
    Jenny rasgou o bilhete em pedacinhos cada vez menores e
o atirou na bolsa. No havia como negar que ela estava seria-
mente a fim de Easy Walsh. De tudo nele, do cabelo escuro e
embaraado  boca singular e suntuosa, at o amor dele por
Chagal e suas mos manchadas de tinta azul-marinho.
    Ela por fim saiu do reservado e olhou-se no espelho da
pia. No sabia o que estava procurando -- talvez provas, tipo
um sinal fsico, de que alguma coisa monumental estava acon-
tecendo.
    Porque Jenny tinha certeza absoluta de que Easy a estava
paquerando com sinceridade. No porque Callie disse a ele
para faze-lo, mas porque ele queria isso. Ela no sabia bem
como sabia, mas ela sabia.
                                                         211
            OwlNet            Caixa de entrada de E-mail
         Para:   BrettMesserschmidt@waverly.edu
           De:   EricDalton@waverly.edu
         Data:   Sexta-feira, 6 de setembro, 15:33h
      Assunto:   En: Audincia do Comit Disciplinar
  Brett,
  Estou te encaminhando este e-mail de Marymount, abaixo, uma
  vez que est chegando o dia da audincia do CD. Achei que voc
  devia saber.
  E obrigada por jantar comigo ontem  noite. Foi um grande... alvio.
  A gente se v,
  ED
  Mensagem encaminhada:
  Para: EricDalton@waverly.edu
  De: ReitorMarymont@waverly.edu
  Data: Sexta-feira, 6 de setembro, 2:20h
  Assunto: Audincia do Comit Disciplinar
  Prezado Eric,
  Como deve saber, o primeiro caso do CD do ano, envolvendo Easy
  Walsh e Jennifer Humphrey, est agendado para segunda-feira.
  Gostaria de me certificar de que teremos um precedente de
  tolerncia zero neste caso.
212
Porm, o Sr. Walsh  um legado e os pais dele so doadores, o que
obviamente cria algumas complicaes.  uma pena, porque eu
pessoalmente analisei a candidatura da Srta. Humphrey e acho que
ela  um timo acrscimo ao programa de belas-artes da Waverly,
mas algum precisa ser responsabilizado por isso. Se ela for
considerada culpada, temo que teremos de expuls-la.
Vamos cuidar para comear o ano com o p direito.
Desde j agradeo,
Reitor Marymount
                                                                213
                               23
  EM MATRIA DE ESPORTES, UMA WAVERLY OWL
           SEMPRE DEVE JOGAR EM EQUIPE.
S
       exta-feira  tarde, Brett estava sentada no vestirio an
        tes do primeiro dia de treino de hquei, puxando o anel
        toile Tiffany de prata que Jeremiah dera a ela no vero.
A coisa estava presa em seu dedo, mas ela queria que sasse.
Assim que ela afundou nas macias poltronas de couro preto
da limusine da famlia de Eric -- ele mandou levar o carro 
Waverly, uma vez que ia voltar de barco -- ela sentiu falta de
Eric. Eles nem se beijaram, mas ela sentia que ainda podia
sentir o cheiro dele nela. Aquele delicioso Acqua di Parma. E
este caf au lait de manh teve gosto de L'Evangile Bordeaux.
    -- Oi -- chamou uma voz timidamente.
    Brett se virou e viu Jenny sentada ao lado dela no banco
comprido e verde, puxando as meias sobre as caneleiras. Seu
cabelo castanho e rebelde estava puxado para trs num rabo-
                                                             215
de-cavalo e ela usava uma bermuda cinza Champion e uma
camiseta curta lavanda com um logo da Les Best em laranja,
que era uma etiqueta moderninha de patricinha-que-pirou do
Meatpacking District de Manhattan. Brett se sentiu mal por
Jenny quando recebeu o email de Eric, mas isso era o que se
conseguia por se meter na cama com Callie... e Easy.
    -- Oi -- respondeu Brett.
    Jenny se retorceu, juntando as pernas, como se quisesse
fazer xixi.
    -- E a, eu acho que tem uma coisa que voc precisa sa-
ber.
    Brett encarou Jenny. Ser que ela ia confessar o que acon-
teceu  noite com Easy? Ou talvez Callie tivesse confessado
alguma coisa sobre a expulso de Tinsley? O que quer que
fosse, Brett definitivamente queria saber.
    -- O que ?
    -- Eu... Eu te vi chegando. No meio da noite. E sei onde
voc estava.
    Brett a encarou, sentindo os lbios franzirem como sem-
pre acontecia quando ela ficava com medo.
    -- Como ? -- A voz dela mal era audvel.
    -- Est tudo bem -- disse Jenny rapidamente. A cara de
Brett foi ficando cada vez mais branca, deixando seus olhos
enormes e escuros. Jenny tinha pensado se faria sentido ou
no dizer tudo a Brett. O caso era que Jenny no era to boa
para guardar segredos. Ela no era uma pessoa que contaria ao
mundo todo, mas sempre tinha que contar a pelo menos uma
pessoa. Tornava mais leve o fardo de carregar o segredo. En-
to por que no contar o segredo de Brett  prpria Brett?
216
     -- Voc no sabe de nada -- murmurou Brett, virando-
se para olhar o campo recm-limpo.
     -- Olha, por favor, no se preocupe, por favor -- pediu
Jenny, a voz se tornando um guincho. -- Seu segredo est
seguro comigo. Sinceramente. De repente eu nem devia di-
zer nada.
     Do meio do campo, a treinadora Smail soprou o apito.
     -- Meninas! Renam-se aqui!
     Brett encarou Jenny. Ser que ela estava falando srio, ou
era uma espcie de tramia? Jenny seria de confiana? No ano
passado, Brett, Callie e Tinsley costumavam se sentar no quar-
to  noite e conversar sobre cada detalhe de seu dia, quer fos-
se comum ou espetacular. Elas eram o tipo de grandes amigas
que so quase irms, porque se adoravam tanto que at quan-
do estavam chateadas uma com a outra sabiam que ainda seri-
am madrinhas de casamento de uma delas um dia. Mas o fiasco
Tinsley/Ecstasy deixara Brett muito mais desconfiada. Se Callie
podia trair Tinsley desse jeito -- no que Brett soubesse exa-
tamente o que acontecera, mas ainda assim -- quem poderia
saber o que ela faria com Brett?
     --  melhor voc no contar a ningum -- alertou Brett,
ignorando a expresso irritante de inocente de Jenny. Ela no
podia ser assim to inocente, em especial se era da capital.
     -- Olha, no que me diz respeito, ns nunca tivemos essa
conversa -- insistiu Jenny com lealdade. -- Mas... Eu s que-
ria ter certeza... Voc est bem? Porque voc parece, tipo as-
sim, meio distrada.
     Brett pegou o basto de hquei e se levantou. Ningum
nunca perguntou a ela se ela estava bem, nem os pais dela, e
                                                           217
ela no tinha certeza de como responder.
    -- Humm, no sei. Posso responder a voc depois?
    Jenny sorriu ansiosa.
    -- Claro. A gente se v! -- Ela pegou seu basto e foi para
o meio do campo, onde o time estava esperando.
    -- Ei! -- gritou Brett. Jenny se virou e Brett percebeu
aquele brilho estranho e familiar em Jenny de novo -- como
se ela estivesse incorporando a Tinsley, como se elas tivessem
a mesma coisa especial vazando pelos poros.
    Jenny se virou e viu Brett correndo na direo dela.
    -- Olha, sabe o que aconteceu entre voc e, humm, Easy?
-- disse Brett em voz baixa. -- Eu no devia te contar, mas
Marymount quer fazer de voc um exemplo, tipo assim, criar
um precedente este ano. Ento... Eu vou tentar ao mximo
evitar que voc seja expulsa, mas, bom, no sei o que vai acon-
tecer.
    -- Oh. -- Os ombros de Jenny arriaram. Expulsa? --
Humm, obrigada.
    Celine Colista, que tinha a pele cor de azeitona, cabelo
preto liso e lbios cheios cobertos de batom MAC Rabid, cor-
reu para elas, levantando grama atrs de si com as travas dos
tnis.
    -- Jenny, a Callie j te deu o grito da torcida?
    Jenny sacudiu a cabea.
    -- Grito da torcida? -- perguntou Brett.
    -- . A Jenny vai participar do nosso grito de torcida --
explicou Celine bem devagar.
    Brett assentiu inquieta. Ento Celine se virou para Jenny
de novo.
218
    -- Vem. Vamos falar com a Callie.
    Callie estava sentada no banco de metal comprido na late-
ral do campo, passando fita adesiva no basto de hquei. Ela
olhou para cima a tempo de ver Celine e Jenny se aproximan-
do. Que merda. Benny e Celine no iam desistir da histria do
grito.
    -- Callie -- piou Celine. -- J escreveu a letra?
    -- Estou trabalhando nisso.
    -- Bom, voc tem que se apressar! -- gemeu Celine. --
Tudo bem, t legal, a gente pode terminar na festa hoje  noi-
te. -- Celine piscou para Callie e depois trotou para o meio
do campo.
    Jenny se virou para Callie.
    -- Festa?
    --  -- respondeu Callie, olhando o basto de hquei.
--  um negcio pr-Sbado Negro. S para meninas. Voc
precisa ir. Todas fantasiadas!
    -- De qu?
    -- Bom,  segredo at o ltimo minuto. Mas vai ser hoje
 noite, provavelmente na sala de estar do segundo andar do
Dumbarton.
    -- Hoje  noite? -- Jenny parecia de crista cada. -- Te-
nho que ir a um negcio de sorvete social dos novos alunos.
    -- Deixa isso pra l. Pode se livrar dessa.
    -- No, o e-mail dizia que era obrigatrio. -- Jenny deu
de ombros. -- Eu devia ir. Mas estou muito animada com o
Sbado Negro. Vai ter uma festa secreta tambm, n? E esse
grito de torcida parece legal.
    -- Bom, o grito no  grande coisa. Voc no precisa fa-
                                                          219
zer, se no quiser.
    -- No, eu quero! -- Jenny mal conseguia evitar o tre-
mor na voz. Todas as meninas estavam falando com ela e ela
se sentia mais includa do que nunca na vida, mas ela tambm
estava a ponto de ser expulsa.
    Callie ficou tentada a confessar que o grito era uma piada
nada engraada, mas alguns anos antes, quando Tasha
Templeton, ento capit do time, contou  garota nova, Kelly
Bryers, que ela estava a ponto de levar um trote, todo o time
caiu em cima de Tasha. Fizeram buracos em seu suti, bem
no lugar dos mamilos. E ningum falou com ela por meses.
O namorado dela terminou tudo e ela perdeu todo o seu po-
der. Callie no ousaria fazer isso.
    De repente, Callie olhou para os braos magrelos de Jenny
e percebeu as letras aparecendo por baixo da manga direita.
Parecia que Jenny tinha esfregado o prprio brao por algum
tempo para tirar a tinta do marcador, mas Callie ainda podia
reconhecer a familiar letra infantil e desordenada e aquela
carinha idiota de dentes tortos que Easy sempre desenhava.
De imediato, um n se formou em seu estmago e ela sentiu
o cabelo da nuca eriar. O que foi que Easy estava fazendo, escre-
vendo no brao dessa piranha? Mas depois ela se conteve. Fica fria.
Voc pediu a ele para fazer isso.
    -- E como est o Easy? -- perguntou ela, engolindo a
preocupao.
    -- Ah -- guinchou Jenny.
    -- Vocs esto se dando bem?
    -- Er, estamos.
    -- Que bom. -- Com alguma sorte, os professores pensa-
220
riam o mesmo. Mas por que Easy estava escrevendo coisas no
brao de Jenny? Isso no era realmente necessrio. Em espe-
cial aquele personagem de dentes quebrados dele. Era um
personagem para ela: ele o fez no dia em que eles escapuliram
para o Brooklyn e passaram o dia todo em Williamsburg, com-
prando roupas moderninhas e arte de vanguarda. Eles foram
ao Schiller's Liquor Bar no Lower East Side depois, e ele de-
senhou a carinha idiota no verso do cardpio. Depois eles se
meteram no banheiro minsculo e se beijaram, irritando to-
dos os turistas franceses impacientes.
    S o que Callie queria era uma paqueradinha, e, como
sempre, Easy tinha extrapolado. Mas que seja. Se isso signifi-
cava que Jenny assumiria a culpa por ela no CD, ento Jenny
podia ter a carinha de dentes quebrados.
    -- Vamos. -- Ela apertou o brao de Jenny, tentando ao
mximo no parecer ciumenta. -- A Smail est olhando feio
pra gente.
                                                          221
            OwlNet            Caixa de entrada de E-mail
         Para:   EasyWalsh@waverly.edu
           De:   CallieVernon@waverly.edu
         Data:   Sexta-feira, 6 de setembro, 16:15h
      Assunto:   Saudade!
  Oi, amorzinho,
  Estou com saudade! Me encontre na escada da biblioteca s 5 da
  tarde, hoje, por favor. Urgente!
  Bjs
  C
  P.S.: Como est a Jenny?
222
       OwlNet           Caixa de Entrada de E-mail
   Para:   JenniferHumphrey@waverly.edu
     De:   CustomerCare@rhinecliffwoods.com
   Data:   Sexta-feira, 6 de setembro, 16:23h
Assunto:   Tratamento de spa
Cara Jenny Humphrey,
Callie Vernon lhe mandou um certificado de presente para um
tratamento de spa relaxante em nossas instalaes. Voc receber
uma massagem de shiatsu e uma massagem facial oxigenada. Por
favor, telefone ou mande um e-mail para marcar seu horrio.
Atenciosamente,
Bethany Bristol
Gerente da Rhinecliff Woods Spa
                                                               223
                              24
       OS WAVERLY OWLS DEVEM USAR A SALA
        DE LIVROS RAROS S PARA ESTUDOS.
     N
                  o estou enxergando nada -- murmurou Easy
--                enquanto Callie o levava vendado pela escada
                  de mrmore da biblioteca.
    -- A inteno  essa mesmo. Quero te fazer uma surpresa.
    Ela empurrou a pesada porta de carvalho imaculada. Alm
dela, havia paredes e mais paredes de livros, caixas de vidro
com pergaminhos, poltronas de couro e um vitral minsculo
no padro de Mondrian. To romntico. Ela tirou as mos dos
olhos dele.
    -- A biblioteca? -- Ele olhou em volta, confuso.
    -- No  s a biblioteca. -- Ela dobrou a mscara de ce-
tim vermelho que tinha trazido do vo de primeira classe da
Iberia. -- No se lembra?  a sala de livros raros! Foi aqui que
a gente... -- ela se interrompeu, empurrando uma mecha de
                                                            225
cabelo louro para trs dos ombros. O que dizer? Onde eles
consumaram seu amor? Eles no consumaram nada. Eles se
agarraram. Ela passou as mos pelo lado de fora das calas dele.
Ela traiu Branson, seu namorado na poca.
    -- , entendi -- respondeu Easy, andando pela sala, pas-
sando a mo em uma fila de livros raros e empoeirados. Ha-
via primeiras edies de romances de Steinbeck, Faulkner e
Hemingway em uma grande caixa de vidro, graas a um certo
J. L. Walsh e um R. Dalton. Havia quatro grandes Rothkos na
parede, todos estudos em quadrados pretos e vermelhos de
tamanhos diferentes.
    Callie se sentou em uma das poltronas de couro. Sentiu o
frio atrs das pernas e de imediato teve arrepios.
    -- Talvez a gente possa repetir aquela noite -- disse ela
delicadamente, puxando a camiseta cinza-clara de Easy. --
Olha, por que no fica mais  vontade?
    Callie se levantou e gentilmente empurrou Easy para uma
poltrona de couro marrom. Ela se sentou no colo dele e co-
meou a beijar seu pescoo. Easy passou a mo por baixo da
camiseta branca fina como papel e os dedos no suti branco la
Renta.
    Isto era perfeito. O cheiro de mofo dos livros antigos, o
brilho sensual do abajur de ao Tiffany no canto, a quietude
de tudo. Callie sentiu como se estivesse sendo desobediente
na sala de leitura do pai, ou como se fosse uma baronesa frus-
trada dos anos 1700 que queria um pouco de ao antes que
todos fossem tomar ch. Parecia uma cena sada de um ro-
mance de D. H. Lawrence. Mulheres apaixonadas, talvez.
    Depois ela percebeu que os olhos de Easy estavam aber-
226
tos. Bem abertos.
    -- Que foi? -- perguntou ela, recuando.
    -- Acho que  a primeira edio de V -- murmurou ele,
curvando-se para a frente para ver melhor. -- Eu no tinha
percebido isso aqui antes...
    Callie soltou um guincho de frustrao e puxou os joe-
lhos at o queixo, atingindo Easy na mandbula ao fazer isso.
    -- Que foi? -- Easy rebateu.
    -- Deixa pra l -- disse ela em voz baixa, percebendo que
a mgoa estava transparecendo na voz mais do que ela pre-
tendia. Ela tentou no deixar que o sentimento deste momento
perfeito com Easy fosse estragado em sua conscincia. Tarde
demais. Ela tentou estabilizar a voz para no ficasse to tr-
mula. -- Eu percebi que voc andou azarando a Jenny...
    Easy recuou um pouco.
    -- Percebeu? Como assim?
    -- Bom, voc escreveu no brao dela.
    Ele lambeu os lbios.
    -- Ah.
    -- E a? Est tudo bem?
    -- Acho que sim.
    -- Algum professor viu vocs, sabe como , paquerando?
    -- Humm, s a Sra. Silver, eu acho... -- Easy se levantou
e coou o queixo.
    No era assim to bom. No importava se a Sra. Silver os
vira -- ela no era amiga da Srta. Emory.
    -- Talvez vocs dois possam paquerar perto da sala de
ensaio da orquestra. -- A Srta. Emory regia a orquestra da
Waverly, os Fermatas, aos domingos, teras e quintas.
                                                          227
    Seguiu-se um longo silncio. Callie podia ouvir os galhos
das rvores roando as janelas.
    Por fim, Easy falou.
    -- Voc s se importa se vai se meter em problemas ou
no, no ?
    -- No! -- gritou ela. --  claro que no. Eu s...
    Ele ergueu a mo.
    -- Isso no est certo. No foi culpa da Jenny. No acho
que a gente deva arrastar a garota para isso e no acho que ela
deva levar a culpa por voc.
    -- O que voc est dizendo? -- quis saber Callie. -- Voc
no liga se eu for expulsa? -- Ela sentiu as lgrimas saindo de
seus olhos e rapidamente colocou o dedo na boca. Mordeu
com fora, quase tirando sangue.
    -- No, claro que eu ligo, mas...
    Callie sacudiu a cabea. Ela podia sentir a pulsao no
pescoo.
    -- No.  bvio que voc no liga. Se ligasse, ia fazer de
tudo para me manter aqui.
    -- Bom, por que eu ia querer manter voc aqui se s o
que voc quer  me manipular? -- respondeu Easy num tom
alto, a voz ecoando pela biblioteca silenciosa.
    A boca de Callie se abriu.
    -- Como ?
    -- Voc me ouviu -- sussurrou ele feroz.
    -- Retire o que disse.
    Easy suspirou.
    -- Callie... -- Ele se interrompeu, olhando para ela como
se no fizesse idia do que fazer com ela.
228
     Ela no tinha certeza do que a possura para dizer o que
disse em seguida, mas ela disse assim mesmo:
     -- Sabe de uma coisa, o Brandon faria isso por mim.
     -- Brandon? -- perguntou Easy. -- Brandon... Buchanan?
-- zombou ele.
     Callie aproveitou.
     -- , o Brandon! Pelo menos o Brandon...
     -- Pelo menos o qu?
     Prestava ateno em mim, pensou Callie. Pelo menos eu sabia
onde estava pisando. Ela engoliu em seco e se virou para a jane-
la. Do lado de fora, duas corujas se aninhavam em um galho
de rvore. Pareciam estar se beijando.
     Easy andou pela sala.
     -- E a, quer terminar comigo para ficar com o Brandon
de novo?
     Callie arfou.
     -- Eu no disse isso! Voc quer terminar? -- O corao
dela comeou a martelar pra valer. Ento era isso? De repente
ela se sentiu tonta e enjoada, como se estivesse prestes a cair
de um penhasco infindvel e lutasse para se agarrar a sua en-
costa rochosa.
     -- S pare de me manipular -- disse Easy com severida-
de. -- Se voc acha que o Brandon... que, alis,  muito gay...
faria isso por voc, talvez devesse ficar com ele, afinal de con-
tas.
     -- Pelo menos ele me amava! -- insistiu ela. -- Pelo
menos o Brandon queria transar!
     As palavras dela ficaram suspensas no ar por um momen-
to. Os lbios de Easy se separaram, como se estivesse prestes
                                                             229
a dizer alguma coisa. Mas depois houve uma batida na porta
de carvalho. Os dois congelaram.
    -- Ol? -- chamou uma voz baixa. Era o Sr. Haim, o bi-
bliotecrio irritadio de voz anasalada. -- Algum problema a?
    Callie olhou para Easy, mostrando os dentes antes de res-
ponder com doura:
    -- S estamos estudando!
    -- Tm que falar baixo -- sussurrou o Sr. Haim. Ele abriu
a porta e enfiou a cabea de cabelo de Bombril pela fresta. --
No toleramos barulho nesta sala.
    -- Tanto faz -- gritou Easy, erguendo o dedo mdio e
endireitando a camiseta. -- Vou sair daqui. -- Ele passou pelo
Sr. Haim sem sequer olhar para Callie para se despedir.
    -- Este  um lugar de pesquisa tranqila -- recitou o Sr.
Haim, apertando a gravata da Waverly quase ao ponto da asfi-
xia. -- No toleramos gritos.
    -- Eu j pedi desculpas! -- gritou Callie.
    -- Voc ainda est gritando.
    Ela revirou os olhos. O que diabos tinha acontecido? Ela
desceu a escada de mrmore que levava ao saguo principal
da biblioteca. Por uma janela alta e estreita, viu as mesmas
corujas aninhadas, desta vez em um galho mais baixo. Ela
parou e bateu na janela, levando as corujas a bater as penas e
voar para rvores separadas.
    -- Vo pro motel! -- gritou ela.
230
      OwlNet                  Caixa de Entrada de E-mail
   Para:   Undisclosed recipient
     De:   CelineColista@waverly.edu
   Data:   Sexta-feira, 6 de setembro, 21:02h
Assunto:   CONFIDENCIAL
            Festa pr-Sbado Negro do Dumbarton:
  BEM-VINDAS A AGRABAH, Cidade de Mistrio e Encanto.
                     S PARA MULHERES!
                        DEZ MINUTOS!
                        ANDEM LOGO!
                                                        231
                             25
    UMA WAVERLY OWL NUNCA DEVE ATENDER
        AO CELULAR DA COLEGA DE QUARTO
              QUANDO ESTIVER BBADA.
C
           allie estava com o novo vestido verde Prada de fran
           ja que ela comprou na Pimpernel, um leno de ca
           bea multicor e Manolos prata de salto 10. O cabelo
louro-arruivado e comprido estava preso em um coque sexy
de inspirao asitica e ela passou delineador em volta dos
olhos. Ela sabia que as outras meninas iam ficar com inveja,
mas a inteno era essa mesma. s vezes era mais divertido se
fantasiar quando no havia homem nenhum por perto.
     A festa pr-Sbado Negro era uma tradio para as meni-
nas do Dumbarton. Era incrivelmente legal, porque havia uma
lista de convidados seletos e sempre havia um tema louco.
Benny Cunningham e Celine Colista saram mais cedo do
treino de hquei para converter a sala de estar do segundo
                                                          233
andar em uma terra das Mil e uma Noites. Elas fecharam a
cortinas da vidraa gigantesca para que toda a sala ficasse es-
cura e misteriosa. Depois acrescentaram pisca-pisca, velas,
almofadas, incenso, vodca Grey Goose, minibaseados, fotos
de elefantes e deuses com muitos braos na parede, e cuida-
dosamente colocaram exemplares do Kama Sutra, que todo o
mundo sabia que era um manual do sexo antigo da ndia, e
uma msica Bhangra estranha que Benny recebeu por FedEx
da Amazon.com na noite anterior. Toda a sala estava montada
para uma orgia louca, a no ser pelo fato de que no haveria
homens.
    Callie chegou cedo e estava bebendo com rapidez e cons-
tncia, tentando tirar da cabea todo o pesadelo Easy-na-sala-
de-livros-raros. Ela se serviu de mais bebida e foi para o
banquinho da janela no canto e de repente esbarrou em Brett,
que tinha acabado de chegar.
    -- Oh! -- Elas se olharam intensamente. Brett ainda esta-
va com a roupa que usara na aula, uma cala marrom Katayone
Adeli que era um tdio e blusa Calvin Klein branca. Acordaaaa!
Era totalmente contra as regras vestir esse tipo de coisa na fes-
ta pr-Sbado Negro! -- E a, como est o Jeremiah? -- per-
guntou Callie.
    -- Jeremiah? -- Brett olhou para ela sem expresso.
    -- Seu namorado?
    -- Ah, sim.
    -- Que foi, ele no  mais seu namorado?
    -- No, ele... -- Brett estava se retorcendo de verdade.
Callie se perguntou se Sage estava errada, talvez, em vez de
Brett gostar de um veterano, ela e Jeremiah j tenham feito
234
um sexo mais ou menos. Ou talvez um sexo dos bons. Terra
chamando Brett: no revelar qualquer tipo de sexo a sua dita
melhor amiga no era legal.
    E ento Brett semicerrou os olhos sutilmente para Callie.
    -- E como est o Easy?
    -- Est bem.
    Elas se sentaram desajeitadas no banco, desviando os olhos
uma da outra, bebendo de suas canecas da Waverly cheias de
bebida alcolica. No ano passado, Callie, Brett e Tinsley se
sentaram na festa pr-Sbado Negro nesta mesma sala, con-
versando de seus namorados e se revezando para encher as
canecas. Que diferena fazia um ano.
    Callie atirou o cabelo por trs do ombro, olhando a ami-
ga. Seria possvel que Brett s estivesse esperando que ela fa-
lasse no assunto Tinsley para que Brett pudesse se desculpar
por conseguir a expulso da amiga? Uma coisa em que Brett
no era boa era bancar a vulnervel.
    -- Aposto que a Tinsley teria curtido essa festa.
    Brett vacilou, depois murmurou.
    -- , ela teria sim.
    --  pssimo que ela no esteja aqui -- continuou Callie
em voz baixa. T legal, agora chegamos a algum lugar.
    Brett se endireitou.
    -- ,  pssimo que ela no esteja aqui, no ?
    Pera, como  que ? No era isso que Callie esperava que
Brett dissesse. Cad o Desculpe, deixe-me contar o que realmente
aconteceu ou pelo menos um Vamos esquecer tudo o que aconteceu e
tomar um porre no nosso quarto e botar a vida em dia? Em vez dis-
so, as duas meninas se encaravam como dois ces se farejan-
                                                             235
do, tentando deduzir se queriam latir ou no. De repente, uma
msica tecno hindu berrou do sistema de som. O resto das
convidadas tinha chegado e a sala estava apinhada de meninas
vestidas de forma estranha e fedendo a Poison de Dior.
    -- Conga! -- gritou Benny. Ela vestia um turbante de
toalha laranja na cabea e um cachecol Pucci caleidoscpico
em volta da cintura. Sage pegou sua cintura e riu, uma grande
bandeira da Waverly em volta do corpo, como um sari. Elas
passaram por Callie e Brett e riram.
    -- Vamos, senhoras! -- gritou Celine. -- Chega dessas
caras de irritadinhas!
    Brett, que normalmente teria danado O lago dos cisnes
usando uma pele de bicho hidrfobo se isso significasse a vida
da festa, levantou-se, espanou o colo e deu de ombros.
    -- T fora. -- Depois ela se virou e saiu marchando da
sala.
    Callie pegou um fio de franja verde no dedo mdio e a
observou sair. Alguma coisa buzinou ao lado dela. Era o Nokia
pequeno de Brett. O identificador de chamadas dizia Brianna
Messerschmidt. Callie olhou para cima e ia atender ao telefo-
nema, mas se conteve. No ano passado, ela sempre atendia
aos telefonemas de Brett quando ela estava fora. Ser que as
coisas estavam to diferentes este ano que ela no poderia aten-
der? Ela abriu o telefone de repente.
    -- Oi,  a Callie!
    -- Onde voc est? -- gritou Bree numa voz sexy e rou-
ca de fumante. -- No mercado rabe? Parece incrvel!
    Callie afundou na cadeira.
    -- No.  s uma festa no alojamento.
236
    -- Eu tenho que dar um pulo na sua escola um dia desses.
    -- Seria demais. -- Callie queria que Bree passasse um
pouco de seu entusiasmo  chata da irm mais nova. -- Quer
que eu procure a Brett?
    -- No, diz a ela para me ligar. Vou visitar nossos pais em
Jersey neste fim de semana.
    Jersey? De Nova Jersey? Ela sempre pensou que Brett fosse
de East Hampton...
    -- Olha s, Callie. Sabe aquele professor com quem mi-
nha irm est saindo? Tipo para ir jantar e essas coisas?
    -- Er... -- Callie praticamente sufocou com um enorme
gole de ponche. Como  que ?
    -- Eric Dalton. Ela te contou dele, no contou?
    -- Hum, claro que sim. -- Todo o corpo de Callie co-
meou a suar. Ela s tinha tomado algumas colheradas de io-
gurte de baunilha Stonyfield esta manh. Uma caneca de
ponche de vodca, e ela estava bbada. Sua cabea girava: Brett
estava guardando mais do que alguns segredos dela, tudo bem.
    Bree respirou fundo do outro lado da linha.
    -- Ento, olha s. Quando eu era aluna da Columbia, uma
amiga minha era meio que namorada do Eric Dalton. E ela
me contou que ele  bem srio. Sabe do que estou falando?
    -- Claro -- respondeu Callie automaticamente. Talvez
Brett no estivesse avoada porque tinha dormido com
Jeremiah. Talvez ela estivesse avoada porque tinha dormido
com Eric Dalton. Callie vasculhou a bolsa em busca de cigar-
ros. Como Brett ousou no contar a ela essa novidade! Oi-,
elas agora no eram estranhas completas?
    -- Mas que engraado -- continuou Bree, fungando de
                                                           237
rir. -- Talvez eles se casem na St. Patrick! Minha irm vai ser
uma Dalton!
     Esquecendo-se da tonteira, Callie tomou outro gole da
bebida.
     -- No acha que ela  nova demais para ele?
     -- Ah, claro que sim. Eu preferia que ele ficasse a 15
metros de distncia dela o tempo todo, mas a Brett tem boa
cabea. Mas d o recado a ela, t legal? E diga a ela para me
ligar. Tchau.
     -- Humm, t bom, tchau.
     Callie encarou o visor minsculo do celular por um lon-
go tempo, os lbios apertados. Por fim, ela olhou para cima. A
fila de conga ainda estava serpenteando pela sala.
     Foda-se. Com o ponche de vodca ardendo na barriga, ela
soltou um uivo, pegou Alison Quentin, que estava com um
vestido Alexander McQueen e folhinhas de oliveira no cabe-
lo, e seguiu a fila de meninas lindas e bbadas que danavam
para o corredor.
238
                             26
           UM WAVERLY OWL SEMPRE DEVE
              RESISTIR AOS AVANOS DA
                EX-NAMORADA BBADA.
B
        randon estava atravessando o gramado do Dumbarton
        em direo ao alojamento Richards quando viu uma
        garota num vestido verde cheio de pontas fumando
um cigarro e chutando o ar feito uma f de rock.
   -- Ei, gatinho! -- gritou ela. -- Vem danar comigo.
   Brandon se aproximou e semicerrou os olhos na luz. Era
Callie. Ela estava de porre?
   -- Oi -- gritou ele.
   Assim que ele chegou mais perto, ela se curvou para ele e
enterprou a cara no pescoo dele.
   Ela cheirava a ponche de frutas, cigarros e aquele xampu
de camomila fresco que sempre usava. Brandon sentiu um
tremor percorrer o corpo. Sentir o cheiro do cabelo de Callie
                                                         239
conjurava lembranas do ano passado. Eles se despiram de-
baixo de uma manta na sala de estar numa madrugada e dese-
nharam mensagens sexuais na barriga um do outro. Ela olhou
para ele com aqueles olhos enormes e aguados.
    -- Brandon. Oiiiii.
    Foi a que ele sentiu uma lufada do bafo de Callie.
    -- Caraca. -- Ela definitivamente estava de porre. -- Voc
bebeu toda uma garrafa sozinha?
    Callie se endireitou e sorriu.
    -- Eu estou legal -- piou ela. -- Quer um dos meus ci-
garros?
    -- No, obrigado.
    Callie deu de ombros e recolocou o cigarro na boca.
    -- Ento olha s -- balbuciou ela, passando as unhas com-
pridas e feitas pelo brao despido dele. -- Por que voc foi to
mau comigo depois da aula de biologia ontem?
    Na luz da varanda, Brandon podia ver pequenos arrepios
na pele lisa das pernas de Callie.
    -- Sobre Easy e Jenny? Eu estava dizendo a verdade.
    -- No estava no -- disse ela, tocando alegrinha o nariz
dele. -- Ningum est roubando ningum de mim. Eu estou
por trs da histria toda.
    Brandon franziu o cenho.
    -- No, Callie. A Jenny gosta dele. Eles se gostam.
    Callie riu.
    -- Isso porque eu disse aos dois para se gostarem.
    -- Hein?
    -- Eu disse a eles para se gostarem. -- Ela cobriu a boca e
riu. -- pa. Era para ser segredo.
240
    Brandon sacudiu a cabea.
    -- Mas a Jenny gosta mesmo dele. E ele gosta dela.
    -- Isso  o que eles querem que voc acredite! -- gritou
Callie e depois cobriu a boca. -- Entendeu? -- Ela balbuciou
mais baixo e explodiu numa gargalhada bobalhona. -- Eles
esto fingindo para que eu no tenha problemas por que o Easy
foi no meu quarto!
    Brandon recuou e pensou por um momento. Ontem, na
quadra, Jenny parecia autntica demais para estar fingindo. --
E os dois esto juntos nisso?
    -- .
    -- A Jenny tambm?
    -- Claro. A Jenny  legal. -- Callie bateu a cinza do ci-
garro, mas estava bbada demais e ela caiu direto no dedo do
p, sujando-o de preto.
    Brandon sacudiu a cabea. Ele olhou para Callie, que,
embora de porre, parecia ter chorado escondida no banheiro
das meninas por horas. Ele queria aninh-la e embal-la at
que ela dormisse.
    -- Quer dizer, voc daria em cima de outra garota se eu te
pedisse, no daria? -- perguntou ela, arrastando as palavras.
    -- Er... no? -- Brandon enfiou as mos nos bolsos.
    Ela olhou para baixo, frustrada.
    -- No?
    Brandon baixou os olhos.
    -- Se eu estivesse com voc, no ia olhar para outra garo-
ta.
    -- Ah, Brandon -- ela suspirou. -- Voc  to piegas.
    Que engraado. Ele achava que as meninas gostavam de
                                                          241
romance.
     Ela estalou os dedos, iluminando-se.
     -- Ei! O que voc acha de Brett dormir com o Sr. Dalton?
     -- Como ? Eu no sabia disso.
     Callie atirou as mos na boca e depois lentamente as reti-
rou.
     -- Talvez eu no devesse ter dito isso... -- Ela mordeu o
lbio. -- pa.
     -- , tipo assim, uma novidade pblica? -- Brandon ain-
da no conhecera o Sr. Dalton, a no ser na capela no primei-
ro dia, mas parecia altamente desprezvel um professor pegar
uma aluna, que dir dormir com uma.
     -- No sei. -- Ela olhou para a grama. -- Sei l, mas a
Brett no fala mais comigo, ento... -- Ela se interrompeu.
     Brandon no tinha certeza, mas parecia que ela estava pres-
tes a irromper em lgrimas.
     -- Ei... -- Ele estendeu a mo para ela. -- Voc est bem?
     De repente, Callie atirou o cigarro na grama, agarrou
Brandon e lhe deu um beijo enorme e molhado na boca. No
incio ele resistiu, mas depois de sentir o gosto do brilho labi-
al menta DuWop, ele no conseguiu deixar de se derreter para
ela. O beijo era to bom. Quente, macio e doce, como h um
ano. Ele pensou nos jogos de futebol enrolados debaixo de
cobertores, o trem Metro-North balanando para a capital,
onde ela dormiu no colo dele, e nos ps se cruzando no jantar
formal.
     Mas depois ele a empurrou. Ele queria isso -- sonhou tan-
tas vezes em beijar Callie novamente -- mas agora era um erro.
Totalmente errado.
242
    -- Qual  o problema? -- guinchou Callie numa voz de
bbada, cambaleando para trs.
    -- Voc est totalmente de porre. -- Brandon sacudiu a
cabea. -- A gente no devia fazer isso... agora.
    -- Vou te contar um segredo -- cochichou ela, curvan-
do-se para ele. -- Easy e eu brigamos feio. Acho que a gente
pode ter acabaaaaaado.
    Ele ficou mudo por um longo tempo. Novamente, ele
esperou uma eternidade para ouvir estas palavras. Mas no,
agora no. No desse jeito. Brandon sabia que era piegas, mas
isso porque ele era romntico. E transar com a garota que ele
amava enquanto ela estava doidona e no rebote era de uma
burrice completa.
    -- Isso ... Deixa pra l. -- Ele se afastou dela.
    -- Ah, sem essa -- gritou Callie. -- No quer transar co-
migo?
    -- Voc est bbada. Devia dormir para se recuperar.
    E foi assim, ele limpou a boca e se afastou.
                                                         243
       OwlNet           Caixa de Mensagem Instantnea
  BennyCunningham:     Oi. J mandou as palavras do grito?
       CallieVernon:   Ainda no.
  BennyCunningham:     Bom, faz logo!
       CallieVernon:   Vou fazer. Ei, qual  o grito das outras?
  BennyCunningham:     Sei l. Que tal "Seja Agressiva"?
       CallieVernon:   T.
  BennyCunningham:     No se esquea de mandar o grito a ela,
                       a no ser que vc queria um suti com
                       buraco nos mamilos!
244
       OwlNet            Caixa de Entrada de E-mail
   Para:     JenniferHumphrey@waverly.edu
     De:     CallieVernon@waverly.edu
   Data:     Sbado, 7 de setembro, 10:05h
Assunto:     Grito de torcida
Oi, Jenny,
Perdeu uma festa tima ontem. Como foi o negcio dos alunos
novos?
Mas a, a Benny me pediu para te mandar as palavras do grito.
Envolve um pouco de dana -- sensual! E voc canta com a msica
de "Sounds Off". Estou anexando um arquivo do Word da letra e
vou mostrar os movimentos a voc no quarto, t?
C
P.S.: Recebeu a cesta de beleza KissKiss! que chegou hoje?
Aproveita!
P.S.2: Tem alguma idia do que vai dizer no CD? Me conta!
                                                              245
                              27
          AS WAVERLY OWLS SABEM COMO --
            E QUANDO -- SER AGRESSIVAS.
T
          odo o mundo estava no vasto e verde campo de h
          quei, que era cercado por um bosque denso. O sol
          estava diretamente acima deles e o cu era de um azul
impecvel, com um toque de frio no ar. Pais, alunos e ex-alu-
nos enchiam as arquibancadas. As meninas do St. Lucius des-
filavam de seu lado do campo. Estavam vestidas com suteres
e saias roxos e brancos e com caneleiras roxas. O mascote do
St. Lucius, um ganso-do-canad branco e preto gigantesco,
seguia atrs delas, batendo as asas de uma forma ameaadora
para a coruja de culos da Waverly.
     Brett tirou umas folhas de grama da sola de um de seus
tnis Nike com travas e bufou para a aparncia idiota da coru-
ja. Ela no conseguia deixar de pensar na citao de Dorohty
Parker: "Os homens raras vezes tomam liberdades com mu-
                                                           247
lheres que usam culos." Uma coruja de culos parecia a
mascote mais nerd do mundo.
    Jenny estava sentada ao lado dela, enrolando e desenro-
lando tensa a fita adesiva no basto de hquei.
    -- E a, como foi a festa ontem  noite? -- perguntou
Jenny. -- Eu soube que vocs ficaram at bem tarde...
    -- Essa foi a Callie, e no eu -- corrigiu-a Brett. -- Eu
tentei entrar sem que voc percebesse. Mas voc no perdeu
grande coisa. Eu  que perdi meu celular. Voc o viu?
    -- No. -- Jenny deu de ombros.
    Brett trincou os dentes. No ter o celular -- ela o perdia
sempre -- significava que ela no fazia idia se Jeremiah ou Eric
tinham telefonado. Ela se perguntou se Jeremiah estava aqui
no meio da multido. Ela olhou o grupo de pessoas do outro
lado do campo, mas no viu um cara alto e bonito com cabelo
ruivo e macio em lugar algum. Ela se perguntou como ele teria
recebido o recado dela na outra noite.
    -- Ai, estou to animada com o grito. -- Jenny sorriu. --
Parece que vai ser bem divertido.
    Brett se virou para ela de repente.
    -- Voc sabe que  tudo armao, no sabe? -- A Callie
que se foda.
    -- Armao? -- Os olhos de Jenny se arregalaram.
    -- , isso ... -- comeou Brett, mas justamente a Callie
apareceu atrs delas e colocou a cabea no ombro de Jenny.
Brett desviou os olhos.
    -- Oi, garota -- disse Callie com doura a Jenny. -- Voc
est uma gracinha hoje.  meu gloss Stila que est usando?
    -- Er, no.  meu.  MAC.
248
    --  to lindo. -- Brett percebeu que Callie estava meio
estranha, provavelmente por ter exagerado no ponche na noite
anterior. Era legal que ela nem desse um oi a ela. Estava ocu-
pada demais puxando o saco da Jenny.
    Benny se aproximou do grupo.
    -- Prontas para o grito?
    --  -- concordou Callie. Ela olhou nervosa para Jenny.
Jenny olhou nervosa para Brett. Brett deu de ombros. Elas que
se virassem com essa merda.
    -- Ento vamos! -- gritou Benny.
    Todas as meninas do banco se levantaram e ficaram pu-
lando. Elas pediram a Devin Raunsch, um veterano cujo pai
era um famoso produtor de discos, para tocar bateria e fazer o
papel de DJ. Callie assentiu para ele. A agulha estalou em um
antigo disco do Funkadelic. Ele arranhou algumas vezes e
depois o batido saiu pelo alto-falante. As meninas comea-
ram a bater os ps.
    -- Seja. Agressiva. SE-JA a-gres-si-va...
    Brett, que estava atrs da turma, dublava as palavras. Isso
era to imbecil. Ela olhou para Jenny, que se atirou na sua parte
do grito.
    -- A galera do St. Lucius acha que detona, mas ningum
quer uma garota que  sem-sal e bobalhona!
    Jenny ouviu sua voz relinchar sozinha e de imediato co-
briu a boca. Infelizmente, ela tambm estava na parte da dan-
a onde tinha que empinar o peito. Ela olhou e percebeu que
ningum mais lanou os peitos para a frente.
    As colegas de time bufaram de rir. Jenny congelou, os
peitos ainda empinados. Ento era essa a armao. R, r. No
                                                             249
foi nada engraado.
     As coisas comearam a se mover em cmera lenta: as me-
ninas rindo, o idiota do Heath Ferro batendo na coxa na fila
da frente, toda a escola encarando seus peitos gigantescos.
Depois ela percebeu uma coisa. Ela sabia que ou podia se sen-
tir uma merda total e agir como a Velha Jenny, que, mortifica-
da, voltaria a se sentar no banco e nunca mais falaria com
ningum. Ou ela podia tentar transformar a situao em al-
guma coisa interessante. Afinal, este podia ser seu ltimo fim
de semana na Waverly. Ento, antes que conseguisse se con-
ter, Jenny foi para a frente do time e comeou a berrar a letra
do grito que Callie tinha passado a ela por e-mail em tom de
voz ainda mais alto.
     -- A galera do St. Lucius acha que detona, mas ningum
quer uma garota que  sem-sal e bobalhona! -- comeou
Jenny, empinando os peites novamente. -- As garotas da
Waverly pegam todos os gatos! Vamos nessa, todo o mundo
vai batendo os sapatos! -- Ela fez um movimento de assovio
com os lbios.
     -- Ns tiramos sobrancelha e as suas so peludas; nossa
bunda  bonita e a sua  cabeluda! -- Depois ela bateu com
fora em sua adorvel bundinha redonda. As outras meninas
escancararam a boca. -- Nossa mascote  uma coruja e o seu
um ganso ! Todo mundo aplaude a gente e vocs so as ma-
ns! -- Novamente empinando os peitos. -- Ento sai dessa,
St. Lucius, ou vai se arrepender. A coruja vai botar todo mun-
do pra correr! -- Depois Jenny, como fora instruda, correu
loucamente pelo campo e deu trs saltos mortais, o melhor
que pde, mostrando a todos o que quer que ainda no tives-
250
sem visto de seu short azul-beb.
     Seguiu-se um silncio aturdido. Embora as palavras fos-
sem totalmente ridculas, cada garoto solteiro da Waverly e da
St. Lucius -- para no falar dos pais e professores homens --
estava olhando para ela.
     Depois, do outro lado do campo, Lance Van Brachel, um
dos astros do futebol americano da Waverly, comeou a aplau-
dir.
     -- ! -- gritou ele. -- A!  isso a!
     Outro garoto aplaudiu devagar. Algum assoviou. Depois
todo o outro lado do campo irrompeu num aplauso. Todos
comearam a pirar.
     Brett encarou Jenny, que estava parada com os braos es-
ticados, olhando tonta para a multido, um sorriso enorme na
cara. Jenny tinha revertido a manipulao de Callie em favor
dela, uma coisa que nem Tinsley conseguira fazer. Jenny pa-
recia no ter medo algum de que as pessoas a colocassem na
berlinda, e seu corpo pequeno e curvilneo ficava timo dan-
ando. E tinha uma boa voz quando gritava, rouca e meio sexy.
     Jenny olhou para os fs do outro lado do campo. Caraca,
isso era divertido! Ento ela teve um lampejo de inspirao.
     -- Essa escola tem um Pnei, sujeitinho muito eca! Ele 
sempre indecente e no se agenta na cueca! -- gritou ela a
plenos pulmes. -- Ele pensa que tem muito volume l em-
baixo, mas  to pequenininho que se eu procurar no acho!
     As arquibancadas da Waverly enlouqueceram. Um bando
de garotos cobriu a boca e gritou um "Oh!" coletivo na dire-
o de Heath. Todos estavam rindo. Jenny olhou para Heath
na fila da frente -- a cara dele estava vermelha de raiva. Te
                                                          251
peguei.
    -- Vamos l, de novo! -- Jenny partiu novamente para o
grito, mal dando pela presena das outras meninas. Todas eram
expectadoras. Se no quisessem gritar com ela, ela no ligava.
Ela se sentia livre e doida.
    Brett estava confusa. De repente, ela sorriu e correu para
se juntar a Jenny.
    -- A galera do St. Lucius acha que detona, mas ningum
quer uma garota que  sem-sal e bobalhona! -- gritaram as
duas juntas. Jenny sorriu e bateu o traseiro no quadril de Brett.
No final do grito, ela at levantou a blusa. Os meninos do outro
lado do campo ficaram loucos.
    Depois Celine tambm se juntou a elas. E em seguida
Alison, depois Benny. Depois o resto das meninas. E por fim,
porque parecia estranho que fosse a nica jogadora de hquei
a no participar do grito da torcida, Callie comeou a gritar
tambm.
252
                               28
            UMA WAVERLY OWL DEVE SABER
          QUE DIVERTIDAA  UMA PALAVRA
                     QUE NO EXISTE.
E
        stimuladas pelo grito, as Waverly Owls derrotaram as
        St. Lucius Geese por 6 a 3. Assim que tocou o apito
        final, Brett correu para o quarto no alojamento. Ali,
na cama, estava seu celular. Ser que ela o deixara na cama esse
tempo todo? Havia trs chamadas no atendidas -- todas da
irm -- e uma mensagem de texto: Estou no porto. Venha se quiser.
-- ED.
    Ela rapidamente vestiu a cala vai-ficando-melhor-com-
o-passar-da-noite, a Joseph que mais a valorizava, e o top de
seda Diane von Furstenberg mais fino e sem mangas e fechou
o zper das botas pretas mais pontudas. Ela foi correndo para
a beira da gua.
    Eric estava parado no pequeno convs do veleiro branco
                                                             253
vestido em calas cqui e uma camisa plo verde de manga
comprida. Ele segurava um binculo nos olhos e olhava para
alguma coisa nas rvores. Uma vara de pesca estava apoiada
na amurada do barco. Quando a ouviu atrs dele, ele se virou,
o binculo ainda nos olhos. Brett cobriu o peito por instinto,
como se o binculo fosse uma lente de raio X.
    -- No teve jogo de futebol para voc? -- perguntou ele,
baixando o binculo.
    -- No.
    -- O jogo de futebol americano no  a melhor parte do
dia?
    , s que o ex-namorado dela por acaso era quarterback
do outro time. Brett no tinha muita certeza se Jeremiah re-
cebera o recado de preciso-terminar que ela deixara na caixa
postal, mas ela meio que no se importava.
    -- Eu no gosto mesmo de futebol americano -- respon-
deu ela timidamente. -- Posso subir a bordo?
    Ele riu.
    -- Claro que sim.
    -- E a. -- Ela passou as mos na amurada cromada do
barco. -- Essa coisa tem nome?
    -- Ainda no.  novinha em folha -- respondeu Eric, os
olhos cinzentos e penetrantes nela. -- Eu estava pensando em
alguma coisa de Hemingway.
    Brett se revirou por dentro. Tipo talvez alguma coisa de O
sol tambm se levanta?, ela queria saber.
    -- Em que posio do hquei voc joga?
    -- Meio-campo -- respondeu ela, como se isso no ti-
vesse importncia, embora ela jogasse hquei desde que ti-
254
nha sete anos e tenha marcado dois dos seis gols de hoje.
    Ele riu, depois pegou a vara de pesca.
    -- Por que isso  engraado?
    -- No .  s que eu no consigo imaginar voc num
uniforme de hquei.
    -- J tentou? Imaginar, quero dizer. -- Brett sorriu toda
vaidosa. Ela estava sendo ousada, at para os padres dela.
    -- Talvez. -- Os olhos de Eric no saam dela. --  uma
saia bem curta. Vocs encurtam, no ?
    -- Claro que no! -- mentiu Brett. -- Sempre foram
curtas!
    Ela se sentou em uma das cadeiras de capito e olhou a
gua cintilante. O pinculo da capela da Waverly se projetava
ao longo do bosque verde-azulado e elegante, e as corujas
voavam por cima, como se atradas magneticamente pelo bar-
co. At a gua tinha um cheiro sensual.
    -- Ento, eu queria te agradecer pela outra noite -- arris-
cou-se ela por fim. -- O avio. O jantar. Ver a casa da sua fa-
mlia. Foi bem divertido.
    Dalton retirou o binculo do pescoo.
    -- Fico feliz com isso.
    Um grito surgiu do estdio de futebol na distncia e a banda
comeou a tocar. Brett olhou naquela direo, perguntando-
se quem tinha marcado pontos. Jeremiah provavelmente es-
tava em campo neste segundo.
    Brett olhou para Eric. Mordendo o lbio, ela se levantou e
deu um passinho na direo dele.
    -- Ento, , foi divertido, mas...
    -- Mas o qu? -- Eric fez uma pausa.
                                                            255
    Brett pensou ter detectado alguma coisa estranha na voz
dele. Ela se sentia como se estivesse parada na beira de um
penhasco que dava para o mar turquesa do Caribe. Era ou se
virar e seguir direto para o bangal para tomar um Red Stripe
duplo na rede ou mergulhar do penhasco. Ela tomou uma
golfada de ar.
    -- Voc acha que havia alguma coisa que talvez pudesse
ser divertidaa? -- perguntou Brett, tombando a cabea de lado.
    -- Divertidaa  uma palavra que no existe. -- Eric sor-
riu com malcia. A gua batia na lateral do barco.
    -- , eu sei -- sussurrou ela, baixando os olhos, sentin-
do-se nova e burra. Volte para o bangal! Agora! Lutando para se
decidir, ela bateu as pestanas e empinou o peito. Ela no fazia
idia de onde tirara esses movimentos. Jenny, quem sabe? Ela
ouviu Eric respirar.
    Foda-se. Ela ia mergulhar. Ela foi direto para onde ele es-
tava, ainda pescando. Ele era alguns centmetros mais alto do
que ela. O cabelo alourado dele caa desordenado sobre os
olhos e ele tinha um pequeno arranho ao lado do nariz. Ele
apoiou a vara de pesca na amurada de novo.
    -- Talvez isto possa ser... divertidao? -- Depois ela jo-
gou o corpo no dele e o beijou. Ahhh, isso.
    A boca de Eric era maravilhosa. Brett tentou se conter, mas
parte dela queria devor-lo, como se ele fosse caviar Beluga.
Ela continuou beijando-o, delicadamente no comeo, queren-
do que os lbios dele se separassem, at que finalmente as mos
fortes de Eric cingiram sua cintura e os lbios se misturaram
com os dela. Ele a puxou para mais perto. A boca de Brett se
abriu. Brett se preocupou com a possibilidade de estar com
256
gosto do suor do jogo, mas ela no se importava. Nem ligava
que eles estivessem em plena luz do dia, no campus da Waverly,
no Sbado Negro, e toda a escola estivesse a menos de um
quilmetro de distncia.
    Ela parou de beij-lo e deu um passo para trs, sorrindo
timidamente.
    Eric lambeu os lbios. Parecia que estava tentando escon-
der um sorriso.
    -- Humm, ento. Isso , er, definitivamente... -- Ele
pegou a mo dela e seus olhos encontraram os de Brett. Ele
mordiscou o lbio inferior. -- Ento eu acho... Acho que de-
via voltar para minha sala por um tempo.
    -- timo. Vamos -- respondeu Brett sorrindo. -- Agora.
    Dalton enrijeceu na amurada.
    -- Quero dizer, acho que eu devia voltar para minha sala
e eu acho que voc deve voltar para seu jogo de futebol ameri-
cano -- sussurrou ele, a mo afagando a orelha dela.
    Brett se afastou dele e olhou freneticamente na direo do
estdio. Eric saiu do barco. Ele estendeu a mo para ela e a
ajudou a desembarcar.
    -- Se eu for a sua sala, voc no vai se arrepender. -- Ela
nunca disse nada parecido com isso a ningum em toda a vida.
    -- Eu sei disso. -- Eric suspirou. -- Acredite em mim.
Eu sei muito bem disso. Mas, humm... -- Ele olhou para os
Docksiders azul-marinhos. -- Eu acho... Acho que devo ir.
Mas obrigado.
    E com essa, ele ergueu o polegar, tocou o queixo de Brett
e se virou, deixando Brett com suas lindas botas pretas e pon-
tudas parada em um convs de um barco idiota, sozinha.
                                                           257
                             29
      AS WAVERLY OWLS JAMAIS REJEITAM UM
     JOGO DE "EU NUNCA" -- MESMO QUE ISSO
          SIGNIFIQUE BEIJAR HEATH FERRO.
B
         randon estava de p, um gim-tnica na mo, conver
         sando com Benny Cunningham na festa Sbado Ne
         gro, que acontecia, surpresaaaaa!, na casa de campo
de Heath Ferro, em Woodstock, a cerca de uma hora da
Waverly. Ele viu Jenny descer de um Hummer com um gru-
po de meninas do hquei. Todas estavam vestidas com um
suter desleixado de chashmere e gola em V cor-de-abbora,
mas o suter de Jenny revelava sua linda pele de porcelana e
expunha parte dos ombros nus e ele podia perceber uma ala
de suti larga e de cor creme.
    Depois do jogo de futebol americano, Heath distribuiu
passes para passar a noite fora do campus  elite da Waverly e
conduziu todos a uma frota de limusines Hummer que ele
                                                          259
pegara emprestada da empresa de I-banking de Wall Street do
pai. Brandon ficou olhando  distncia enquanto Heath se
aproximou de Jenny, que era flanqueada por uma turma de
admiradores, deu-lhe um beijo educado no rosto e entregou
um passe a ela. At ele teve que dar os parabns a ela pelo gri-
to de torcida.
    A festa acontecia no enorme gramado dos fundos da casa.
Estava quente e silencioso ali fora, e Heath conseguira que o
jardineiro instalasse uma tenda branca enorme e fileiras de
pisca-piscas de Natal. Ele tambm pegou seis esculturas gi-
gantes da crescente coleo dos pais de compras aleatrias em
galerias para decorar a tenda cara. As esculturas eram lrios
enormes em flor. Suas ptalas lustrosas lembravam a todos,
no to inconscientemente, de sexo. Como se algum preci-
sasse de algum lembrete. Depois de ver o peito de Jenny, era
a nica coisa em que todo mundo pensava.
    Jenny viu Brandon e correu para ele.
    -- Oi! Aonde voc foi depois do jogo? -- exclamou ela
animada.
    -- Acho que vim para c um pouco mais cedo -- respon-
deu ele, depois desviou os olhos rpido. Ele ainda se sentia
perturbado com a histria Callie-Easy-Jenny.
    -- Qual  o problema? -- perguntou ela.
    -- Nenhum.
    -- Jenny, aquele grito foi totalmente divertido. -- Benny
apertou a mo de Jenny. Os brincos de prolas Mikimoto de
Benny eram to grandes que os lbulos das orelhas estavam
cados.
    -- Obrigada! -- gritou Jenny.
260
    -- Brandon, voc viu?
    -- Vi. -- Teria sido difcil no ver. Foi meio vulgar, mas
meio sensual ao mesmo tempo. E o crebro dele parecia que
ia explodir, vendo Jenny e Callie empinando os peitos e ba-
tendo a bunda ao mesmo tempo. E  claro que ele adorou ver
Heath tremer de constrangimento quando Jenny falou de seu
pinto pequeno.
    Jenny o olhou atentamente.
    --  srio, voc est bem?
    -- Er -- murmurou Brandon.
    -- O que foi? -- perguntou ela novamente. Benny tinha
se afastado para falar com outra pessoa. -- Pode me contar.
    Ele apertou os lbios. Ele no sabia o que estava sentindo.
Ser que estava confuso a respeito de Callie? Irritado com
Jenny por estar a fim de Easy? Chateado por voltar  escola, e
ponto final? De repente uma voz alarmantemente aguda se
destacou na multido.
    -- Jenny! -- Brandon e Jenny viraram a cabea. Celine
estava sentada do outro lado, em um sof de couro branco.
Brett, toda de preto, estava sentada no brao do sof. Callie
estava de p do outro lado, fumando em uma piteira pratea-
da. O corao de Brandon comeou a martelar. -- Jenny, vem
c! -- gritou Celine.
    Jenny olhou de novo para Brandon.
    -- Tem certeza de que est tudo bem? -- perguntou ela.
    -- Jen-ny! -- berrou Celine novamente.
    Jenny olhou para ele de um jeito indagador por mais um
momento e Brandon percebeu que ele estava sendo meio
babaca. Ento Callie estava ferrando com as emoes dele. E
                                                           261
Jenny no gostava dele. E da? Ela ainda era doce e carinhosa.
E neste exato momento, ela parecia to feliz.
    --  srio -- ordenou ele. -- Vai.
    Ao se virar para ir at o sof das meninas, uma veterana
alta e convencida chamada Chandler pegou o brao de Jenny.
    -- Grito legal.
    -- Obrigada!
    Outra loura parada ao lado de Chandler, que vestia um top
fino e prateado e cala listrada de rosa e cinza, semicerrou os
olhos para Jenny.
    -- Voc j foi modelo? Voc me parece familiar.
    -- Acho que ela parece a Tinsley -- acrescentou Chandler.
    -- Na verdade, fiz um anncio da Les Best. Mas foi s
uma vez -- disse Jenny, reluzente.
    -- Ento,  isso! -- gritou a menina. -- Eu adoro aquele
anncio. Voc est to linda nele, toda doida na praia. Quem
foi seu cabeleireiro?
    -- Jenny! -- gritou Celine do sof novamente.
    -- Tenho que ir -- explicou Jenny a Chandler e  outra
garota. -- Foi um prazer conhecer vocs -- Enquanto ia para
o sof novamente, algo lhe ocorreu de repente. Ela no se sen-
tiu compelida a inventar uma histria maluca sobre um desfi-
le de moda seminua ou uma noite pervertida com os Raves.
Nada disso. Jenny, no a Velha Jenny, nem a Nova jenny, mas
esta Jenny, era boa o bastante para essas meninas do jeito que
ela era. Eu adoro a Waverly!, pensou ela, com um estremeci-
mento momentneo de prazer. Meu Deus, ela simplesmente
no podia ser expulsa. Agora no!
    Ela se juntou s outras no sof. Celine de imediato passou
262
a ela um martni de Grey Gosse com Red Bull.
    -- Ento no est chateada com a gente? -- perguntou
Celine. -- Com o grito de torcida?
    -- . -- Callie sacudiu a cabea. -- Eu queria contar a
voc...
    -- No se preocupem -- Jenny as tranqilizou. Embora
tivesse sido meio cruel, ela agora se sentia parte de alguma
coisa, uma tradio verdadeira e exclusiva da Waverly. Isso no
era incrvel?
    -- Mas aquele grito foi demais -- comentou Celine. Ela
estava fumando um Dunhill Ultra Light e mordendo seu co-
lar de contas ao mesmo tempo.
    Jenny se aproximou de Brett, que estava sentada na ponta
do sof e parecia estar ali h 96 horas.
    -- Voc sumiu depois do jogo. Est tudo bem?
    -- Sei l -- respondeu Brett mecanicamente.
    --  o... -- comeou Jenny.
    Brett ps o dedo nos lbios mas assentiu infeliz.
    -- O que aconteceu?
    Brett sacudiu a cabea.
    -- No posso falar sobre isso -- cochichou ela entre go-
les de bebida.
    -- Tudo bem.
    Callie pegou o brao de Brett.
    -- Eu vi o Jeremiah quando eu estava chegando. Ele est
procurando por voc.
    Os olhos de Brett se arregalaram de medo.
    -- Voc disse a ele que eu estava aqui?
    -- Er, disse. Por qu, existia algum motivo para eu no
                                                           263
dizer? -- perguntou ela, obviamente fingindo distrao.
    -- Merda -- murmurou Brett.
    -- Qual  o problema? At parece que voc est saindo
com outro, n?
    Brett sacudiu a cabea febrilmente.
    -- Voc no devia ter contado a ele que eu estou aqui.
    -- Bom, desculpa! Como  que eu ia saber? -- pergun-
tou Callie. -- Voc no me conta mais nada mesmo.
    -- Voc s... no devia.
    As outras meninas olhavam de Callie para Brett, como se
assistissem a uma partida final de Wimbledon. Jenny se per-
guntou se Callie sabia de Brett e o Sr. Dalton. Callie apagou o
cigarro com o salto do mule de crocodilo azul.
    -- Ento, por que no quer ver o Jeremiah, afinal?
    -- Eu s... no quero. E pronto.
    -- Ele no  legal o bastante para voc? Ns no somos
legais o bastante para voc? -- perguntou Callie, rolando a
lngua na bochecha.
    -- O que  isso -- retorquiu Brett. -- Eu no disse...
    -- Voc est querendo namorar um cara mais velho?
    Jenny congelou.
    Brett franziu o cenho.
    -- O que isso quer dizer?
    Callie tombou a cabea de lado.
    -- Voc achou seu celular?
    -- Achei. -- Brett acendeu um cigarro. -- E da?
    -- Da que... nada. Eu o achei. S queria ter certeza de
que voc o encontrou.
    -- Voc viu minhas mensagens? -- A voz de Brett ficou
264
aguda.
    -- No! -- Callie parecia magoada. -- Eu no faria isso!
    -- Uma ova que no faria. Deixa pra l. Tenho que ir
embora dessa merda.
    -- Do que ela est falando? -- perguntou Celine enquan-
to Brett disparava para fora.
    Callie encarou fulminando a figura de Brett que se afasta-
va e no respondeu.
    -- Parece que ela est tendo problemas com os homens...
Ela nem quer ver o Jeremiah! -- acrescentou Celine. -- E ele
 to gato!
    -- Ah, no  com o Jeremiah que ela est tendo proble-
mas -- cochichou Callie. --  com, sabe quem... o Sr. Dalton.
    A boca de Jenny se escancarou. Ai. Meu Deus. Que amiga
era a Callie.
    -- Dalton? -- repetiu Celine. As meninas a olharam num
silncio aturdido.
    -- Total. Eles realmente esto... -- Callie comeou a co-
chichar, mas foi interrompida por Heath Ferro. Estava com
um capacete viking falso,  la Flava Falv, e tinha tirado a cami-
sa para revelar uma tatuagem celta temporria no peito.
    -- Oi, meninas. -- Ele passou os braos em Jenny e Callie.
Acho que ele gosta de mim de novo, pensou Jenny pervertidamen-
te. No que ela se importasse. -- Estou cheio de idias. --
Ele apontou para os chifres.
    Celine riu.
    -- Eca!
    --  claro que est, Pnei -- disse Benny, que tinha apa-
recido atrs deles.
                                                             265
     --  verdade. Ento, querem jogar "Eu Nunca?" -- Heath
pegou uma garrafa de Cuervo de uma mesa prxima.
     -- Claro que sim -- concordou Callie rapidamente, des-
viando os olhos de Brett, que parou na porta da tenda, todo o
corpo tremendo.
     -- Tudo bem, mas regras novas: se vocs nunca transaram
vo ter que tomar um gole e beijar algum -- anunciou Heath,
afagando um dos chifres do capacete.
     -- Voc  inacreditvel. -- Benny riu.
     -- T bom. -- Callie suspirou. -- Mas nada de lngua.
     Jenny, Heath, Sage, Teague Williams e Benny se organi-
zaram no gramado molhado do lado de fora da tenda. O ar
estava frio e mido, mas Jenny sentia um calor vindo da bar-
riga. O martni de Red Bull fez com que se sentisse meio es-
tranha.
     -- Quem quer ser o primeiro? -- perguntou Heath, dan-
do um gole longo na Heineken.
     -- Eu vou. -- Jenny levantou a mo. Ela serviu a bebida
em pequenos copos de plstico. -- Tudo bem. Ento.
Humm... Eu nunca transei num campo.
     Callie, Celine e Benny deram de ombros. Jenny, Heath e
Teague tomaram um gole.
     -- Vamo l, Jenny -- chamou Heath, arrastando-se pela
roda na direo dela. -- Vamos ver se voc se lembra como se
faz.
     Eca, eca, eca. Jenny deu um selinho de bbada na boca de
Heath e depois lhe deu um beijo brincalho na barriga.
     -- Jia! -- guinchou ela. E em vez de rir dela, todo o
mundo gritou e tomou outro gole, s para se divertir.
266
                            30
            NEM TODAS AS WAVERLY OWLS
                PRECISAM DE CULOS.
E
         asy puxou o baseado com fora e o passou a Alan St.
        Girard. Eles estavam sentados em um pequeno nicho
        que os separava do resto da tenda com aquelas corti-
nas de contas que uma vov podia ter na casa de jogos.
    -- Esta festa est um saco -- Easy conseguiu grunhir en-
quanto tentava prender a fumaa da maconha nos pulmes.
    -- Mas no so sempre assim? -- respondeu Alan.
    Eles conversaram por alguns minutos sobre que festa ti-
nha sido a melhor e concluram que foi a que Tinsley Car-
michael dera na enorme cabana de madeira dos pais dela no
Alasca um ano e meio antes. Aconteceu nas frias de prima-
vera e a maioria dos meninos tinha ido com os pais para Park
City ou Monte Carlo, ento nem todos foram ao Alasca. A
casa ficava na beira de um lago de gelo, perto de uma monta-
                                                        267
nha roxa gigantesca. Todos beberam tanto vinho tinto que fi-
caram completamente desinibidos. Isso foi antes de Easy e
Callie ficarem juntos, e ele convenceu Tinsley a ficar nua com
ele e se sentar na hidro externa da casa, onde eles conversa-
ram a noite toda. Foi o tipo de festa onde tudo  sereno e per-
feito -- ningum ficou chateado com ningum e todo mundo
tomou um porre divertido sem desmaiar nem vomitar no piso
de teca.
    A cortina de contas se abria e Brett entrou de repente.
Estava toda de preto e parecia spera e amuada, como aquela
bruxa velha e m da ma em Branca de Neve.
    -- O que  que t pegando? -- perguntou Easy enquanto
ela se jogava ao lado dele.
    -- Posso me esconder aqui com vocs? -- Ela pegou o
baseado, que tinha queimado at uma guimba pequena e
nodosa, deu um longo trago e soprou a fumaa pelo nariz.
    -- Claro.
    -- Vocs, homens, no tm sentido nenhum -- disse ela
por fim depois de uma longa pausa, passando as mos no ca-
belo insanamente ruivo.
    -- Quem, eu e Alan?
    -- No. -- Brett se virou para Easy, e Easy se lembrou do
motivo para ele gostar tanto dela. Brett tinha queixo largo,
olhos grandes, um rosto bonito, meio como o de Mandy
Moore. -- Quer dizer... Por que  que quando vocs querem
uma coisa, e quando conseguem, quando ns damos a vocs,
vocs estragam tudo?
    Alan deu um tapa e se recostou, passando a mo no cabelo
castanho muito curto.
268
    -- Isso  meio profundo demais para mim, cara.
    Brett pegou os cigarros e acendeu um.
    -- Deixa pra l -- disse ela num tom de zombaria, levan-
tando-se novamente. Ela semicerrou os olhos para Easy. --
Voc ainda est com a Callie?
    -- Sei l.
    Ela deu uma risadinha.
    -- Foi o que eu pensei. Vou dar o fora daqui. Boa festa
para vocs, meninos.
    -- Ela  to estranha -- murmurou Alan. -- Sabe o que
eu soube? Ouvi dizer que ela est trepando com um dos pro-
fessores. Aquele cara novo.
    -- A Brett? -- perguntou Easy, procurando por ela. --
No.
    -- No sei no, cara. Olha s pra ela. Ela est um lixo.
    Easy grunhiu e rolou uma das cortinas de contas bege entre
os dedos. Seu crebro de chapado tentou processar o que ti-
nha acontecido com Callie. Eles estavam juntos ou no?
    Ele se levantou e separou as contas com a mo, sentindo-
se totalmente confuso. Ele esperava que o amor fosse uma
coisa estupenda, talvez meio dolorosa. Como o jeito dolorido
e gasto como ficavam suas costas e pernas depois de cavalgar
em Credo o dia todo. Ou a sensao de quando ele estava em
Paris, parado no Sena, vendo as pessoas passarem, e de repen-
te percebeu que ele estava exatamente ali naquele momento e
no preso em algum lugar do passado ou do futuro. Mas ele
no tinha certeza se sentia a mesma coisa com Callie. Onde
estava ela, alis?
    E foi a que ele a viu.
                                                          269
    Heath Ferro beijava Callie em todo o rosto. Ela baixou
tanto a cala jeans dele que ela caa abaixo dos quadris. Ele podia
ver um pedao do traseiro dele. Como sempre, Heath estava
no comando.
    Easy voltou para o esconderijo. Bom, a estava a resposta
dele.
270
                              31
           UMA WAVERLY OWL SABE QUE S
            VEZES  UMA BOA IDIA FICAR
                SENTADA NAS SOMBRAS.
     P
              arece que estou toda solta e sacudida. -- Jenny
--            agitou os braos em volta do corpo. Ela foi para o
              gramado surpreendentemente silencioso atrs da
tenda. Havia um pequeno jardim japons de rochas, um ban-
co de pedra com musgo e um espelho d'gua ladeado por la-
drilhos cor de jade. Um peixe dourado gigante nadava devagar
no espelho d'gua redondo. Depois de algumas rodadas de "Eu
Nunca", Brandon lhe deu um tapinha no ombro e perguntou
se ela queria tomar um pouco de ar.
    -- Voc estava ficando meio verde l dentro -- disse ele.
    -- Eu estou bem. Mas obrigada por me tirar de l. Estava
ficando meio esquisito. -- Ela no ficou realmente entusias-
mada por ver um pedao da bunda de Heath Ferro, que tentava
                                                            271
aparecer ao mximo.
    -- Tudo bem.
    -- Por que  que no jogou com a gente? Voc tem algu-
ma coisa contra jogos de beijar?
    -- Eu... -- Ele hesitou. --  complicado.
    Jenny virou a cabea.
    -- T legal -- respondeu ela. Ela estava feliz que Brandon
se sentisse bem s de ficar sentado com ela em silncio, sem
explicar nada. Os amigos ficavam juntos sem dizer nada, afi-
nal, e embora ela estivesse se divertindo muito na festa, algu-
ma coisa nela parecia vazia, agora que estava bbada. Com
quantas pessoas dali ela realmente se sentia ligada? Brandon
era um amigo de verdade e eles podiam ser sinceros um com
o outro. Ela pousou a cabea no ombro dele e olhou para o
reflexo dos dois no espelho d'gua.
    -- Voc nunca me contou que ficou com a Callie no ano
passado. -- Ela olhou para ele.
    Ele olhou para baixo.
    -- .
    --  por isso que voc odeia tanto o Easy?
    Ele assentiu.
    -- Bom. Isso faz sentido.
    -- Mas  to confuso -- comeou Brandon devagar. --
Eu ainda gosto de verdade dela. Tentei no gostar, mas... No
consigo.
    -- Eu entendo perfeitamente -- disse ela, pensando em
Easy.
    Outro reflexo apareceu no laguinho. Era de um cara de
cabelo desgrenhado e irresistivelmente bonito que, apesar de
272
estar em uma festa, ainda tinha manchas de tinta no pescoo.
Jenny prendeu a respirao. Era como se ela tivesse conjura-
do Easy s de pensar nele.
    Ou talvez ela s estivesse meio de porre.
    -- Oi. -- Ele a cumprimentou com delicadeza.
    Jenny piscou. Ele vestia uma camiseta preta desbotada
NASHVILLE MUSIC FESTIVAL e jeans sujos e manchados
de tinta. O cabelo basto, brilhante e quase preto, que precisa-
va com urgncia de um corte, enroscava no pescoo dele.
    Brandon fechou a cara de frustrao, depois apertou a mo
dela.
    -- Eu preciso ir -- anunciou. Ele se curvou e cochichou
no ouvido dela. -- Boa sorte.
    Brandon passou roando por Easy sem cumpriment-lo,
depois lentamente se afastou. Easy se sentou ao lado de Jenny.
    -- O que vocs estavam fazendo aqui fora? Tem todo tipo
de merda doida acontecendo neste lugar.
    -- , eu participei de uma merda doida, mas decidi sair e
olhar o espelho d'gua.
    -- Uma beleza -- murmurou Easy.
    -- , no ?
    -- Eu quis dizer voc, e no o lago -- sussurrou ele.
    As palavras de Jenny ficaram presas na garganta. Ela tam-
bm estava muito, muito bbada. Mas de repente ela tambm
se sentiu muito, muito sbria. Easy acendeu um cigarro e o
fumou em silncio, deixando uma faixa fina de fumaa cinza
vagar pelo jardim e formar um halo sobre as rvores de
origami.
    -- Eu vi seu grito no jogo de hoje. -- Easy quebrou o si-
                                                           273
lncio. -- Foi... Qualquer coisa de impressionante.
    -- Ah -- ela conseguiu dizer, olhando para baixo,
constrangida. Quanto mais bbada Jenny ficava mais ela se
perguntava se realmente pertencia a este lugar. Ento ela trans-
formou o grito de torcida hoje, mas e se ela no conseguisse
manter esse tipo de raciocnio rpido o tempo todo? Ela ten-
tava no pensar nisso, mas pensamentos horrveis sobre a au-
dincia do Comit Disciplinar ficavam se esgueirando para
dentro de sua mente.  claro que ela foi popular esta noite,
mas que importncia tinha isso se ela fosse expulsa da Waverly
na segunda-feira? Ela podia dedurar Callie, mas todo o mun-
do definitivamente a odiaria se ela conseguisse a expulso de
Callie. No havia jeito de sair ganhando nessa.
    -- Onde voc aprendeu aquilo?
    -- Na verdade...  esquisito demais pra explicar.
    -- Sei -- respondeu Easy. -- Mas a, sabe quando te falei
das corujas naquele bilhete?
    -- Sei. -- Jenny olhava para o perfil dele pelo canto do
olho. A noite estava ficando mais fria e ela podia ver o orvalho
se formando na grama ao redor deles. Ela se perguntou que
horas seriam.
    -- Voc acha que foi totalmente idiota?
    Jenny cruzou as pernas.
    -- O qu? No. Por qu?
    -- Porque... Eu te disse que eu achava que elas conversa-
vam.
    -- No. Na verdade, eu achei um doce.
    -- Achou? -- Ele sorriu timidamente para o cho.
    -- . -- Ela sorriu tambm, agora olhando para ele.
274
     Easy se aproximou aos poucos de Jenny.
     -- Por qu?
     Jenny pensou no motivo. Porque voc  um gato? Porque voc
 lindo? Porque eu no consigo deixar de pensar em como voc  per-
feito para mim?
     Jenny se aprumou.
     -- Easy? Voc est me dando mole porque a Callie te
pediu para fazer isso?
     Ele deu um trago no cigarro.
     -- Eu ia te perguntar a mesma coisa.
     -- Ah -- disse ela, confusa. Ela encarou o prprio refle-
xo na gua. -- Bom, est?
     -- No -- respondeu ele por fim. Jenny percebeu que a
mo dele estava tremendo. -- E voc?
     -- No -- respondeu Jenny rapidamente. --  claro que
no estou.
     -- O que voc vai fazer no CD? -- perguntou ele depois
de alguns segundos, apagando o cigarro numa pedra. -- Vai
dizer que foi culpa da Callie?
     -- Eu ainda no decidi. -- Jenny sentiu o rosto se enru-
gar. Ela no queria estragar a vida de Callie, mas tambm no
queria ser expulsa da Waverly. E se ela sasse do CD e nunca
mais visse Easy?
     -- Olha -- Easy suspirou. -- Eu no acho que nada disso
 certo, e eu no acho que voc deva se meter em problemas.
E alm disso, eu nem estou mais com a Callie.
     Jenny prendeu a respirao.
     --  estranho que ela esteja manipulando a gente, n?
     Ela assentiu imperceptivelmente.
                                                               275
    -- E mais do que isso... As coisas no esto certas -- sus-
surrou ele, como se estivesse falando consigo mesmo.
    -- Como assim? -- perguntou Jenny, desejando que ele
olhasse nos olhos dela e depois, talvez... para sua boca.
    -- Bom... -- Easy se recostou na grama e olhou o cu.
Jenny se lembrava de como ele apontou as Sete Irms no teto
e se perguntou onde estava a constelao esta noite. -- Sabe
aqueles comerciais de diamante De Beers que mostram o amor
como... como uma coisa cintilante e louca?
    -- Sei -- disse Jenny, deitando-se de costas tambm.
    -- Bom, eu quero isso -- explicou Easy, falando para a
frente. -- Eu no tenho isso agora, mas quero. No de um
jeito idiota, mas quero tudo isso.
    Jenny tremeu por dentro. Ela entendia completamente o
que ele queria dizer. E enquanto eles olhavam o cu, as estre-
las no alto piscaram, cintilantes. Como se fossem diamantes.
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        OwlNet           Caixa de Entrada de E-mail
   Para:   "galera da festa" (27 membros na lista)
     De:   HeathFerro@waverly.edu
   Data:   Domingo, 8 de setembro, 11:40h
Assunto:   Demais, demais, demais
Pessoal. A festa Sbado Negro foi superquente. Alguns nmeros
interessantes:
6: Nmero de meninas com quem fiquei ontem  noite. (Esse  o
nmero de que eu me lembro,  claro.)
11: Garrafas de Cuervo que secaram. Caraca!
1: Cara estranhamente elegante parado na margem do jogo "Eu
Nunca", olhando ansioso para uma certa deusa loura de Atlanta.
2: Pares de sapatos femininos perdidos. Um par de Manolos, um
par de Tod's. Quem  que ficou to mal que foi para casa descala?
2: Pessoas sentadas no meu laguinho de peixes, olhando-se nos
olhos amorosamente. Mas e no vou contar quem so. S meu peixe
dourado, Stanley, sabe disso.
At mais, galera,
Heath
P.S.: Mal posso esperar pela prxima farra.
P.S.2: S faltam trs semanas. Tratem de descansar!
                                                                 277
                             32
       PRATICAR UM ESPORTE  UMA FORMA
     SAUDVEL DE AS WAVERLY OWLS LIDAREM
               COM SUA AGRESSIVIDADE.
A
         s equipes esportivas da Waverly eram to cruis que
         obrigavam todo o mundo a ir ao treino de esportes
         no Domingo Mais Negro (assim chamado por mo-
tivos bvios). Todos chegaram ao campo com bafo de martni,
olheiras nos olhos ainda manchados nas plpebras superiores
e a lngua rosa, cortesia de duas doses de Pepto Bismol para
acalmar o estmago revoltado.
    Callie estava sentada no banco de hquei com a cabea
entre as pernas. Estava com um chupo no pescoo e tinha
certeza de que no era de Easy. Ela tentou cobri-lo com o bas-
to Joey New York, mas a grande mancha roxa ainda estava l.
Na verdade, ela no dava a mnima para isso, queria se enros-
car de novo no cobertor de cashmere e chupar o dedo. Ela olhou
                                                          279
Jenny e Brett sentadas na grama, alongando-se, como se no
tivessem tomado uma gota de lcool na noite anterior. Desde
quando elas eram to boas amigas?
    A Sra. Smail soprou o apito e chamou as meninas para o
incio da partida. De todas as coisas a fazer em um treino ps-
festa Sbado Negro, elas iam realmente jogar? Por que todo o
mundo no dava s umas voltas e ia para a cama?
    -- Callie Vernon, Brett Messerschmidt, vocs no meio-
campo -- instruiu a Sra. Smail.
    Um arfar coletivo surgiu do banco. Todas viraram a cabe-
a de um lado para o outro, do rabo-de-cavalo louro de Callie
para o cabelo ruivo de Brett. Callie se levantou do banco, sen-
tindo-se inchada e nauseada. Ela viu Brett correr para o meio
do campo. A frustrao cresceu dentro dela novamente. Como
Brett ousou no contar a ela sobre o Sr. Dalton?
    Assim que a Sra. Smail largou a pequena bola prateada,
Brett bateu nela, girando o basto com tanta estupidez que
atingiu a caneleira de Callie.
    Callie recuou de dor e raiva. Ela disparou atrs de Brett,
que agora estava alguns passos  frente dela, conduzindo a bola.
O gramado estava molhado debaixo de seus ps e as travas
pretas e brancas do tnis Nike afundavam no cho. A saia de
Brett se levantou tanto que era possvel ver o fundo do short
marrons STX e a bunda magrela. Callie a alcanou e desceu o
basto entre Brett e a bola. Depois as mos de Brett giraram e
ela bateu na bola com o lado redondo do basto de hquei,
mandando-a para longe de Callie, para uma jogadora de meio-
campo do time de Brett.
    -- Falta! -- gritou Callie, parando no campo. -- Sra.
280
Smail! Foi falta!
    -- Eu no vi -- respondeu a Sra. Smail. -- Continuem
jogando. -- Ela gesticulou para as outras meninas, que tinham
pego a bola e a conduziam para um dos gols.
    -- Meu Deus! -- Callie atirou o basto no cho, de des-
gosto. -- Ela bateu na bola com o lado errado do basto!
    -- Tanto faz -- disse a Sra. Smail. --  s um treino e eu
no vi isso.
    Callie se virou para Brett, os olhos estreitados.
    -- No ensinam hquei em Nova Jersey, n?
    Callie observou enquanto a pele leitosa de Brett ficava mais
branca.
    -- Vai pro inferno -- murmurou Brett por fim.
    -- Aaaah, o grande retorno da monitora da turma, Brett
Messerschmidt. Pensei que voc tinha timas habilidades de
debate! Pensei que podia se safar de tudo s no papo!
    -- Meninas -- alertou a Sra. Smail --, joguem, Brett, seu
time acaba de marcar um gol.
    Brett contornou a Sra. Smail para encarar Callie.
    -- Que foi, Callie? Que coisa enorme  essa que voc tem
contra mim? Eu  que devia estar com raiva de voc... E no o
contrrio!
    -- Ah, ? E por qu?
    -- Porque voc  uma cretina manipuladora,  por isso!
-- gritou Brett.
    As outras jogadoras arfaram. A Sra. Smail tentou se meter
entre elas, mas Callie lanou-lhe um olhar que dizia Fique fora
disso. A Sra. Smail se virou e comeou a andar rapidamente
para a sede.
                                                            281
    Callie se virou para Brett.
    -- Retire o que disse. Eu no sou manipuladora.
    Brett deu uma gargalhada.
    -- No? Ento o que  toda essa histria de Jenny e Easy?
Como  que no  manipulao? -- Ela olhou para Jenny, que
estava parada perfeitamente imvel, o basto suspenso, ven-
do-as de sua posio no meio-campo.
    Callie olhou para Jenny tambm. timo. Que timo. Um
comentrio assim ajudaria muito a Jenny a livrar a cara dela
no CD. Ela olhou para Brett.
    -- Voc no sabe de nada.
    -- Eu no preciso saber de nada -- rebateu Brett. -- Eu
conheo voc e sei como age. Pelo que voc fez com a Tinsley.
    -- Tinsley?! -- A boca de Callie se escancarou.
    --  isso mesmo. -- A voz de Brett estava rouca. Ela se
aproximou da ex-amiga, to perto que as duas quase se toca-
ram pelo nariz. -- Por que no abre o jogo? Voc armou para a
Tinsley levar toda a culpa. Voc fez isso para no ficar encrencada.
    Ah, isso j era alguma coisa.
    -- Eu armei? Quem disse que no foi voc que armou?
-- gritou Callie.
    As lgrimas corriam de seus olhos.
    -- Eu nem falei com a Tinsley antes de ela ir embora! Eu
fui chamada no CD, sa, e ela j tinha sado!
    -- Ah, t. Essa  uma boa...
    -- Por que eu ia armar pra cima da Tinsley? Ns ramos
amigas!
    Brett recuou um passo e olhou para Callie, confusa. As
duas se olharam por longos segundos antes dos ombros de
282
Brett relaxarem um pouco.
    -- Est falando srio, no est?
    Callie assentiu feroz.
    -- E voc acha que eu meti a Tinsley em problemas?
    -- Bom, eu no fui, ento deve ter sido voc -- explicou
Callie, mas Brett podia ouvir a bravura dela enfraquecendo.
    -- Eu nem tive a chance de falar com a Tinsley tambm.
Ela foi embora antes que eu conseguisse.
    Callie olhou para baixo.
    --  mesmo?
    -- .
    As outras jogadoras soltaram a respirao.
    -- Eu no entendo -- conjecturou Brett. -- A Tinsley
simplesmente... Assumiu a culpa por ns, sozinha?
    -- Acho que sim. Mas por que ela fez isso?
    -- Sei l.
    Callie comeou a rir.
    -- Isso est mesmo uma merda.
    Brett comeou lentamente a rir tambm.
    -- Meu Deus, eu pensei total que tinha sido voc.
    -- E eu pensei que tinha sido voc!
    -- E eu pensei que voc estava pedindo transferncia de
quarto s para no ter que falar comigo sobre a Tinsley!
    Atrs delas, a Sra. Smail corria com o Sr. Steinberg, o trei-
nador de futebol masculino. Quando viu Callie e Brett rindo
e depois se abraando, ela parou, confusa.
    -- Eu juro que elas estavam a ponto de se matar.
    -- Mulheres -- suspirou o Sr. Steinberg meio desanima-
do, sacudindo a cabea.
                                                             283
                              33
     UMA WAVERLY OWL DEVE TER O CUIDADO
                DE NO SER FLAGRADA.
A
         Sra. Smail passou os dedos no cabelo curto louro-mel.
         -- Sabe de uma coisa, por que vocs todas no vo
         para o banho? -- sugeriu ela depois de um momento.
    At que enfim.
    Brett sentia-se como se tivesse corrido uma maratona, e
era assim que sempre se sentia depois de uma briga violenta
com algum. Ela andou lentamente de volta s arquibancadas
com Callie e nenhuma das duas falava. Mas era um silncio
agradvel, e no um silncio tenso. Ela atirou as caneleiras na
bolsa de nilon cinza Herv Chapelier e percebeu o celular
vibrando. Era uma mensagem de texto: Venha at o meu barco
quando puder. Precisamos conversar. -- Eric
    Ela ps a cabea entre as mos. Aquele nico beijo demo-
rado. Os lbios macios dele. O modo como ele finalmente
                                                           285
colocou os braos em volta dela, puxando-a para mais perto.
O cheiro dele, como menta, cigarro e sabonete de lavanda fran-
cesa. O modo como ele sorriu um pouco quando eles para-
ram. Ela se sentiu to rejeitada depois do beijo dos dois ontem,
mas quem sabe se ele mudou de idia? Ela sabia que era peri-
goso, mas viver no era assumir riscos? Ela esperava que Eric
sentisse a mesma coisa.
    Ele estava esparramado em uma moderna espreguiadei-
ra branca no convs do barco, um saco de pretzels de mostar-
da com mel ao lado, quando ela chegou. Ele se levantou e
espanou os farelos da cala.
    -- Oi.
    -- Oi -- respondeu ela, parada na beira da gua. Ela ti-
nha se vestido rapidamente com uma camiseta C&C Cali-
fornia preta e jeans Blue Cult de cs baixo, esperando parecer
informal e modesta, mas agora a roupa parecia totalmente
errada. A blusa dela era to curta e as calas to baixas que a
maior parte de sua barriga acenava para ele. Era dclass demais
para Eric. Ela tentou cobri-la com a mo. No ajudou em nada
que ele estivesse absolutamente lindo, o cabelo castanho-
alourado em cachos na beira da camisa plo branca.
    -- Oi. -- Ele sorriu para ela.
    -- Oi de novo -- disse Brett em voz baixa.
    Eles ficaram em silncio, olhando-se  distncia. Brett se
sentia uma idiota -- obviamente ele no sentia a mesma coi-
sa. O estmago de Brett se espremeu dentro dela, irritado por
ele t-la feito vir aqui para dizer a ela o que ela j sabia: que
eles no podiam se ver mais, bl, bl, bl. T legal, grande coisa.
Ela queria que isso acabasse rapidamente. E no queria v-lo
286
nunca mais. Ela podia se demitir do CD. Quem se importava
se isso fosse importante para sua candidatura  universidade?
Havia outras maneiras de entrar para a Brown.
    -- Mas ento eu estava pensando no seguinte. -- Ele in-
terrompeu os pensamentos dela. -- Voc tem mais um ano
aqui. E voc tem 17 anos. Eu tenho 23. Isso d seis anos.
    -- Arr -- respondeu Brett, torcendo um cabo que esta-
va em um dos mastros do convs.
    -- Seis anos. Bom, quando estivermos os dois na casa dos
vinte anos... voc ter, digamos, 22 e eu, 28. E quando eu ti-
ver cinqenta, voc ter 44.
    Brett bufou.
    -- Do que voc est falando?
    -- Eu... -- comeou Eric.
    -- Sem querer ofender -- respondeu Brett rapidamente,
endireitando-se. -- Mas eu no vou, tipo assim, esperar por
voc at que eu tenha 44 anos. Eu espero estar com um cara
mais novo nessa poca.
    Eric a encarou atentamente.
    -- Eu no acho que possa esperar at que voc tenha 44.
    -- Ah -- respondeu ela, girando o cabo no dedo com tanta
fora que comeou a cortar sua circulao.
    Ele a encarou, depois suspirou.
    -- Quer entrar na minha cabine?
    Brett parou. Ela no era otimista, mas desconfiava de que
este seria o maior e mais importante momento de sua vida.
Parada ali, com uma camiseta vulgar e o jeans mais vulgar ain-
da, em um domingo qualquer depois do treino de hquei,
meio de ressaca, com 17 anos, um cravo minsculo no canto
                                                          287
da bochecha direita que foi coberto com MAC, o dever de casa
de biologia avanada por fazer... Sua vida era um tdio. Mas
se ela quisesse que acontecesse, os momentos seguintes po-
diam mudar sua vida para sempre.
    -- , eu acho que posso fazer isso. -- Ela sorriu para si
mesma e ps a mo na amurada do convs para subir a bordo.
288
                                34
              S VEZES UMA WAVERLY OWL
                  DEVE ASSUMIR RISCOS.
A
         o contornar a esquina do Dumbarton, Callie viu Easy
         bloqueando a porta da frente. Seu primeiro instinto
         foi se virar na outra direo e voltar ao campo de treino.
    Mas Easy a viu.
    -- Espera. -- Ele desceu a escada de concreto. -- Volta
aqui.
    Callie se virou relutantemente. Ela teve flashes de ima-
gens borradas da festa da noite anterior: uma confuso de gar-
rafas de tequila, a tatuagem celta horrorosa de Heath, Easy
espiando atravs da cortina de contas, o e-mail infantil de
Heath no dia seguinte. At o comeo do ano, todo o mundo
se divertia em ver como Heath pegava todas as meninas; e 
claro que ela estava bbada, com raiva de Brett e com uma raiva
ainda maior de Easy, mas por que ela precisava deixar que
                                                               289
Heath a pegasse tambm?
     -- Oi -- respondeu ela num murmrio.
     -- E a. Se divertiu ontem  noite? -- perguntou ele, as
sobrancelhas erguidas.
     -- Desculpe. -- Ela bateu as mos na saia xadrez marrom
e azul do hquei. -- Sobre o... Voc sabe. Aquela coisa. Foi
idiotice. Um jogo de bbados.
     -- Definitivamente me pegou de guarda baixa. -- Easy
passou o p em um seixo do passadio. Ver Easy desajeitado
daquele jeito fez Callie derreter.
     -- Foi uma festa esquisita. -- Ela olhou para baixo.
     Easy no respondeu.
     -- No foi como no ano passado -- prosseguiu Callie.
-- Eles s estavam se divertindo.
     Ela se sentou no degrau da escada e reuniu os joelhos,
combatendo o impulso dominador de fechar os olhos com
fora.
     -- Eu s quero que as coisas com a gente sejam tambm
como no ano passado. A gente se divertiu tanto.
     --  -- disse Easy delicadamente.
     -- O que aconteceu com a gente?
     -- No sei.
     -- Talvez a gente possa recuperar tudo. -- Callie levan-
tou a cabea, esperanosa. -- Talvez, se a gente s, sei l. A
gente pode ir a algum lugar longe do campus e conversar. Um
lugar onde no tenha ningum. Qualquer lugar que voc quei-
ra. Eu at cavalgo com voc -- acrescentou ela impulsivamen-
te. Easy sempre tentou conseguir que ela andasse a cavalo com
ele e ela jamais quis.
290
    -- Voc faria isso?
    -- Se no me expulsarem daqui, sim. -- Ela se remexeu
no degrau. -- Eu ainda no sei o que a Jenny vai fazer. Quer
dizer, no acho que ela queria me dedurar, mas ela no quer
ter problemas.
    Easy encarou os prprios tnis.
    -- Eu no acho que a Jenny deva ter problemas.
    -- , voc j disse isso. -- Callie ouviu a tenso na pr-
pria voz.
    -- Acho que voc devia assumir a culpa. Jenny no tem
nada a ver com isso.
    -- Se eu assumir a culpa, vou ser expulsa. Voc quer isso?
    Easy sacudiu a cabea.
    -- No. Eu... Sei l. Se pelo menos existisse um jeito de
nenhuma das duas ter problemas...
    -- No entendi. -- Callie o encarou. -- Por que voc se
importa tanto se ela vai ter problemas ou no? Vocs nem se
conheciam at que eu... -- De repente, foi como se uma lm-
pada tivesse se acendido em sua cabea. O que Brandon tinha
dito a ela depois da festa pr-Sbado Negro. As palavras no
brao de Jenny. O email de fofoca de Heath (duas pessoas se
olhando nos olhos amorosamente). Os dois estavam receptivos
demais  paquera quando Callie pediu isso a eles.
    Easy gostava de Jenny. No porque Callie disse a ele para
gostar dela. Mas porque ele realmente gostava.
    Callie enfiou o polegar na boca e se virou para que ele no
visse sua expresso.
    Easy a observou enquanto ela se virava, perguntando-se o
que ela estava pensando. Como ele podia salvar Jenny e Callie?
                                                           291
A nica coisa em que podia pensar era colocar em risco seu
prprio lugar na Waverly. Ser que ele seria homem o bastan-
te para isso?
     Callie se virou novamente.
     -- Acho que o que tiver que ser, ser.
     -- Quem sabe? Eles ainda podem me expulsar.
     Ela ficou em silncio por um segundo.
     -- Eu s queria voltar no tempo.
     Easy ps a mo sobre a de Callie.
     -- Eu sei -- respondeu ele, pensando. Isto... o que quer
que fosse... com Jenny... parecia grande demais para ele en-
tender. E talvez assustador demais. Olhando para Callie, sen-
tada no degrau com sua saia de hquei e chinelos depois do
treino, o cabelo puxado para trs num rabo-de-cavalo emba-
raado e sem um pingo de maquiagem, ela parecia uma criana.
No uma adulta do mundo, cheia de emoes. Ela era doce e
segura, e era algo que ele entendia. Ele odiava pensar em deix-
la, quer isto significasse deix-la pela Jenny ou deixar a Waverly
completamente. -- Talvez eu possa fazer com que isso acon-
tea -- disse ele, apertando a mo dela com os dedos.
292
                              35
       AS WAVERLY OWLS DEVEM SE ESFORAR
          PARA QUE OS NAMORADOS NO AS
              PEGUEM COM OUTRO CARA.
U
            ma hora depois, Brett descia a prancha do barco,
            maravilhada, a mente girando do que tinha acaba
            do de fazer.
    Eric Dalton tirara suas roupas e a beijara em toda parte.
Depois ele tirou as prprias roupas lentamente, como se esti-
vesse num clube de strip-tease. Brett nunca vira um cara tirar
as roupas  luz do dia. Ele ficou olhando para ela o tempo todo.
Eles se afagaram e depois se agarraram e, justamente quando
as coisas estavam acontecendo, ela de repente disse a ele que
precisava de ar fresco. Estar com Eric era mais do que espera-
va. Mais do que sua fantasia dele tinha sido. Parecia esmaga-
dor. E no necessariamente era bom de todo. Ela precisava
pensar.
                                                            293
    E ento, quem ela viu parado na ponta das docas?
    Que porra!
    -- L est ela -- murmurou Jeremiah para si mesmo. --
Eu achei que voc no gostava de velejar.
    Ele estava com olheiras enormes. Vestia jeans e uma ca-
miseta branca que dizia CBGB OMFUG, aquele clube punk
no East Village, em Manhattan, e levava uma bolsa gigantesca
de viagem L. L. Bean com as iniciais bordadas de um lado.
Brett sentiu uma pontada de culpa -- alguma coisa em
Jeremiah, duro e frio, andando com uma bolsa que sem dvi-
da a me dele tinha mandado monogramar para ele, parecia
realmente vulnervel e doce.
    -- Ah. Oi.
    -- Oi? -- Jeremiah sacudiu a cabea. --  s o que pode
dizer. Oi?
    -- Bom -- Brett tentou passar por ele, mas ele a deteve
com o brao. A mo pegou o bceps dela com fora. Por uma
frao de segundo ela teve um pouco de medo e olhou para o
barco procurando por ajuda. Depois ela entendeu, este era
Jeremiah. Ela se livrou do aperto dele. -- No toque em mim
desse jeito! No recebeu meu recado?
    -- O qu, ento voc termina com algum por caixa pos-
tal? -- gritou ele. -- Mas que classe a sua. Eu pensei que voc
fosse melhor do que isso.
    Brett no queria ter essa discusso bem na frente do barco
-- Eric, que se despiu lentamente. Eric, que a tocara como
um perito e de forma madura, e no do modo desajeitado e
arrebatado como agiam os meninos da idade dela. Eric, que
no ficou irritado quando Brett se cobriu com os lenis Ralph
294
Lauren e disse que eles deviam parar. Ela comeou a descer o
caminho de volta para o campus.
    -- T legal. -- Ela se virou. -- Estou terminando com
voc pessoalmente, ento. Est satisfeito?
    -- Voc no acha que pode me dar pelo menos uma por-
ra de um motivo?
    -- Claro -- disse Brett. -- Voc realmente achou que era
srio? Ta. Te dei um.
    Jeremiah parou. Os olhos dele estavam inchados e verme-
lhos. Parecia que ele nem tinha dormido ainda.
    -- . Eu pensei que era srio. Por que mais eu ia te convi-
dar a ir a Califrnia comigo?
    -- Bom... -- Ela olhou para o cho.
    -- Mas  bvio que tem outro -- arriscou ele. -- Me dis-
seram para te procurar aqui. Tem um homem no barco, no
? Voc estava com um homem l, no barco dele, na cabine
dele? Vamos l, Brett. Isso  meio vulgar, voc no acha?
    Brett se aprumou e semicerrou os olhos. Como se ele
pudesse falar de baixa classe, usando esse sotaque idiota! De-
pois a ficha caiu.
    -- Pera, quem disse a voc que eu estava aqui?
    Jeremiah deu de ombros.
    -- Por que isso importa? -- Ele tirou um mao de Camel
Lights da mochila. -- A questo  que algum me contou e
voc deixou tudo muito claro. Ento, foda-se. Quem perde 
voc.
    Ele se virou e pulou para o gramado, um cigarro apagado
pendurado na boca.
    -- Pera -- gritou Brett com a voz rouca. Uma onda de
                                                           295
nervosismo percorreu seu corpo. -- Quem te contou que eu
estava...
    Mas ele estava longe demais para ouvir e ela no queria
gritar. Ela se virou e olhou para as docas. O barco de Eric os-
cilava placidamente na gua, como se no tivesse acabado de
testemunhar o momento mais transformador da existncia de
Brett. Com mais alguns passos, ela podia voltar para l e subir
na cama ao lado de Eric. Eles podiam tomar vinho e conver-
sar sobre as coisas e ele a faria se sentir melhor com tudo isso.
Depois ela podia transar com ele, pela primeira vez na vida.
    Mas ela no devia. E no sabia bem por qu.
296
                             36
       UMA WAVERLY OWL  SEMPRE SINCERA.
N
          a segunda-feira de manh, Jenny estava sentada 
          grande mesa redonda de carvalho na sala do reitor
          Marymount, faltando s alguns minutos para a reu-
nio do comit disciplinar. A sala tinha cheiro de uma combi-
nao de livros velhos e tinta nova. Easy sentava-se a algumas
cadeiras de distncia; Brett, Ryan, Celine e os outros mem-
bros do CD, bem como o Sr. Pardee, o Sr. Dalton e o reitor
Marymount, estavam em fila do outro lado da mesa, as mos
cruzadas e os olhos fixos em Jenny. Como era s para mem-
bros do CD, Callie no teve permisso para assistir  audin-
cia. Jenny imaginou Callie fumando nervosa todo um mao
de cigarros dentro do Dumbarton agora, na expectativa do
veredito.
    Na parede de frente para Jenny havia pinturas emoldura-
das em prata criadas pelas turmas de formatura da Waverly, de
                                                          297
1985 at o presente. Eram impresses das mos, em cores vi-
vas diferentes, cada uma delas com o nome do aluno na base.
At as mos dos alunos da Waverly pareciam ricas. Ela se per-
guntou como as dela ficariam junto com as dos outros ali.
Depois ela se perguntou se ela ia ficar na Waverly por tempo
suficiente para colocar as impresses da mo em uma tela de
turma.
    Mas isso  que era deixar tudo para a ltima hora. Ela ain-
da no tinha decidido o que ia dizer ao CD, e agora chegara o
momento. Marymount, parecendo especialmente suburbano
com um suter azul-marinho por baixo do blazer marrom da
Waverly e os culos redondos de aro dourado, lambeu o dedo
para virar a pgina de seu bloco.
    -- Muito bem, Sr. Pardee, as anotaes aqui dizem que o
Sr. Walsh foi pego no quarto da Srta. Humphrey. Eles esta-
vam conversando e o Sr. Walsh estava praticamente nu. Isto 
correto?
    --  verdade -- confirmou o Sr. Pardee. -- Eu os flagrei
e parecia que tinha acontecido alguma atividade sexual. -- Ele
olhou para a mesa, a cor subindo por seu pescoo. Jenny
mordeu o interior da bochecha.
    Marymount se voltou para Jenny.
    -- Srta. Humphrey?
    Era agora. Hora de ou entregar Callie, ou se entregar e es-
tragar a nova vida. Ela respirou fundo, embora no fizesse idia
do que estava prestes a dizer.
    -- Foi tudo minha culpa.
    Todos na sala se viraram para Easy. Ele deu um pigarro.
    -- Perdo? -- perguntou Marymount.
298
    -- Foi tudo minha culpa -- repetiu ele. -- Olha, eu esta-
va procurando pela Callie. Eu ia dormir, de cueca, e sa do meu
quarto desse jeito. Eu andei at o quarto dela, mas Callie no
estava l. Ento eu comecei a conversar com a Jenny, mas ela
no me convidou a entrar. Foi a que Pardee nos pegou. Pode
parecer que Jenny e eu estvamos juntos, mas no  verdade.
Ela realmente no tem nada a ver com isso.
    Jenny escancarou a boca.
    -- Eu me sentei na cama dela -- continuou ele. -- Ela
no me convidou. Eu simplesmente fui em frente e sentei.
    Marymount passou a mo no cabelo fino cor de areia.
    -- Voc percebe as repercusses disso? Como  inadequa-
do?
    -- . -- Easy tombou a cabea.
    Jenny mordeu o lbio e se sentou sobre as mos. A parte
de alunos do comit a encarava com uma expresso vazia, o
rosto totalmente sem emoo. Mais provavelmente porque
ainda estavam de ressaca da noite de sbado. Embora ela ten-
tasse ao mximo no transparecer emoo alguma, por den-
tro sentia-se uma mquina de pinball com defeito. Ela estava
livre, mas agora Easy estava bem encrencado. E se ele fosse
expulso? Ser que todos a culpariam? Mais importante, ser
que Jenny corria o risco de perder o primeiro cara na vida que
ela... amava?
    Marymount se endireitou e passou os ns dos dedos na
mesa.
    -- Srta. Humphrey? Foi isso que aconteceu?
    Jenny assentiu devagar. Era verdade, afinal. Mais ou me-
nos.
                                                           299
    -- Bom, mesmo assim, esta no  a melhor maneira de
comear o ano, em especial com seu grito de torcida no jogo
de hquei. Quero que v  minha sala na semana que vem. --
Marymount franziu o cenho. -- Acho que temos que pensar
em alguma coisa para mant-la longe de problemas.
    Jenny assentiu.
    -- Tudo bem.
    Marymount virou-se para Easy.
    -- S para que fique claro, Sr. Welsh, est assumindo toda
a culpa por isso?
    Easy respirou fundo. Ele sonhava com esse momento, o
exato segundo em que o expulsariam da Waverly. Em algum
lugar em seu ntimo, ele sempre soube que era inevitvel. Ele
imaginou o que ia dizer, o que estaria vestindo. Imaginou lou-
camente que estaria com o uniforme vermelho dos Power
Rangers que tinha quando criana e portaria um dos rifles
descarregados do pai, s para deixar todo o mundo meio ner-
voso. Ele estaria com os culos Terminator Dolce & Gabbana
enormes na testa. E ia dizer a todos os funcionrios da Waverly
precisamente o que ele pensava deles e depois ia subir em
Credo e cavalgar ao pr-do-sol.
    Mas as coisas nunca acontecem como a gente imagina.
Agora ele suava profusamente na camisa branca Brooks
Brothers e no blazer marrom da Waverly. Ele pensou em to-
das as coisas de que ia sentir falta se o expulsassem. As coru-
jas. O modo como o sol se punha laranja e roxo sobre o
Hudson. O vitral preferida da capela. A torta de cereja do re-
feitrio e a alegre funcionria Mabel de l, que era de uma
cidadezinha perto de Lexington. Callie. Jenny. Ele ia sentir
300
saudade de tudo o que viu em Jenny.
    -- E ento? -- insistiu Marymount.
    -- Sim. -- Ele assentiu. -- Eu assumo.
    -- Bem, ento -- continuou Marymount numa voz sua-
ve e decepcionada. -- Comit, consideramos o Sr. Walsh cul-
pado? Todos a favor?
    Brett, o Sr. Dalton, o Sr. Pardee e Benny ergueram as mos.
Os membros do primeiro e do segundo anos no comit de-
ram de ombros como quem se desculpa, mas tambm levan-
taram a mo. Por fim, Alan relutantemente ergueu a mo, e o
mesmo fizeram as duas meninas do terceiro ano.
    Uma pausa pavorosa encheu o ar enquanto Marymount
verificava a mo de cada membro do comit. Easy olhava para
o cho.
    Por fim Marymount suspirou.
    -- Muito bem.  isto que vamos fazer. Sr. Walsh, esta 
sua ltima advertncia. Vamos coloc-lo de castigo. De novo.
Duas semanas. Voc no pode ir ao estbulo a no ser que haja
uma emergncia com seu cavalo. Nada de privilgios na cida-
de, e nada de visitas. Voc ir  capela, s aulas e s refeies,
mas s.
    Ele continuou falando, mas ningum o ouvia. Alan, Benny
e as duas meninas do terceiro ano soltaram um suspiro cole-
tivo de gratido. Brett recuou na cadeira e cruzou os braos,
tentando no sorrir.
    -- Pera -- sussurrou Jenny para ningum em particular.
-- O que est acontecendo?
    -- Isto significa que o velho cretino me deixou ficar --
murmurou Easy. Mas, na voz dele, ela pde sentir como ele
                                                              301
estava feliz. E pelo olhar significativo que ele lhe deu, Jenny
pensou que talvez, s talvez, tivesse alguma coisa a ver com
ela.
302
                              37
 MUITAS WAVERLY OWLS PODEM SER INCRVEIS...
           MAS S UMA PODE SER DEMAIS.
B
        rett vasculhou a bolsa de hquei de nilon cinza Herv
        e pegou uma garrafa de 150ml de rum Gosling.
        -- Precisamos comemorar -- anunciou ela teatral-
mente. As trs meninas estavam sentadas exaustas no cho do
quarto 303 do alojamento Dumbarton, Jenny e Brett de
estresse do CD, e Callie de estresse de no estar no CD.
    Jenny viu enquanto Brett servia lentamente cada um dos
copos altos Crate & Barrel. Ela meio que se sentia como se
estivesse na festa Sbado Negro -- quente, pegajosa e inclu-
da. Era esta a vida que ela sonhara ter na Waverly, e agora era
real. Seus sonhos se tornando realidade.
    Pelo menos, ela sentia isso com Brett. Callie ainda estava
meio fria.  claro que assim que Jenny voltou ao quarto e
contou a novidade a Callie, ela rapidamente correu e deu um
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enorme abrao em Jenny, dizendo como estava eternamente
grata porque ela no a dedurou. Mas ainda havia um assunto
inacabado entre elas.
    -- Ao novo ano na Waverly -- brindou Brett.
    Elas bateram os copos.
    -- E -- interferiu Callie -- a ns, por deixarmos toda a
histria da Tinsley para trs.
    --  verdade -- concordou Brett.
    -- Eu nem sei o que  que perturbou tanto vocs -- ar-
riscou-se Jenny.
    --  uma longa histria.
    -- Rolaram uns boatos -- explicou Callie. -- As pessoas
ficaram falando do motivo para a Tinsley ser expulsa. Alguns
diziam que foi por minha causa, outros diziam que foi por
causa da Brett. Nenhuma de ns sabia no que acreditar.
    -- E por falar em boatos -- comeou Brett. Jenny perce-
beu que os olhos de Brett estavam rosados e as unhas, nor-
malmente com esmalte e tratadas  perfeio, estavam rodas
at o sabugo. -- Humm, uma de vocs ouviu falar alguma coisa
sobre Eric Dalton e eu?
    -- No -- respondeu Callie meio rpido demais. Jenny
olhou para ela meio confusa.
    Brett revirou os olhos.
    -- Quer dizer, eu sei que as duas sabiam. De qualquer
forma, eu estou tendo... Um lance com o Sr. Dalton.
    -- Voc dormiu com ele? -- perguntou Callie.
    -- No. Mas quase dormi.
    Elas ficaram em silncio por um momento.
    -- Mas, humm, o Jeremiah me pegou saindo do barco
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dele ontem -- continuou Brett sem se alterar, colocando o
cabelo atrs da orelha. Jenny percebeu um enorme chupo no
pescoo dela. -- E fico me perguntando como ele soube que
eu estava l.
     Jenny juntou os lbios e percebeu que Callie estava fazendo
a mesma coisa. Ela no disse uma palavra a ningum, mas
Callie certamente falou. Mas... Como foi que Callie desco-
briu? Ser que a Brett pensava que Jenny tinha contado?
     -- Eu no tenho a menor idia -- repetiu Callie, sem
olhar diretamente para Brett.
     -- Tudo bem -- murmurou Brett.
     -- Voc est bem?  perguntou Jenny. -- Com o Sr.
Dalton e tudo isso?
     Brett deu de ombros. Ela no tinha certeza do que dizer.
Queria poder ser mais adulta e contar a verdade a elas, que
enquanto ela via Eric se despindo, ela realmente sentiu falta
dos meninos de sua idade, com o apalpar nervoso, atrapalhan-
do-se com as roupas, como se no acreditassem na sorte que
tinham de ficar com uma garota como a Brett. A bvia expe-
rincia de Eric a perturbava. Ela queria poder voltar at ele e
dizer com confiana, Oi, garoto, me pega agora. Mas no con-
seguia. No estava pronta.  claro que ela queria dizer a Callie
e a Jenny tudo isso, mas j havia dito a Callie que tinha perdi-
do a virgindade h anos com aquele suo em Gstaad. O que
ela ia pensar se Brett admitisse a verdade agora?
     As meninas tomaram seus drinques em silncio, esperan-
do que Brett respondesse. Jenny se recostou. Ela se sentia com
sorte. No era namorada de Easy, mas sabia que se alguma coisa
acabasse acontecendo entre os dois, no seria nada errado. Seria
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exatamente o certo. Agora, se ao menos Callie voltasse para
Brandon...
    -- Ei -- Callie rompeu o silncio. -- Tive uma idia. --
Ela se levantou e saiu do quarto. Rapidamente, voltou trazen-
do um livro grosso de capa de couro vermelha. Dizia
WAVERLY OWLS, 2000. -- A sala de estar tem destes livros
datando at os anos 1950.
    -- Um livro do ano? -- perguntou Brett. -- Ns ainda
no estamos nele.
    -- No, mas o Sr. Dalton est. -- Callie sorriu malicio-
samente.
    -- Ai meu Deus, abre a -- exclamou Jenny.
    Elas abriram o livro dos veteranos, na letra D, de Dalton.
L estava ele, num smoking de formatura, com o mesmo sor-
riso de estou-aprontando-uma-mas-voc-no-vai-descobrir.
Ele parecia cinco anos mais novo mas ainda era um gato. Elas
olharam em silncio.
    -- Achei que talvez a gente fosse descobrir que ele era um
baita mongo obcecado por PlayStation e que tinha um monte
de espinhas -- admitiu Callie solenemente. -- Achei que isso
podia ajudar. -- Ela deu de ombros. -- No parece ser este o
caso de jeito algum.
    -- Ah, francamente -- contra-atacou Jenny. -- S o que
temos que fazer  descobrir o livro dos calouros. Garanto que
ele vai parecer um anormal total. Quer dizer, todo o mundo
parece mongo quando  calouro.
    -- At voc? -- perguntou Callie jovialmente.
    -- Ah, no. Eu nunca fui monga. Precisa ver minhas fo-
tos da quinta srie. Eu tinha aqueles suteres Old Navy. Era
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totalmente gata.
    -- Eca. -- Callie riu.
    -- . Quando voc conhecer meu pai, ele vai te mostrar
as fotos, sem dvida alguma.
    Brett bateu o travesseiro nela.
    -- Voc  to estranha.
    Jenny comeou a rir e bateu o travesseiro em Brett tam-
bm. Uma pena voou do travesseiro e caiu no lbio com bri-
lho MAC de Callie, fazendo Jenny rir ainda mais. Talvez fosse
o rum, mas ela se sentia pirada.
    De repente, houve uma batida na porta. As meninas con-
gelaram.
    -- O rum -- sussurrou Callie. -- Debaixo da cama.
    Elas lutaram para esconder os copos e, na pressa, no es-
conderam o livro do ano de 2000. Callie abriu a porta e viu
Marymount, Angelica Pardee e o Sr. Pardee, todos apertados
na soleira da porta.
    Ai meu Deus, pensou Jenny. Eles mudaram de idia. Vamos
todas ser expulsas. Merda, merda, merda.
    -- Este quarto sem dvida  grande o suficiente para qua-
tro -- refletiu Angelica, olhando em volta.
    -- S precisamos de mais uma cama -- acrescentou o Sr.
Pardee. -- J tem uma mesa vaga.
    Callie, Jenny e Brett se olharam. Quatro?
    -- Humm, podemos ajud-los? -- perguntou Brett. Ela
tentou manter a boca fechada ao mximo enquanto falava, para
que os professores no sentissem o cheiro de rum no bafo.
    -- Meninas -- anunciou Marymount. -- Tenho uma
novidade interessante que acho que vai deixar vocs felizes.
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    -- O que ? -- Callie estava perplexa. -- Vai colocar ou-
tra menina aqui com a gente?
    -- No  uma menina qualquer. -- O Sr. Pardee sorriu.
-- A sua velha amiga Tinsley.
    Todas as trs colegas de quarto caram em silncio. Callie
e Brett se encararam, os olhos arregalados. Os olhos de Jenny
dispararam de uma para a outra. Tinsley?
    -- Pera -- guinchou Callie. -- Do que est falando?
    -- Voc ouviu -- ribombou Marymount. -- O corpo
docente decidiu reintegrar a Tinsley.
    -- E ela est voltando... pra c?
    --  isso mesmo.
    -- Caraca -- foi s o que Brett conseguiu dizer. As ou-
tras meninas assentiram.
    -- Jia -- acrescentou Jenny.
    Jia simplesmente dizia tudo.
     OwlNet           Caixa de Mensagem Instantnea
      CallieVernon:   Voc est aqui no quarto, mas no
                      quero que a Jenny oua o que quero
                      dizer.
BrettMesserschmidt:   T, manda.
      CallieVernon:   No sei se tem espao nesse campus
                      para Tinsley e Jenny.
BrettMesserschmidt:   Como assim?
      CallieVernon:   Eu sei que voc entendeu o que eu
                      disse.
BrettMesserschmidt:   T, tudo bem, elas duas tm... alguma
                      coisa. Mas quem sabe ficam amigas?
      CallieVernon:   Ou arranquem os olhos uma da outra.
BrettMesserschmidt:   Vai ser um ano interessante...
      CallieVernon:   Eu que o diga.
BrettMesserschmidt:   Como vc acha que a Tinsley voltou?
      CallieVernon:   Talvez ela tenha feito um strip para
                      Marymount... Soube que ele gosta
                      disso.
BrettMesserschmidt:   Mente poluda.
      CallieVernon:   Mas  por isso que vc me adora!
BrettMesserschmidt:   Adoro mesmo. Mas s por enquanto...
